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Quarta, 06 de Outubro de 2021 - 00:00

Entenda impactos do TDAH, condição que fez deputado Alex Lima desistir de reeleição

por Jade Coelho / Mari Leal

Entenda impactos do TDAH, condição que fez deputado Alex Lima desistir de reeleição
Foto: Reprodução/Pixabay

Não é difícil encontrar uma pessoa que em algum momento da vida tenha olhado para uma criança muito ativa e chamado de “ligada no 220” ou “elétrica”. A característica pode estar associada ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). A condição, que se caracteriza por sintomas como desatenção, inquietude e impulsividade, fez com que o deputado estadual Alex Lima (PSB) desistisse de concorrer à reeleição (leia mais aqui). Ainda pouco discutido, o TDAH impacta a vida de um indivíduo da infância à maturidade e é ainda mais grave quando diagnosticado tardiamente.

 

O neurologista Elias Oliveira, professor da UniFTC e médico do Hospital Geral do Estado (HGE), explica que o diagnóstico da condição na vida adulta gera uma série de obstáculos e dificuldades para o indivíduo que vive com o transtorno. Quando acontece na infância, o tratamento pode auxiliar a tornar os sintomas mais amenos e gerar mais qualidade de vida para a pessoa. Atualmente já há mais conhecimento e mais pessoas capacitadas para identificar os indícios do transtorno em uma criança. Algumas escolas são preparadas com psicopedagogos ou psicólogos, por exemplo. Mas se sabe que essa ainda não é uma realidade em todas as unidades de ensino.

 

Diante desse cenário, existem os casos em que o diagnóstico vem somente na vida adulta. O neurologista, que também é mestre em neurociências, destaca a importância de se detectar o problema. Sem diagnóstico e sem tratamento, o transtorno pode gerar outros problemas de saúde como ansiedade generalizada e depressão profunda, aponta o médico.

 

O diagnóstico do transtorno é clinico. Não existem exames, segundo o especialista, que se possa fazer. Ele ainda acrescenta que a idade escolar é o melhor momento de identificar o problema, mas reconhece que não é sempre o que ocorre. “Imagina alguém que foi criado na roça, não tinha como demonstrar e mesmo assim apenas alguém poderia imaginar que era um menino ativo, que não prestava atenção nas coisas. É o máximo que se conseguiria”, exemplificou o neurologista.

 

O especialista explica que na idade adulta o próprio indivíduo pode ajudar o médico no diagnóstico.  Mas é franco ao apontar que “as dificuldades estão sempre presentes” e que o caminho para o tratamento é coletivo e em várias frentes.

 

“O TDAH inclui coisas como não conseguir se concentrar, não conseguir prestar atenção em algo por um tempo maior, e isso atrapalha tarefas no trabalho. Imagina argumentar com um chefe que você não consegue se concentrar? Ou que não consegue prestar atenção no que precisa fazer? Que não tem noção de tempo? E se de repente em algum momento entra num intervalo você não sabe quanto tempo ficou fora? Isso no trabalho atrapalha tremendamente”, ponderou Elias, ao sinalizar que é comum que as pessoas com a condição se cobrem e fiquem irritadas consigo mesmas.

 

“A pessoa tenta, tenta, tenta e não consegue os objetivos mínimos propostos pelos chefes. Há aqueles patrões ou coordenadores que dizem coisas impiedosamente, sem se preocuparem com a consequência. Dizem que você não consegue o mínimo. Esses processos comparativos e de depreciação levam fatalmente a sintomas depressivos e depressão profunda”, acrescentou.

 

O trabalho é apontado pelo neurologista como o maior problema das pessoas com TDAH e que não conhecem o diagnóstico ou que não fazem tratamento, mas os relacionamentos familiares também são afetados. Como exemplo ele cita que às vezes o cônjuge ou os pais não entendem o comportamento da pessoa com TDAH e interpretam como implicância, como alguém que não escuta, não entende o que é solicitado e que deixa as coisas incompletas.

 

Por isso, o médico explica que devem ser tomadas “três providências”. A primeira é o acompanhamento psíquico e emocional, às vezes até com uso de ansiolíticos. Em seguida vem a compreensão e o apoio da família. E a terceira é alguém no ambiente de trabalho disposto a contribuir, a ser uma espécie de ponto de apoio e inclinado a dar feedbacks, positivos ou não.

 

Esses três pontos permitem que a pessoa com TDAH se sinta amparada, afirma o médico. Ele ainda ressalta o fato de que a desatenção sofrida por esses indivíduos não significa que eles são menos inteligentes. “Não é déficit de inteligência e muito menos de capacidade”, garante.

 

“É uma questão da formação. Quando um bebê nasce, os olhos estão prontos, intestino pronto, mas o cérebro vai se desenvolver até o 5º ano de vida, é uma máquina extraordinária. Quaisquer distorções nesse desenvolvimento ou intrauterino o próprio organismo procura corrigir, mas às vezes sobram sequelas”, esclarece o neurologista.

 

OLHANDO PARA SI 

O deputado estadual Alex Lima tem 38 anos e está em seu segundo mandato na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA). Ao Bahia Notícias, ele contou que sempre foi uma pessoa agitada e, mesmo antes do diagnóstico, ocorrido aos 30 anos ao conviver com o luto da perda do pai, já apresentava alguns sintomas físicos mais visíveis. 

 

“Eu tinha comportamentos de muito ansioso. Roer unha, não conseguir ficar parado, não conseguia assistir filme, por exemplo, tinha dificuldade de ler um livro até o final, ficava balançando as pernas quando estava parado”, elencou. 

 

Ao refletir sobre a trajetória política na Bahia, um estado com grande dimensão territorial, Alex brinca que a hiperatividade “até ajudou no início”. “Essa agitação eu consegui transformar em trabalho para a minha primeira eleição. Rodamos muito na segunda eleição também”.  Alex foi eleito deputado pela primeira vez em 2014, efetivando a reeleição em 2018. 

 

Em 2013, quando veio o diagnóstico inicial de TDAH, o quadro clínico de Alex chegou a evoluir para uma depressão, também diagnosticada. Ele relatou que, à época, em aproximadamente oito meses conseguiu apresentar bons resultado e melhora da condição clínica. Após o período, no entanto, diferentes fatos da vida afetaram o parlamentar, servindo de gatilhos para um agravamento gradual da situação de saúde. 

 

Dentre os fatos ele lista o distanciamento físico da esposa, ocorrido em 2015, seis meses após o casamento. “Ela passou em um concurso e foi morar em São Paulo. Isso deu uma mexida”. Em 2018, Alex, que vinha de um cenário desfavorável nas eleições municipais em Esplanada – seu irmão, Rodrigo de Dedé, que tentava reeleição, perdeu a eleição para Franco de Aldemir - diz ter ido ao limite na campanha eleitoral. “A primeira eleição é a eleição da confiança. A segunda é a da competência. Você tem que mostrar que você foi bem avaliado ou não. Então eu corri demais. Realmente rodei esse estado todo e terminei 2018 esgotadíssimo”, avalia. 

 

Em 2019, uma nova situação familiar colocou mais uma camada nas questões internas vivenciadas pelo parlamentar. Alex conviveu com a luta da mãe contra um câncer de mama. A questão agravou ainda mais, confessou ao BN, em 2020, com a pandemia da Covid-19.  

 

“Você vai acumulando e tem uma hora que a máquina não aguenta. Nós temos na mentalidade o preconceito de que, por exemplo, eu tenho que fazer revisão no cardiologista todo ano. Mulheres vão ao ginecologista. Mas da cabeça ninguém faz revisão. As pessoas acham que isso não faz parte. É uma coisa que precisa ser mais desmistificada”, enfatiza. 

 

Sobre a decisão de não disputar as eleições de 2022, Alex pontua que é um momento que requer do político dedicação total, inclusive intensa disposição física e mental. Ele define a campanha eleitoral como uma “maratona”, recheada de ações não indicadas a pessoas com hiperatividades, ansiedade ou depressão. 

 

“Não é uma prova escrita”, ele compara. “Você tem que discursar bem, atender bem as pessoas. Eu costumo comparar que é como se fosse um artista sem o brilho do artista, porque, infelizmente, os políticos não são bem vistos no país. Naquele momento, as pessoas não estão procurando saber se você está passando por alguma dificuldade. Ela está ali de frente de uma pessoa que ela pode ou não votar. Então, não estando bem, como enfrentar uma maratona que é desgastante?”, questiona.

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