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Pandemia reduziu notificações de IST na Bahia; retração de casos de Aids chegou a 25%
Foto: Rodrigo Nunes/MS

Em 2020, ano impactado pela pandemia da Covid-19, a Bahia assistiu a uma redução dos casos notificados das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Segundo dados da Secretaria da Saúde do estado (Sesab), os novos registros do vírus da imunodeficiência humana (HIV), causador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), em adultos, foi 19% menor que a média dos últimos três anos (2017, 2018 e 2019). Já os casos notificados de Aids em adultos apresentaram queda de 25% no ano passado em relação à média dos três anos anteriores (31% menor que 2017; 18% menor que 2018; 24% menor que 2019).

 

A coordenadora de Agravos Transmissíveis da Vigilância Epidemiológica da Bahia, Eleuzina Falcão, aponta que a redução é percebida em indicadores epidemiológicos de praticamente todas as doenças e agravos. A leitura dela é de que esses dados estão intimamente ligados com a crise sanitária, uma vez que havia orientações para que as pessoas evitassem sair de casa e procurassem os serviços de saúde apenas em caso de extrema necessidade.

 

A gestora afastou a relação da redução dos casos notificados com a falta ou mudanças em políticas públicas nacionais. No início do mandato do presidente da República Jair Bolsonaro houve sinalização para essa possibilidade. O mandatário chegou a dizer que as pessoas vivendo com a Aids e o HIV eram uma "despesa" para o país. Na ocasião ele também apoiou que no lugar de educação sexual nas escolas, houvesse orientação e se estimulasse a abstinência sexual.

 

Ao classificar essa política como “retrocesso”, Eleuzina afirmou que diante da pandemia ela não chegou a se concretizar.

 

Na contramão dessas sugestões do governo federal, na Bahia a Vigilância Epidemiológica ampliou e descentralizou a realização de testes rápidos para todas as unidades de Atenção Básica, Atenção Primária, Prontos-Atendimentos e Maternidades.

 

A ampliação das testagens contribui com o protocolo "Testou, Tratou" (entenda melhor aqui). A depender do tipo de infecção Sexualmente Transmissível, o indivíduo começa o tratamento ou recebe orientações na própria unidade de saúde. Para cada agravo há um protocolo, por isso a conduta a ser adotada depende do resultado dos testes.

 

No caso do HIV, o vírus ataca o sistema imunológico, que é responsável por defender o organismo de doenças. Os órgãos de saúde ressaltam que conhecer o quanto antes a sorologia positiva para o HIV aumenta a expectativa de vida de uma pessoa que vive com o vírus.

 

O IMPACTO DA PANDEMIA

A maneira como a pandemia da Covid-19 afetou o tratamento e acompanhamento das pessoas soropositivas e que vivem com Aids na Bahia é alvo de estudo e de um levantamento conduzido pelo Laboratório de Pesquisa em Virologia, do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

 

De acordo com professor, pesquisador e coordenador do laboratório, Carlos Brites, as percepções iniciais são que houve impacto, mas não de grandes dimensões. “Nós estamos avaliando isso agora, na realidade concluindo levantamento pra ver esse impacto da pandemia, pelo menos no nosso centro foi minimizado, ficamos apenas três meses sem atendimento regular”, sinalizou.

 

Entre os fatos que sugerem esse efeito minimizado, o professor cita a restrição de movimentação e o fechamento temporário de alguns serviços. “Não teve impacto muito negativo e provavelmente afetou minimamente o cuidado aos pacientes com HIV”, analisou.

 

No Hupes, cerca de três mil pessoas com HIV ou Aids são acompanhadas. As estratégias adotadas para evitar a exposição desses pacientes durante a pandemia da Covid incluíram a ampliação da validade de receitas para reduzir a necessidade dessas pessoas se deslocarem até as farmácias dos hospitais. Além disso, o médico destaca que o serviço foi retomado em agosto do ano passado, e que aqueles pacientes com algum tipo de urgência não ficaram desassistidos.

 

Por três dias a partir desta quinta-feira (16) os efeitos da pandemia da Covid-19 nos pacientes e nos programas sobre HIV e Aids, terapia antirretroviral, novas estratégias de tratamento, Zika, além de outros vírus relacionados serão debatidos no 11º Congresso Brasileiro sobre HIV-AIDS e Vírus Relacionados, que acontecerá na Bahia.

 

“O foco é Aids, mas como a Aids tem muitas outras patologias que interferem, então nós abordamos habitualmente outros vírus associados. Temos necessariamente que falar de Hepatite B e C; arboviroses que podem afetar esses pacientes; falamos de HTLV que é um parente distante do HIV e falamos agora de Covid-19 que é outra pandemia viral que afeta população como um todo. Existe abordagem focada na Aids, mas que envolve também outros vírus relacionados  a problemas globais de saúde”, explicou Carlos Brites.

 

LACUNAS

Iniciada há 40 anos, a epidemia de Aids ainda sofre com duas principais lacunas: a inexistência de uma vacina e a impossibilidade de cura da doença, segundo Carlos Brites. “A vacina ainda é uma carência não suprida. Não temos ainda uma vacina comprovadamente eficaz e essa que está em teste aparentemente também ainda não vai preecher [as lacunas]”, comentou o professor.

 

Segundo ele, nos dados preliminares dos testes feitos em países da África, a vacina não se mostrou muito eficiente. “É possível que aqui a gente também não tenha resultados tão consistentes no sentido de dizer que poderemos usar essa vacina no futuro próximo”, previu o pesquisador.

 

A dificuldade do desenvolvimento de um imunizante eficaz contra o HIV está nas próprias características do vírus, explica Brites. Segundo ele, o agente infeccioso é extremamente complicado e talvez “o mais complicado que a gente já tenha enfrentado”.

 

Apesar da inexistência da vacina, o médico destaca que há tratamentos extremamente eficientes que conferem qualidade de vida às pessoas que convivem com o vírus ou a doença. “Em relação a tratamentos temos avançado muito, temos uma variedade de medicamentos extremamente amplas e eficazes. Boa parte deles disponível no Brasil. Então a gente tem condições de tratar esses pacientes e deixá-los livres de problemas relacionados ao vírus pelo resto da vida se ele tomar o remédio de modo adequado”, comentou.

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