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'O mercado de trabalho é muito difícil', diz deficiente visual sobre situação em Salvador

Por Bruna Castelo Branco

'O mercado de trabalho é muito difícil', diz deficiente visual sobre situação em Salvador
Foto: Reprodução
“Hoje eu fui a um restaurante, e resolvi fazer um teste: perguntei se eles tinham um cardápio em braile. E, como esperado, não tinha”. Em 13 de dezembro é comemorado o Dia Nacional do Cego em todo o país, mas, em se tratar de políticas de acessibilidade para o deficiente físico, o Brasil ainda deixa a desejar. João Bosco, gerente do Centro de Tecnologia da Informação (Cetin) do Instituto de Cegos, em Salvador, nasceu cego em uma pequena cidade de Sergipe, em uma época em que as tecnologias de acessibilidade ainda eram precárias. De acordo com Bosco, a maior dificuldade de ser deficiente físico em qualquer cidade – grande ou pequena – é a mobilidade urbana. “A mobilidade ainda é muito difícil e as barreiras arquitetônicas são o maior problema. Em muitos lugares, há orelhões em passeios, carros em calçadas, até em pistas táteis, e calçadas quebradas”.


"A mobilidade ainda é muito difícil", diz João Bosco sobre cidade de Salvador / Foto: Hoje São Paulo

Mas, segundo ele, a situação na capital baiana está melhorando. O gerente elogiou o programa Eu Curto Meu Passeio, iniciativa da prefeitura de Salvador que reconstrói os passeios da cidade. “A iniciativa é ótima, mas falta fiscalização. Eu acho que deveria ser feito uma triagem dos locais na cidade em que a construção de pistas táteis se fazem mais necessárias”, argumentou. O gerente citou como exemplo o Hospital Santa Izabel. “Até em hospitais temos essa dificuldades. Por exemplo, no Santa Izabel, há um estacionamento na entrada do hospital e não tem uma pista tátil. Muitas vezes, os funcionários que ficam na entrada não são treinados para ajudar um deficiente visual”. A Lapa, Baixa dos Sapateiros e o Instituto de Cegos da Bahia são locais em Salvador que contam com pistas táteis, passeios mais largos, revestidos de tijolos para a identificação do deficiente visual, que são, em tese, livre de obstáculos como orelhões ou postes.


Instituto de Cegos, Salvador / Foto: Reprodução

Mas, para Bosco, uma dificuldade muito grande ainda é o preconceito da população. “Você chega a um banco e o funcionário ainda pergunta: ‘você assina?’. Muitas vezes também ocorre de as pessoas não falarem diretamente com você, e sim com algum acompanhante que esteja ao seu lado, como se você não pudesse responder por si só”, lamentou. Sobre o mercado de trabalho, João Bosco comentou que a maior dificuldade é na contratação de pessoas com cegueira total. “Quando as empresas buscam empregar pessoas com deficiência visual, elas preferem pessoas com baixa visão, porque não precisa de todos os equipamentos necessários para uma pessoa completamente cega. O mercado de trabalho está muito difícil ainda, infelizmente”. De acordo com o gerente, as áreas de tecnologia da informação e telefonia são as que normalmente costumam contratar mais pessoas com deficiência visual. Bosco também falou sobre a vida das crianças deficientes visuais, e opinou que a base familiar é essencial para o desenvolvimento e crescimento saudável. “Algo que é fundamental, básico, é a família, e como ela recebe uma criança com deficiência. Meus pais foram de uma sabedoria fantástica, porque mesmo sendo pessoas simples, souberam conviver com a situação e não me colocaram em uma redoma, deixavam que eu brincasse com meus colegas”, contou. Sobre a educação escolar, Bosco fez algumas ressalvas. “Na escola ainda é um pouco complicado, o professor nem sempre sabe como lidar com o aluno com deficiência. Um aluno cego costuma ter menos acesso a literatura que os outros alunos, por haver poucas obras transcritas em braile. A pessoa tem que se virar, mandar o texto para algum lugar escrever em braile”.  No Instituto dos Cegos, no Barbalho, há a impressão de textos em braile. “Algumas pessoas recorrem ao instituto quando precisam de uma transcrição”, disse Bosco. Segundo Silvia Batista, presidente do Instituto de Cegos, a instituição que atende pessoas de 0 a 100 anos orienta os pacientes na área de saúde e higiene, educação e reabilitação. Para ser atendido pelo Instituto, é necessário marcar uma consulta para o oftalmologista para que seja detectado qual tipo de deficiência visual ela é portadora. O instituto promove aulas de braile, locomoção, música, informática e esportes.