Educação alimentar para crianças deve começar em casa e seguir na escola, avalia nutricionista
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

A fim de combater a obesidade infantil, além de campanhas de conscientização dos pais, é preciso ensinar, desde pequenos, os brasileirinhos a comerem bem e fazerem boas escolhas alimentares. Essa é a opinião da nutricionista Thais Vieira Viana, mestre em Alimentos, Nutrição e Saúde e professora do curso de Nutrição da FTC.

 

Para ela, os pais devem fazer essa educação em casa, mas ela também tem que estar presente nas escolas. E o ideal seria uma disciplina no currículo das unidades de ensino. “Mesmo que se tenha educação alimentar dentro de casa, disciplinas voltadas para nutrição para que elas sejam implantadas no currículo das escolas [são importantes]. Assim a alimentação saudável seria um tema abordado desde os primeiros anos escolares”, justificou a especialista. 

 

A profissional é contra a medida defendida durante um seminário da Organização das Nações Unidas (ONU) de aumentar o preço dos impostos sobre as refeições com excesso de açúcar, para que as pessoas "pensem duas vezes" antes de comprar o produto. Thais acredita que ensinar a população a ler os rótulos seria uma medida mais eficaz.

 

Durante a entrevista a nutricionista ainda falou sobre o consumo de alimentos ultraprocessados, dietas, cuidados com intoxicações alimentares com a bebida e as ceias de Natal e Ano Novo e a prática de jejum intermitente.

O Ministério da Saúde lançou uma campanha de prevenção da obesidade infantil. Três a cada 10 crianças de cinco a nove anos estão acima do peso no país. Campanhas como esta realmente são eficazes? Que outras medidas podem contribuir para melhorar esses índices?

Com certeza. O número de crianças com obesidade vem crescendo e essas campanhas vêm para conscientizar os pais principalmente, para que eles possam melhorar e mudar a introdução alimentar. Principalmente no início da alimentação, porque é esse o primeiro passo que vai ser responsável pelos hábitos alimentares da criança durante seu desenvolvimento e até na vida adulta. A obesidade era frequente em adultos e até adolescentes, mas a gente vê hoje crianças com nível de obesidade bem elevado.

 

Que outras medidas podem contribuir para melhorar esses índices? 

Ações de educação alimentar e nutricional a nível escolar. Mesmo que se tenha educação alimentar dentro de casa, disciplinas voltadas para nutrição para que elas sejam implantadas no currículo das escolas. Assim a alimentação saudável  seria um tema abordado desde os primeiros anos escolares. 

 

As escolas hoje estão preparadas para isso?

Elas melhoraram bastante. Mas ainda tem muito que caminhar. Algumas escolas têm dia para levar alimentos in natura, como frutas e raízes, mas no decorrer da semana não tem. Mas a gente fala das escolas particulares, nas escolas públicas a gente não vê tanto. 

 

O consumo de alimentos ultraprocessados tem crescido entre as crianças brasileiras, que chegam a ter praticamente metade da sua alimentação diária composta por produtos industrializados, a exemplo de refrigerantes e biscoitos. Que tipo de problemas essa alimentação acarreta nas crianças? Também tem influência a longo prazo?

Esses alimentos são os responsáveis justamente por esses altos índices de obesidade e sobrepeso nas crianças. E o que é mais preocupante é que patologias como as doenças crônicas não transmissíveis como diabetes e hipertensão estão associadas ao consumo desses alimentos industrializados, os ultraprocessados. Que além do sódio e açúcar ainda tem a questão da gordura trans. Que é o grande preditor para desenvolver doenças cardiovasculares. Então seriam adultos que estão predestinados a desenvolver esse tipo de patologia provavelmente. Então os agravos não então só associados ao consumo excessivo de sódio e de açúcar, mas também da gordura trans, que ela tem um nível patológico bem mais elevado do que a gordura saturada de origem animal por exemplo. Não que a gordura de origem animal não tenha o papel no desenvolvimento de doenças cardiovasculares, mas a gordura trans é bem mais. 

 

No mês passado a relatora especial da ONU sobre o direito à alimentação defendeu o aumento dos impostos sobre as refeições com excesso de açúcar, para que as pessoas "pensem duas vezes" antes de comprar o produto. A senhora acredita que essa estratégia realmente seria positiva?

Na verdade estratégias que ensinem as pessoas a lerem os rótulos de alimentos seria bem mais eficaz. 

 

A Anvisa está num movimento para mudar os rótulos, então você acha que esse é o caminho certo?

Com certeza. Ensinar a ler o rótulo seria a peça chave para melhorar essa alimentação e não aumentar os preços. Ela pode ter pensado da seguinte forma, porque os alimentos saudáveis são mais caros. 

 

A desnutrição ou sobrepeso são condições que atingem uma a cada três crianças com menos de cinco anos no planeta de acordo com um relatório do Unicef. Ainda assim o presidente Jair Bolsonaro afirmou que ninguém passava fome no Brasil. O que você achou da declaração?

Ele deveria ler, se inteirar sobre o assunto, para depois se posicionar. Apesar da gente ter um número elevado de obesidade e sobrepeso, que também está associado a crianças desnutridas, não no ponto de vista de peso mas de nutrientes, a gente continua tendo um alto índice de crianças desnutridas. De pessoas no geral. E quando as crianças chegam a ficar desnutridas é porque aquele grupo familiar já está num nível de insegurança alimentar avançado. Atitudes como essas [do presidente] contribui para a regressão do que já foi conquistado. 

Estamos nos aproximando das festas de final de ano, época marcada por mesa farta e aumento no consumo de bebidas alcóolicas. Existem problemas de saúde causados por comer demais?

O principal problema em relação a comer demais nessas épocas são os casos de intoxicação alimentar. Principalmente porque são pratos feitos em grande quantidade, geralmente. Tem o hábito também de cada um fazer uma preparação, tem ainda o tempo de deslocamento de um local para o outro, e nem sempre as boas práticas de manipulação de alimentos são colocadas em prática. Então o principal problema é a intoxicação, tanto a nível de consumo de alimentos contaminados por micro-organismo ou toxinas que eles produzem, como também o consumo excessivo de álcool que também causa a intoxicação por exagero. 

 

Quais seriam os cuidados que a gente poderia ter para evitar esses problemas com intoxicação alimentar?

A gente precisa manter esses momentos de partilha. É um momento importante. O alimento em si envolve muito a interação das pessoas, mas a gente precisa tomar cuidado. Não utilizar os mesmo utensílios para cortar e servir diferentes pratos. Porque pode ocorrer uma contaminação cruzada, que é levar a contaminação de um para o outro. Principalmente com frutas e hortaliças que a gente come cru, então a gente não elimina pelo calor, pelo aquecimento, como a carne a gente eliminaria. Também manter os alimentos aquecidos, acima de 65 graus ou manter refrigerado. O outro problema da refrigeração é que geralmente a gente lota a geladeira nessa época, então a circulação de ar fica inadequada, a temperatura não cai tanto e a probabilidade dos micro-organismos se proliferarem é maior. 

 

Então nessas épocas devemos aumentar a potência da geladeira?

Isso mesmo. E sempre manter os alimentos no máximo duas horas a temperatura ambiente. 

 

Há uma maneira de preparar o corpo para exagerar um pouco nessa época?

Optar por alimentos mais leves antes do momento da ceia. Nas outras refeições optar por mais hortaliças, saladas, frutas, evitar muita gordura, especialmente de origem animal. E também tentar aliar esses alimentos durante a ceia. Fazer opções mais leves para poder equilibrar, apesar desses alimentos não comporem tanto a ceia que a gente está acostumado. O mais próximo de uma salada é o salpicão.

 

Também estamos nos aproximando no verão. Há quem acabe apelando para dietas emergenciais e que prometam resultados milagrosos. Você já teve algum paciente que tentou seguir alguma dieta dessas? Quais foram as mais absurdas?

Aparece cada história, cada questionamento. O jejum intermitente é o que mais acontece. Tem sido comum a dieta low carb e que acaba sendo zero carboidrato e que pode levar a um quadro de tontura, náusea, mal estar. Nela se reduz a quantidade de carboidrato que o indivíduo vai comer durante o dia, só que quando se vê na internet e nas redes sociais a gente vê muitas dietas malucas com zero carboidrato. Até as frutas são condenadas em algumas dietas malucas da internet. E as consequências são graves. Porque a gente produz muitos corpos cetônicos que em níveis muito elevados são tóxicos. 

 

Aproveitando que você comentou. Eu já vi em algumas oportunidades as pessoas realmente condenando as frutas sob o argumento de que elas são ricas em frutose que no organismo vira açúcar. Até que ponto isso é verdade?

Coitada da fruta. Ela tem frutose, vitaminas, minerais, fibras, e são esses elementos são a grande peça chave das frutas. Eles vão equilibrar, principalmente o nível de frutose que a gente vai absorver, que são justamente os carboidratos, o açúcar da fruta, que as pessoas têm tanto medo. Tem pessoas que por exemplo têm diabetes e deixam de comer fruta para comer alimentos industrializados diets, que pra mim é o maior erro. Porque você passa a comer alimentos industrializados cheios de aditivos químicos, e deixa de comer alimentos naturais que a gente tem vários macetes para reduzir a absorção utilizando por exemplo farelo de aveia junto com a fruta. Manejos que vão reduzir a absorção dessa frutose para quem tem diabetes. Mas jamais eu recomendo tirar fruta para colocar um alimento industrializado diet.

 

A prática do jejum vem ganhando adeptos. Muita informação e das mais variadas são compartilhadas na internet, como você mesma comentou. Essa é uma prática eficaz? Qualquer pessoa pode fazer? Quais cuidados devem ser tomados para essa prática?

Eu falo para os meus pacientes 'você não fez um jejum enquanto estava dormindo?'. Eu sempre digo que minha conduta é baseada em embasamento científico, então se não tem comprovação científica de que não tem contraindicação e que ela tem eficiência a gente prescreve, mas até então, com base em achismos e casos isolados a gente não passa. Porque tem pacientes até que não podem ficar com tempo tão longo sem se alimentar. 

 

Qual a quantidade de horas considerada aceitável para uma pessoa ficar em jejum?

A gente faz a base de comer de três em três horas. Se a gente for pensar em uma perda de peso a gente reduz o volume das refeições e aumenta o fracionamento. Mas o tempo mais longo para uma pessoa ficar sem se alimentar é enquanto ela dorme.

 

Que teoricamente seriam as oito horas recomendadas?

Exatamente. 

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