Defasagem da tabela do SUS e atuação da ANS são maiores desafios de gestores de hospitais
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

A defasagem da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), há muitos anos sem reajuste, é um dos grandes problemas enfrentados por gestores hospitalares brasileiros, no entendimento do presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde da Bahia (AHSEB) e vice-presidente da Federação Brasileira de Hospitais, Mauro Duran Adan.

 

Na lista de dificuldades enfrentadas por aqueles que têm que gerir empresas que cuidam de pessoas, o segmento da saúde suplementar, ainda está a atuação deficiente da Agência Nacional de Saúde (ANS), que, segundo Adan, peca na fiscalização da lei que assegura o reajuste de contratos e retorno às denúncias feitas.

 

Defendendo que “saúde não é comércio, mas é negócio”, o presidente da AHSEB ainda criticou o fato de no Brasil não existirem linhas de crédito para ampliação de negócios na área, que é impactada diretamente pela qualidade da economia no país. “A crise econômica gera também a redução do número de empregos. Se reduz o número de empregos e se reduz o estágio econômico da população, a gente sente isso frontalmente porque mais pessoas migram do sistema de saúde suplementar para o Sistema Único de Saúde, sobrecarregando o estado”, analisou o gestor.

 

Nesta semana Salvador sedia a 13ª Convenção Brasileira de Hospitais, evento nacional que discute temas relacionados a saúde, capacitação para os gestores do segmento, além de apresentação de casos, novidades do setor e novas tecnologias.  

O que é, qual o papel e por quem a Associação Brasileira de Hospitais é formada?

 A Associação de Hospitais é uma entidade sem fins lucrativos, que congrega hospitais, clínicas, laboratórios, todo o segmento de saúde privado e filantrópico do estado da Bahia. Nós representamos grande parte dos atendimentos de saúde suplementar da Bahia e, no Brasil, o segmento de saúde representa 9,8% do PIB, com aproximadamente 4,5 milhões de trabalhadores formais. O nosso segmento trabalha com mão de obra intensiva. Sendo assim, por mais que se informatize, coloque tecnologia, vamos sempre precisar de muita gente ou pessoas ainda mais qualificadas. Então para o desenvolvimento do país como um todo, o desenvolvimento da área de saúde é muito importante. 

 

Como gestores hospitalares devem lidar com a linha tênue entre o hospital enquanto empresa, inserida em um mercado financeiro, e o hospital enquanto serviço de acolhimento e um local em que deve haver empatia e proporcionar bem estar?

Essa é a primeira finalidade de uma instituição de saúde. Quem abre uma instituição de saúde, quem tem um propósito de trabalhar numa instituição de saúde, tem o primeiro propósito de servir, de atender as pessoas, propiciar mais saúde, a cura ou o alívio do sofrimento. Mas nossas instituições precisam ficar vivas, equilibradas financeiramente, precisamos continuar fazendo treinamento. Nós trabalhamos com mão de obra intensiva, então precisamos investir em gestão de pessoas, em tecnologia, processos, tecnologia na informação, custos, segurança do paciente, em compliance, governança corporativa, e o mercado da Bahia hoje traz isso na sua tônica. A grande maioria das nossas instituições aqui, hospitais principalmente, tem acreditações. Então nós não vivemos essa dicotomia, não, nós convivemos com isso com muita naturalidade. Isso faz parte da essência do negócio, servir, atender, cuidar, humanizar, mas manter o negócio vivo, equilibrado, contratando mais, investindo mais. A saúde não é comércio, mas é negócio.

 

Quais são as características que tornam uma pessoa um bom gestor hospitalar? Quais as maiores dificuldades da função?

Como qualquer segmento o gestor é desafiado no dia a dia. No segmento de gestão hospitalar nós somos mais desafiados, ou tão desafiados quanto outros segmentos, porque nós lidamos com uma área muito sensível, que tem uma demanda dependente muito da força da economia e da geração de empregos. Hoje no Brasil quanto mais emprego se cria, mais oportunidade de atendimento nós temos aos nossos usuários no sistema de saúde suplementar. Quanto mais a economia tem dificuldade, menos oportunidade de clientes nós temos. O perfil do gestor hospitalar é aquele de um profissional moderno, que precisar ser antenado com o mercado, preparado com o papel de liderança, porque ela trabalha com muitas pessoas, trabalha com uma equipe multidisciplinar. Ele precisa ter muito conhecimento de custo, visão estratégica, precisa trabalhar muito com planejamento, então é um profissional que hoje é muito exigido, mas isso é bom, porque dá oportunidade a todos nós de nos desenvolvermos mais ainda. 

 

A saúde é impactada diretamente pela tecnologia com o surgimento de novos tratamentos, exames e remédios modernos. Mas também nesse sentido, com a difusão cada vez maior das redes sociais e ferramentas de mensagens instantâneas e compartilhamento através da internet, cresceu também a difusão de Fake News. Como isso impacta a saúde?

O principal problema é deixar a população insegura, as pessoas ansiosas, sem saber como conduzir. O que nós sempre orientamos é que as pessoas procurem um profissional de confiança. Se você não tem, crie uma relação de confiança, seja com um médico, seja psicólogo, fisioterapeuta. Você procura um profissional com quem você crie um vínculo. Para que você procure aquele profissional para que ele lhe dê as respostas que você precisa. E deixar de se influenciar pela notícias externas que em alguns momentos só trazem confusão. Um dos grandes pontos que a gente percebe hoje com as Fake News é que elas afetam principalmente as pessoas que não têm relação de confiança seu médico. 

O que o senhor aponta como os maiores avanços e as maiores dificuldades enfrentadas pelos hospitais brasileiros?

Hoje a maior dificuldade que nós percebemos nos hospitais brasileiros é a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS). Para quem atende o SUS, as tabelas estão muito defasadas, há muitos anos sem reajuste, sem realinhamento, e aí nós vemos a situação principalmente das entidades filantrópicas que sempre têm que estar captando recursos, fundos, para poder se manter vivas. Temos também uma atuação da Agência Nacional de Saúde (ANS) que a gente entende que não é na dimensão que precisava ser. Por exemplo, para fiscalizar a Lei 13.003 que é a que trata do reajuste dos contratos. Essa lei diz que as fontes curadoras precisam reajustar os contratos anualmente, e nós não percebemos a ANS sendo eficaz nessa fiscalização apesar das denúncias que nós fazemos frequentemente. Também temos uma dificuldade porque não tem no Brasil muitas linhas de financiamento privilegiando o sistema de saúde. A gente precisa que tenha mais linha de financiamento contemplando o sistema de saúde para que o empresário não precise sempre ter que colocar seu patrimônio pessoal para tomar uma linha de financiamento para ampliar o seu negócio que vai gerar mais emprego, visto que em muitas vezes a gente não consegue captar recurso e colocar o próprio negócio para garantir o recurso que está sendo captado. E a crise econômica que gera também a redução do número de empregos. Se reduz o número de empregos e se reduz o estágio econômico da população, a gente sente isso frontalmente, porque mais pessoas migram do sistema de saúde suplementar para o sistema único de saúde, sobrecarregando o estado, para dar assistência ao SUS quando, na realidade, se a economia estivesse mais forte, mais estruturada, boa parte dessas pessoas poderiam migrar para o sistema de saúde suplementar e serem clientes nossos e diminuir um pouco o investimento que o estado faz no Sistema Único de Saúde. 

 

O senhor comentou sobre a crise econômica e como isso impacta o sistema de saúde. Tem alguma estimativa de quanto se perdeu desde o início da crise? Ou de quantos postos de trabalho foram fechados?

A nível nacional já tivemos 51 milhões de usuários no sistema de saúde suplementar, hoje temos pouco mais de 48 milhões. Então nos últimos anos de crise econômica se perdeu muito em número de usuários, isso são clientes para nós. Isso já esteve em 47 milhões, hoje já está em 48, tem uma leve recuperação, mas ainda estamos muito longe do patamar que já estivemos há 7, 8 anos. Isso reduz o número de demanda, de clientes para nossas unidades de saúde, de pessoas que podem ter uma cobertura de saúde suplementar. 

 

A telemedicina divide opiniões entre profissionais e entidades de saúde. Neste mês um plano de saúde começou a ofertar o serviço em São Paulo e foi criticado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Médica Brasileira (ABM). Qual a opinião da Associação de Hospitais sobre o tema?

Nós entendemos que o caminho para a telemedicina é inevitável. Mas ela não pode ser feita de forma atropelada, tem que ser construída com as entidades médicas e com todos os players de mercado. Eu não sei como essa empresa nacional está fazendo, também li a informação no noticiário, mas eu entendo que não podem ser atitudes isoladas para poder fazer essa construção. Entendemos que a telemedicina é um avanço, ela vai chegar, é inevitável chegar no mercado, nós precisamos que ela venha para a saúde, mas ela precisa ter regulamentações. E essa regulamentação tem que vir muito mais para construir um futuro melhor do que para dividir. 

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