Quarta, 09 de Janeiro de 2019 - 11:10

Com Central de Telemedicina, Vilas-Boas espera reduzir mortes por infarto na Bahia

por Renata Farias / Rebeca Menezes

Com Central de Telemedicina, Vilas-Boas espera reduzir mortes por infarto na Bahia
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Pacientes de 52 municípios baianos receberão atendimento à distância para casos de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). O projeto do governo do Estado foi anunciado recentemente e inclui ainda a implantação de uma Central de Telemedicina em Salvador, de onde médicos especialistas orientarão generalistas nos procedimentos necessários.

 

"A Bahia é um estado do tamanho da França, as nossas distâncias são quilométricas e é impossível garantir a presença de médicos especialistas próximo de todos os municípios. Na questão do infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular cerebral, a necessidade de um médico especialista em poucos minutos faz a diferença se a pessoa vai sobreviver ou não e se vai ficar com sequela maior ou menor", explicou o secretário da Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

De acordo com o gestor, as salas de implantação terão investimento aproximado de R$ 2,5 milhões. Na Central de Telemedicina, que será construída no Solar Boa Vista, no bairro de Brotas, será implantado uma videowall para que os médicos acompanhem o atendimento. O projeto prevê ainda, no futuro, o fornecimento de segunda opinião médica com o mesmo sistema.

 

"Nós estamos desenhando um sistema de segunda opinião, inicialmente para a rede de urgência e emergência, que vai abrigar as UPAs e terapia intensiva. Em um segundo momento, especialidades de baixa oferta, como dermatologia, reumatologia e especialidades com poucos especialistas formados na Bahia. Esse é um projeto muito importante e que vai favorecer e viabilizar a atenção especializada para regiões nunca alcançadas", acrescentou Vilas-Boas.

 

Durante a entrevista, o secretário falou ainda sobre o primeiro ano de funcionamento das policlínicas regionais. Apesar de avaliar o período como "extremamente positivo", ele pontuou dificuldades encontradas, principalmente para contratação de profissionais.

 

"O índice de satisfação da população atendida é superior a 98%. Entretanto, para conseguir chegar nesse estágio, nós tivemos muitas dificuldades. Tivemos dificuldade para conseguir profissionais, principalmente médicos e técnicos especializados", afirmou. "Foi necessário buscar profissionais em outras regiões, lançar editais em jornais de circulação nacional, trazer médicos de fora para conseguir preencher todas as especialidades nas oito policlínicas. Essa foi uma experiência difícil de ser contornada, mas hoje temos todas as policlínicas com todas as especialidades, ainda não em todos os turnos que precisávamos ter", explicou.

No último mês de novembro, completamos um ano da implantação das primeiras policlínicas. Gostaria que o senhor fizesse um balanço desse período.

O balanço é extremamente positivo. Do ponto de vista assistencial, as policlínicas são um sucesso. Levaram assistência de média complexidade para municípios e regiões que não tinham, levaram dezenas de exames e consultas com especialistas onde não tinha. O índice de satisfação da população atendida é superior a 98%. Entretanto, para conseguir chegar nesse estágio, nós tivemos muitas dificuldades. Tivemos dificuldade para conseguir profissionais, principalmente médicos e técnicos especializados. Tivemos que treinar e capacitar os técnicos, porque nas regiões não havia os exames e, consequentemente, não havia técnicos preparados para operar as máquinas. Em relação aos médicos, a despeito de pagarmos um salário extremamente competitivo - nossa remuneração é de R$ 10,4 mil por um contrato CLT para trabalhar 20 horas por semana, quatro horas por dia - nós não conseguimos atrair médicos. Foi necessário buscar profissionais em outras regiões, lançar editais em jornais de circulação nacional, trazer médicos de fora para conseguir preencher todas as especialidades nas oito policlínicas. Essa foi uma experiência difícil de ser contornada, mas hoje temos todas as policlínicas com todas as especialidades, ainda não em todos os turnos que precisávamos ter. Ainda estamos carecendo desses médicos especialistas que deverão ser lançados no mercado agora em fevereiro, quando terminam os programas de residência médica.

 

O senhor propôs, durante uma reunião do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), a estadualização do Programa Mais Médicos. De que forma essa mudança beneficiaria o país e de que forma a proposta foi recebida?

O Mais Médicos é um programa federal que tem muito pouca participação dos estados e municípios na sua operacionalização. O SUS é tripartite, ou seja, com participação dos três entes federados. A proposta que nós fizemos na reunião do Conass foi de que fosse encaminhada ao gabinete de transição uma proposta de estadualizar o programa, transformando-o em um programa tripartite. Através desse modelo, os estados fariam o contrato com os médicos e ficariam responsáveis pelo programa de formação desses médicos. É preciso lembrar que o Mais Médicos é um programa que prevê uma pós-graduação em saúde da família e que os médicos recebem uma bolsa para se capacitar durante o trabalho. Com a nossa proposta, estaríamos mais próximos e com controle maior para criar um programa de capacitação mais qualificado e atrair mais de 15 mil médicos brasileiros formados em países da América Latina e que hoje estão excluídos do mercado porque não conseguem passar no Revalida, do Ministério da Educação. Nossa intenção seria criar um programa de capacitação e correção para que eles pudessem corrigir eventuais déficits das suas formações e, assim, ter maiores chances de passar no Revalida. Gostaria que o programa fosse de dois anos e que fizéssemos avaliações mensais teóricas e quadrimestrais práticas. Nós forneceríamos um sistema de educação à distância para que ele pudesse se qualificar. Essa foi a proposta submetida.

 

O senhor citou a formação dos médicos. Com esse recente edital do Mais Médicos, surgiu um medo de que os profissionais que se inscreveram saiam para programas de residência a partir de março.

Na verdade, não é nem em março, porque os programas de residência começam a entregar as vagas em janeiro. É provável que, em fevereiro, uma parte já abandone o Mais Médicos. Houve uma baixa adesão aqui na Bahia, uma não-adesão às áreas consideradas sem infraestrutura pelos médicos. Alguns municípios estão sem médicos e isso deverá, seguramente, piorar. O chamamento do Ministério da Saúde para médicos brasileiros formados no exterior não resultou em uma adesão grande justamente pelo fato de não haver uma garantia de qualidade nesse programa de formação oferecido.

Dados do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) mostraram que alguns médicos deixaram os contratos com os municípios para adesão ao Programa Mais Médicos. Quais o senhor acha que podem ser as consequências desse movimento, tanto para a população quanto para as prefeituras?

Elas já existem e são visíveis. Temos uma desassistência, populações sem acesso a médicos, voltando aos status de cinco anos atrás, quando as pessoas precisavam se deslocar para outros municípios em busca de atenção básica. Isso é muito ruim porque determinará uma queda no controle de doenças crônicas e degenerativas, como hipertensão e diabetes, assim como determinará uma redução na qualidade e quantidade do pré-natal, o que impacta em partos de risco mais elevado, partos prematuros e necessidade de internação.

 

O senhor acha que isso também pode impactar na exigência dos médicos, principalmente com relação a salários?

Isso já aconteceu. O histórico antes do Mais Médicos era que os médicos ditavam para os municípios quanto eles gostariam de receber e qual a carga horária que aceitavam trabalhar. Com o Programa Mais Médicos, isso acabou. Os médicos recebem R$ 11 mil de bolsa e isso vinha funcionando perfeitamente em todas as regiões. Essa desassistência agora vai fazer com que os municípios que tenham capacidade financeira de arcar com essa despesa precisem contratar médicos a peso de ouro.

 

Recentemente, o governador Rui Costa anunciou a implantação de 52 salas de estabilização no interior e construção da Central Estadual de Telemedicina. Como vai funcionar esse projeto? Já há um prazo para entrega? Quanto será investido?

A Bahia é um estado do tamanho da França, as nossas distâncias são quilométricas e é impossível garantir a presença de médicos especialistas próximo de todos os municípios. Na questão do infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular cerebral, a necessidade de um médico especialista em poucos minutos faz a diferença se a pessoa vai sobreviver ou não e se vai ficar com sequela maior ou menor. Como não é possível garantir a presença de cardiologistas e neurologistas a poucos minutos de todos os municípios, e graças ao avanço da tecnologia, hoje é possível garantir centralmente um médico que vai fazer o acesso remoto, por vídeo, ao paciente, no local onde ele está sendo atendido. Nós identificamos 52 localidades com maior incidência de infarto do miocárdio na Bahia. Nessas 52 localidades, identificamos quais eram as unidades hospitalares com melhores condições, desenhamos uma política estadual, aprovamos isso nas comissões intergestoras e temos uma política pública definida de teleatendimento para essas condições. Fundamentalmente, cada sala de atendimento terá uma estrutura onde o paciente é conectado a um monitor que registra eletrocardiograma, pressão arterial, saturação de oxigênio, como qualquer monitor de UTI e um equipamento de telemedicina com câmeras que vão estar filmando o paciente e o médico, com microfones de alta fidelidade. O médico na central estará com uma videowall enxergando aquele paciente como se estivesse ao vivo do lado dele. Ele vai tratar o paciente através de um médico que vai estar presente se responsabilizando pelas condutas adotadas. É importante dizer isso porque a legislação brasileira proíbe que um médico determine qualquer tipo de conduta sem estar presente ao lado do paciente, isso é vedado pelo Conselho Federal de Medicina. Só que ele vai estar servindo como consultor para um médico emergencista que vai determinar a aplicação das medicações para tratar um acidente vascular cerebral ou infarto agudo do miocárdio.

A ideia é que esse médico generalista apenas estabilize o paciente para que ele seja transferido?

No caso dessas duas condições, há uma estratégia que lança mão de uma medicação que dissolve os trombos. No caso de um acidente vascular cerebral isquêmico, você injeta uma substância que dissolve o coágulo. Com isso, você salva a vida do paciente e ganha tempo para providenciar um cateterismo cardíaco nos próximos dias. No caso dessas duas condições, a telemedicina irá fazer com que o médico que não tem familiaridade com a aplicação desse tipo de medicação se sinta à vontade para utilizá-la. Nós temos uma baixíssima taxa de uso de trombolítico na Bahia e isso está associado diretamente a uma elevada taxa de mortalidade específica por infarto do miocárdio. 

 

E qual vai ser o investimento total nesse projeto?

O investimento é pequeno, do ponto de vista dos centros. Eles basicamente vão ter equipamentos de estabilização, o que gira em torno de R$ 50 mil cada sala montada, o que daria em torno de R$ 2,5 milhões. No entanto, não será necessário fornecer equipamento para todos, já que a maioria dos hospitais já possui desfibrilador e monitor. Na Central de Telemedicina, teremos que construir uma videowall. O sistema de banda larga já existe para comunicação com todas essas unidades. O capital investido nessa estruturação não vai ser grande. Teremos a maior despesa centrada no custeio, que será basicamente o que a gente gasta com dois plantonistas 24h em uma UTI. É como se eu tivesse uma UTI de neuro e uma de cardio para atender toda a rede. A depender de como isso evoluir no futuro, é possível que a gente precise contratar mais médicos para demandas simultâneas. Nesse nosso projeto de telesaúde está prevista também a segunda opinião à distância em outras especialidades. Hoje temos um sistema de telesaúde em que a pergunta é postada digitalmente, por escrito, pelo médico nas unidades básicas de saúde e respondidas, em até uma semana, por um consultor. Não tem mais cabimento isso hoje em dia. A tecnologia me permite disponibilizar o médico online para qualquer tipo de consulta. Nós estamos desenhando um sistema de segunda opinião, inicialmente para a rede de urgência e emergência, que vai abrigar as UPAs e terapia intensiva. Em um segundo momento, especialidades de baixa oferta, como dermatologia, reumatologia e especialidades com poucos especialistas formados na Bahia. Esse é um projeto muito importante e que vai favorecer e viabilizar a atenção especializada para regiões nunca alcançadas.

 

O senhor já disse algumas vezes que não tem interesse em disputar eleição. Mesmo assim, seu nome continua aparecendo como possível candidato, tanto em 2020 quanto em 2022. Por que o senhor acha que isso acontece? Acha que tem relação com o trabalho que tem feito na secretaria, principalmente pela presença no interior do estado?

Não sei, tem que perguntar às pessoas que ventilam meu nome. Política é uma área muito nova para mim. Não sou filiado a qualquer partido político, meu partido é o SUS. Eu sou um técnico que vim trabalhar em uma área com missão técnica. Eu não sei dizer por que meu nome tem sido ventilado, por que um médico ir para uma missão política.

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