Quarta, 08 de Outubro de 2014 - 00:00

‘Saúde é desafio na Bahia ou no mundo inteiro’, diz responsável pela regulação no Estado

por Francis Juliano. Fotos: Bruna Castelo Branco | Bahia Notícias

‘Saúde é desafio na Bahia ou no mundo inteiro’, diz responsável pela regulação no Estado
Foto: Bruna Castelo Branco/Bahia Notícias
Responsável por um dos pontos mais criticados da saúde baiana durante a eleição (como também fora dela), o sistema de regulação, o superintendente do setor, Andrés Alonso, diz que as críticas não se equiparam ao que é feito pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesab). “Sempre se coloca: ‘ah, existe isso e aquilo’, mas quando você vai para o indicador, você vê que o trabalho está sendo feito”, declarou ao Bahia Notícias. Dados do gestor apontam que, em 2013, 58 mil pessoas foram reguladas no estado, ante 22 mil, em 2006, um crescimento de mais de 150%. Segundo Alonso, a saúde “é um desafio tanto na Bahia como no mundo inteiro” e a regulação tem mais visibilidade porque “mexe com a sensibilidade das pessoas”. Na entrevista, o superintendente, que também é responsável pelo rastreamento do câncer de mama no estado, falou também sobre ações da Sesab no Outubro Rosa, mês dedicado à prevenção do tumor mais comum entre as mulheres. Na Bahia, segundo Alonso, cerca de 200 municípios estão cobertos com o rastreamento de câncer, menos de 50% dos 417 municípios. A previsão, segundo o gestor, é que até 2016 a cobertura atinja todas as cidades baianas. Leia abaixo a entrevista na íntegra.
 
 
Bahia Notícias: A gente está no Outubro Rosa, mês dedicado ao alerta para a prevenção do câncer de mama. Já que o senhor é responsável pelo rastreamento desse tipo de tumor, tem alguma ação específica da Sesab para o mês?
 
Andrés Alonso: O programa de rastreamento do câncer de mama no estado da Bahia ocorre de uma forma mais significativa desde outubro de 2011, com o credenciamento especifico e unidades de mamografia móvel que atendem em todo o estado. De lá para cá, a Bahia tem o maior programa de rastreamento do câncer de mama no país. Foram mais de 180 mil mamografias realizadas. Qual a diferença da concepção do Outubro Rosa para o programa regular de rastreamento? É que neste mês, o estado da Bahia abriu a faixa etária, que é de 50 a 69 anos, para 40 a 69 anos. Ou seja, neste mês nós estamos incorporando para além do protocolo do Ministério da Saúde.
 
BN: Para além do Outubro Rosa, há uma perspectiva de manter esse tipo de ação por mais tempo?
 
AA: A ação que vem sendo realizada pelo governo do estado é intensa. O programa de rastreamento não se caracteriza pontualmente pela realização da mamografia. Nós garantimos desde a mamografia até a realização dos exames complementares, consulta com mastologista e todo o seguimento do tratamento, caso seja realizado algum diagnóstico que necessite de apoio.
 
BN: E isso está bem distribuído na Bahia? Quantos municípios estão cobertos por esse rastreamento?
 
AA: São mais de 200 municípios atendidos pelo rastreamento de câncer de mama.
 
BN: Então, menos de 50% [dos 417 municípios da Bahia].
 
AA: Um pouco menos de 50% nesse período. Hoje, acho que a gente já consegue atender mais de 50%. O que não significa dizer que não cobriu a maior parte dos municípios. Porque, por exemplo, você vai a Jequié, e dentro daquela região se atende outros municípios, como Manoel Vitorino, Jaguaquara, Itaquara e Santa Inês. O objetivo nosso é fazer uma cobertura de 100% dos municípios baianos com uma previsão que entre 2015 e 2016 todos os municípios estejam cobertos com rastreamento do câncer de mama. 
 

 
BN: Além do mamógrafo, que é um exame de raio X, a Sesab também faz campanhas de conscientização? Porque melhor informadas, as mulheres podem procurar ajuda antes da manifestação de algum tumor. Isso é responsabilidade da Sesab, ou é uma prerrogativa dos municípios? 
 
AA: Esse programa [de rastreamento] também incorpora o processo educativo, de explicar como é o autoexame, qual é a faixa etária de maior risco, quais são os sintomas, como se evitar, os fatores de risco, o que indica um acompanhamento. Mas a gente espera que os municípios tenham também uma cobertura importante do programa Saúde da Família e dos agentes de saúde. É importante registrar que o programa Mais Médicos do governo federal tem sido fundamental para esclarecer as mulheres sobre os sinais e sintomas do câncer de mama. 
 
BN: Uma pesquisa [encomendada pela Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama)] informa que a Lei dos 60 Dias, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, em 2012, que obriga do diagnóstico ao início do tratamento do câncer o máximo de dois meses, diz que apenas 60% das pessoas conseguem tratamento neste tempo. [Tem gente que espera um ano]. Como o senhor é responsável pela regulação, qual é a situação da Bahia?
 
AA: Primeiro, é preciso fazer um recorte a partir do momento do que é o diagnóstico da doença. Porque o diagnóstico é a suspeita ou o fechamento? O diagnóstico, no nosso entendimento, é a confirmação 100% de que exige o tratamento. O Estado, dentro dessa perspectiva, tem garantido assistência. Hoje, o principal trabalho do Estado é monitorar. Porque, inclusive, os maiores serviços de oncologia são contratados pelo Município. Aqui em Salvador, o maior serviço é contratualizado pelo Hospital Aristides Maltez. Nós temos o Roberto Santos, que é uma referência importante, mas não é um hospital de oncologia.
 
BN: O Siscan, Sistema de Informação do Câncer, que veio na Lei dos 60 dias, diz que dos 5.564 municípios brasileiros, apenas 1.546 têm informações atualizadas. Quantos municípios baianos estão integrados e atualizados e qual a média que as pessoas passam do diagnóstico ao início do tratamento no estado?
 
AA: Naturalmente, esse processo de alimentar o sistema envolve uma qualificação do corpo técnico do município. Esse trabalho não é simples de ser feito porque envolve técnicos do município, só que esse tipo de informação é prestada a partir do município onde o paciente foi atendido. Em via de regra, onde a gente tem serviços de oncologia na Bahia? Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Itabuna, que são as maiores referências em serviços de oncologia na Bahia. E onde a gente tem informação, esses municípios estão preparados e alimentando o sistema. Agora, muitas vezes, tem município que tem a informação, faz o acompanhamento, mas por fragilidade, não faz o registro. Mas isso não quer dizer que essa garantia não esteja sendo dada no local pelo fato de a informação não está no sistema.
 
 
BN: Outra questão que foi muito discutida na campanha eleitoral foi o tema da regulação. E aí não é apenas um ponto levantado por candidatos de oposição ao governo, mas sim um problema constatado nos hospitais do estado. Aqui no BN, a gente também informa sobre pacientes que precisam entrar na Justiça para conseguir transferência de uma unidade para outra. Qual é então a real condição da regulação da Bahia?
 
AA: Naturalmente, a expectativa é que todos os problemas sejam resolvidos simultaneamente, atendendo todas as necessidades. Quando a gente fala de regulação, a gente fala de uma capacidade que não se esgota com a oferta de serviço. E quando se fala em trabalhar para melhorar a regulação, a gente tem contratado mais médicos, equipado melhor a central de regulação, dado mais tecnologia, feito gestão de frota, garantindo o transporte inter-hospitalar. Por outro lado, a gente tem que melhorar a oferta. O estado da Bahia foi o que mais ampliou sua oferta em leitos hospitalares de grande complexidade para retaguarda de urgência e emergência, que é a grande demanda da regulação. Como você faz isso? Contratando leitos de UTI´s e entregando leitos novos à população, e nós batemos recorde. Para o recurso que vinha sendo disponibilizado historicamente, a Bahia ampliou muito a oferta. Além de triplicar os leitos de UTI´S, nós ampliamos em outras áreas, como neurocirurgia, ortopedia, cirurgia cardíaca, com contratação dentro do Município de Salvador.
 
BN: Agora, com tudo isso, porque há ainda problemas na regulação?
 
AA: A Saúde é um desafio. Quando se fala em urgência e emergência é um desafio tanto na Bahia como no mundo inteiro. É um setor extremamente delicado. Mexe na necessidade emergente dos pacientes, das famílias. Mexe com a sensibilidade das pessoas. Mexe com o estado de espírito, com a rotina, com o preparo das pessoas para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia. Isso é natural. E o governo entra com o compromisso de trabalhar e prestar contas do trabalho. O trabalho que esta sendo feito tem tido resultados que se for comparado com o que era feito em toda a história, resultados que nunca foram alcançados. Vou trazer um dado que é simbólico. Em 2006, foram regulados 22 mil pacientes. No ano de 2013, foram regulados 58 mil pacientes. Ou seja, um aumento de mais de 150%. A população da Bahia não aumentou mais do que 10% a 15% no período.
 

 
BN: Qual o grande problema da regulação que precisa ser resolvido?
 
AA: Não é um problema, mas podemos falar em solução. Que é ampliar a oferta de serviço que tem sido feita como nunca. Nós fizemos cinco novos hospitais, que não foram hospitais de baixa complexidade. Inclusive, tem um que é referência no Brasil inteiro, quiçá até no mundo, que é o hospital do Subúrbio. 
 
BN: Nós temos um estado, com área praticamente continental, com concentração de recursos na saúde próximos à capital. Por que não investir mais em áreas menos assistidas no interior?
 
AA: Eu não diria investir mais. Eu diria investir de forma mais regionalizada e o estado da Bahia tem feito isso. Quando inaugurou o hospital regional de Santo Antonio de Jesus, o hospital de Juazeiro, quando está construindo o hospital da Chapada, quando fez o Hospital da Criança, em Feira de Santana, e quando tem outras propostas de ampliação de serviços, como em Ilhéus, entre outras UPA´s em construção. A questão das demandas de alta complexidade, por exemplo. Hoje são feitas cirurgias bariátricas e serviços de alta complexidade em Itabuna, isso é regionalização. Quando você traz neurocirurgia e oncologia para Barreiras, isso é regionalização. Só que o estado da Bahia não teve historicamente investimento significativo estruturante na área de saúde. Então, não se pode estruturar a saúde de um dia para o outro. Agora, os indicadores do estado em regulação não são contestados em momento algum. Sempre se coloca: “ah, existe isso e aquilo”, mas quando você vai para o indicador, você vê que o trabalho está sendo feito. Agora, claro que quando existe uma dificuldade, uma família que está sofrendo, naturalmente dentro da sensibilidade que a gente tem, isso mobiliza a opinião pública. 
 

 
 
BN: Qual o tempo médio de espera para deslocamento de uma unidade de saúde a outra no estado?
 
AA: Isso depende da especialidade. A gente não pode trazer uma média geral.
 
BN: Mas em relação ao câncer, como a gente começou a conversa, qual é o tempo de espera?
 
AA: O câncer não entra na estatística estadual. Por exemplo, porque a central não regula em tese os pacientes oncológicos, que são eletivos [sem estimativa de tempo]. E o paciente oncológico, via de regra, é eletivo. A não ser quando ele vai para a urgência. Aí a regulação é garantida até com certa rapidez. São pacientes que, urgenciando, são até mais fáceis de regular. Aí você pergunta: “Andrés, terapia intensiva?”. Aí depende do perfil do paciente. Se é criança, se é cardiológico. Mas tem pacientes que são regulados imediatamente. Até porque a regulação não cria vagas, ela administra essas vagas que existem no momento no sistema. A média de espera em urgência e emergência não leva mais do que dois dias para pacientes oncológicos. Porque quando esse paciente chega em uma unidade de urgência e emergência, ele já tem uma unidade de referência que o acompanha. O que ocorre nestes casos? O paciente é regulado para uma unidade, ou se garante outra unidade que dê retaguarda para a intercorrência clínica que ele teve, que pode até não estar relacionada com a patologia oncológica.

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