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Entrevista

'Com Fies, a elite passa a ser intelectual', diz coordenador do curso de medicina da Unime

Por Francis Juliano / Fotos: Lucas Cunha

'Com Fies, a elite passa a ser intelectual', diz coordenador do curso de medicina da Unime
Fotos: Lucas Cunha/Bahia Notícias
Atualmente, a Bahia conta com 11 graduações de medicina em atividade – serão 14 quando as recentes 160 vagas criadas em universidades federais entrarem em atividade. No estado, quatro cursos são oferecidos por faculdades privadas. O mais recente foi aberto em Lauro de Freitas, com cem vagas oferecidas por ano. Em entrevista ao Bahia Notícias, o coordenador de graduação da Unime, Paulo Benigno Batista, doutor em nefrologia, falou sobre as expectativas da área, informou o valor da mensalidade e apontou caminhos para os alunos menos abastados tentarem concorrer a uma vaga, por meio do Fundo de Financiamento Estudantil. "Eu acho que com o Fies a elite passa a ser intelectual. Na minha visão, quem elitiza é a escola pública secundária", opinou. Durante a entrevista, ele também fez críticas ao Ato Médico e ao Mais Médicos e afirmou que não há mais espaço para o profissional "senhor de tudo". “Aquela postura do médico todo-poderoso não existe mais”, considerou. Leia a entrevista na íntegra abaixo:
 
 
Bahia Notícias: Como foi a implantação do curso?
 
Paulo Benigno Batista: Eu fui contratado como consultor no início de 2011 e a gente vem trabalhando com uma equipe de professores para construir o projeto pedagógico do curso, formatar e definir a política adotada. Depois, a equipe do MEC [Ministério da Educação] faz a certificação ou não. Eles avaliam todas as dimensões do curso, em potencial, e dão uma nota de zero a cinco. Para ser aprovado tem de estar acima de quatro.
 
BN: Qual foi a nota da Unime?
 
PBB: Quatro.
 
BN: A implantação do curso em Lauro de Freitas obedeceu alguma estratégia de sair de Salvador, mas ao mesmo tempo ficar próximo à capital?
 
PBB: Na verdade, o grupo Kroton tem a Unime como um dos seus excelentes pólos universitários. A Kroton é uma empresa muito grande. [A empresa tem em torno de 500 mil alunos de ensino superior no país, presencial e à distancia]. Dentro desses cursos da organização, a Unime tem uma tradição em saúde, com todos os cursos com IGC [Índice Geral de Cursos] em níveis bons, muitos acima de quatro, que é um requisito para se implantar cursos de medicina. Esse fato também se coaduna com a política oficial do governo que não impede a abertura de faculdades de medicina nos locais onde você quer colocar. A partir do Mais Médicos, o governo credencia municípios para receber faculdades de medicina e as empresas entram em um edital de concorrência.  
 
BN: Existem condições de cursos de medicina serem implantados em municípios mais distantes de Salvador? Tanto pela carência de profissionais, como de suporte hospitalar para essas populações.
 
PBB: Eu posso dar minha opinião, mas a resposta mesmo, felizmente ou infelizmente, nós vamos ver agora. Com o Mais Médicos, o governo credenciou, se não me engano, 30 a 40 municípios que vão ter o direito de pleitear cursos de medicina. Eles vão levar em conta a estrutura de saúde do município, ter o SUS organizado, um número de profissionais adequado e a possibilidade de residência médica. Quando a gente começou não tinha o Mais Médicos. Então, a empresa podia chegar em qualquer lugar e propor a criação de cursos de medicina e o MEC fazia uma avaliação qualitativa. Agora, o que acontece é que o MEC diz: “aqui, eu quero um curso de medicina”. 
 
BN: Mas, em municípios distantes, como deve ser estruturado um curso de medicina?
 
PBB: Olha, você tem dificuldade de atrair médicos formados para esses lugares. Para tirar cinco na avaliação de corpo docente do MEC tem de ter 35% de doutores. Não é fácil levar 35% de doutores para lugares distantes. 
 

 
BN: Qual o perfil do estudante de medicina da Unime? É parecido com os das outras faculdades particulares e das públicas da Bahia?
 
PBB: Sim. Eles enfrentam um nível de concorrência alto demais. No vestibular, se inscreveram seis mil, dos quais três mil foram às provas para 50 vagas.
 
BN: Quanto custa a mensalidade em medicina na Unime?
 
PBB: Perto de R$ 6 mil. O mercado é esse. Tem faculdades que, por razões legais e mais antigas, não conseguiram aumentar o preço.
 
BN: Esse valor não poderia ser menor?
 
PBB: Olha, é um curso muito caro. Laboratórios, professores, é tudo muito caro. Você tem a relação aluno/docente em algumas turmas de 1/5, ou 1/10 (um professor para cinco ou dez alunos). Outro aspecto é de equipamento e espaço. A gente tem um investimento grande em equipamentos de simulação. É uma tendência mundial que chegou tarde no Brasil. Não se coloca um aluno em campo antes de ele passar por esses equipamentos, que são manequins, robôs, em que o estudante faz ausculta cardíaca, por exemplo,. antes de ir a campo.
 
BN: Como um aluno que tem o sonho de ser médico e não tem condição financeira de pagar por uma mensalidade dessas pode ingressar em um curso de medicina?
 
PBB: Primeiro é passar em um vestibular. Isso requer bons cursos, mas não só isso. Requer uma sistemática de estudo muito dura,  a qual a pessoa deve levar de forma alegre, porque caso contrário, ela não aguenta. Do ponto de vista econômico, hoje isso não é mais um problema porque tem o Fies, do governo federal, que financia em até 100% do curso. Tem também o Prouni, que não é financiamento, em que o governo banca o curso em até 100%.
 
BN: O senhor vê em médio prazo os cursos de medicina em faculdades privadas sendo mais acessíveis para a população em geral?
 
PBB: Primeiro, eu acho que o setor privado tem um papel importantíssimo e veio para ficar. A discussão é: um curso com investimento baixo tem qualidade ou não? Aí, tem a discussão de qualidade X preço. Eu acho o seguinte: você pode ser muito ruim e ser muito caro. Eu não vejo porque você não possa ser muito bom e não ser muito caro. É uma questão de gestão. Agora, tem um valor que abaixo do qual não tem como fazer um curso bom. Isso implicaria em professores mal remunerados ou em turmas muito grandes, ou as duas coisas.
 

 
BN: Então, o curso de medicina ainda vai ficar por algum tempo sendo privilégio de uma elite.
 
PBB: Eu acho que com o Fies a elite passa a ser intelectual. Na minha visão, quem elitiza é a escola pública secundária. O equivoco é você querer equalizar o acesso à universidade na porta dela. Tem que equalizar no maternal. 
 
BN: O curso da Unime tem alguma especialidade?
 
PBB: O governo é muito claro nas diretrizes nacionais dos cursos de medicina. O egresso tem que ser capaz de lidar com a atenção primária e secundária da saúde, não o de alta complexidade. Tem que ser um bom médico de emergência, um bom médico da família, um bom médico generalista, tem que ser aquele médico que resolve, como deveria, a maior parte das coisas usando poucos recursos. A gente criou uma medicina no mundo em que antes de fazer uma boa história clínica, um bom exame físico, já se pede exames caríssimos. Então, eu tenho consulta a R$ 60 que geram exames de R$ 2 mil, e sem a consulta ter sido feita adequadamente. 
 
BN: Então, a Unime forma médicos generalistas?
 
PBB: Sim, generalistas.
 
BN: O senhor acredita que a formação de generalista vai atrair muita gente, mesmo que o mercado continue estimulando as especialidades, pelos rendimentos que elas oferecem? 
 
PBB: Sim, por duas razões. Primeiro, o mercado está mudando. Esse sistema de super-especialistas é autofágico. Nós que pagamos os seguros de saúde, pagamos caro por causa desse sistema. Os planos de saúde já entenderam que ele é inviável. Não resolve e custa caro. E hoje você não tem esse médico generalista disponível. Se você precisar de um pediatra para seu filho você vai ter dificuldade de achar. Clínico geral também não tem. A outra razão é que a formação médica não se completa com a graduação, ela se complementa com a residência. O nosso egresso vai buscar a especialização na residência ou na pós-graduação, depois de ser bem preparado como generalista.
 
BN: O senhor acha que o mercado pode mudar e empregar mais generalistas?
 
PBB: Eu acho que o setor privado da saúde gasta muito dinheiro porque falta esse médico que faz a consulta e ouve o paciente. Esse sistema não privilegia e aumenta o custo dele mesmo. Tem pouco investimento naquele médico que conversa e ouve o doente, e maior investimento no exame. O resultado disso é que você tem uma pletora de medicina armada, com tomografia, ecocardiografia etc. E esse tipo de distorção vai ter que ser resolvida. Isso quebrou a Europa parcialmente. O sistema de bem-estar social europeu é impagável por conta disso.
 
 
BN: Outra questão que tem sido debatida é a integração do médico em um nível mais horizontal com as outras profissões de saúde. O Ato Médico [projeto de lei que regulamenta o exercício da medicina] traz essa polêmica. Como é que o curso da Unime vai trabalhar essas questões mais filosóficas e éticas, mas não menos importantes, da profissão?
 
PBB: Existe uma discussão que eu acho equivocada, que é o aspecto humanísitico-democrático-ético e o aspecto técnico. A excelência nesses dois campos é indispensável. Você não pode dizer que é eticamente excelente se não for tecnicamente excelente. O que a gente tem para oferecer? Um fórum de discussão em que os alunos têm voz ativa e tem um norte. E o norte principal não é o norte teórico, e sim o ético. Agora, o Ato Médico, com um todo, é difícil analisar. De qualquer forma, a gente vai ter que ver os resultados. Eu acho que foi um equívoco a lei do Ato Médico como foi colocada. Ela busca reduzir os custos da saúde. Atendeu, de fato, pleitos dos demais profissionais, mas com efeitos que provavelmente serão multifacetados. Vai dar certo em algumas coisas, vai dar errado em outras, vai ter algumas coisas trágicas em outras e a gente vai reformular. 
 
BN: Então, o curso da Unime vai estimular uma graduação mais integrada e menos distante da população?
 
PBB: O trabalho médico é um trabalho de equipe. Aquela postura do médico todo-poderoso não existe mais. Não há mais essa opção. Ou você trabalha em equipe ou você não trabalha. O cirurgião mais brilhante do mundo depende da enfermeira, dependente do circulante de sala, que nem tem curso superior, ele depende do vigilante, depende do cara do almoxarifado, depende de 300 coisas para que seu trabalho dê certo.
 
BN: O anúncio oficial da abertura de 160 vagas de medicina em universidades federais da Bahia de alguma maneira impacta na meta da Unime em atrair estudantes?
 
PBB: Infelizmente, ainda não há concorrência. No futuro, minha expectativa é que haja. Francamente, o que se fez até agora foi um equívoco, impedindo a abertura de novos cursos.
 
BN: Sobre o Mais Médicos. O senhor acredita que o programa muda um pouco a mentalidade do médico brasileiro, no sentido da preocupação com o interior, com as regiões menos assistidas, em uma integração maior com a sociedade?
 
PBB: O Mais Médicos gerou só impacto emocional. Impacto emocional na classe médica, que vinha colaborando com o governo, e se sentiu traída. E na população que acha que ganhou alguma coisa. De forma alguma vai ter impacto na interiorização da medicina porque foi só eleitoral. Interiorização da medicina é como a interiorização do judiciário. O juiz tem um plano de carreira e ele sabe exatamente o que esperar do cargo. Quando ele vai para uma cidade muito ruim, os filhos ficam na capital estudando, e ele vai todo fim de semana para casa. Ele sacrifica a si e a família porque ele sabe que tem uma linha de crescimento profissional que traz ele para o centro.
 

 
BN: O senhor acredita que a reação das entidades médicas ao programa, inclusive com aquelas ofensas aos cubanos em Fortaleza, foi de certa forma desmedida?
 
PBB: Aquilo foram incidentes que a gente não conhece em detalhes. Eu não vejo como culpar as entidades médicas por episódios em particular, até porque os pronunciamentos das entidades médicas em geral foram bem desapaixonados. Foram bem rigorosos, duros, mas não foram apaixonados, grosseiros. A gente tem uma lei que foi quebrada e isso não é para ser aceito mesmo.