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Marca Bahia Notícias Saúde

Entrevista

'Hipnose é como carteira de motorista: qualquer um tira', diz hipnólogo Fábio Puentes

Por Juliana Almirante

'Hipnose é como carteira de motorista: qualquer um tira', diz hipnólogo Fábio Puentes
Famoso pelo bordão “Bem dormido”, entoado por ele ao hipnotizar pessoas em apresentações na TV, o hipnólogo Fábio Puentes defende, em entrevista ao Bahia Notícias, o uso da técnica não apenas para fins terapêuticos, mas também para entretenimento através de exibições em shows e workshops. Para ele, a demonstração é importante porque ajudar a provar a eficácia da prática. “Hipnólogo tem que demonstrar. Eu nunca fui acusado de nada. É muito relativo. É muito fácil opinar. Não há nenhum perigo”, descartou, em entrevista ao Bahia Notícias. O mestre em hipnose trabalha em São Paulo com a hipnoterapia, utilização da técnica sobre sintomas de doenças. Ele explica que a técnica trabalha “no automático”, na parte da mente que induz e não deduz. “Hipnotizar é muito fácil. O difícil é programar com eficácia a mente”, avalia. Puentes acredita que a prática necessita de "talento", mas pode ser aprendida. "Hipnose é como carteira de motorista: qualquer um tira, mas tem como dar uma lapidadinha melhor", define. 
 

Bahia Notícias - Você descobriu a hipnose, pelo que você conta, aos 11 anos. Como foi o processo de descoberta de que você tinha essa capacidade?
 
Fabio Puentes - Aprendi como uma necessidade fisiológica de fazer alguma coisa. Sentia como cócegas nos dedos. Eu não sabia o que era. Então comecei com lagartixa, galinha, porque ninguém queria participar daquela experiência. E quando deu certo, fui subindo na escala dos animais e cheguei ao ser humano. Quando tinha uns 13 anos, mais ou menos, pelo que me lembro, fui escoteiro em um colégio jesuíta. Um colega cortando lenha se machucou, o dedo ficou pendurado e ele começou a chorar. Tive medo porque estava perdendo muito sangue e associei à torneira do quintal da minha casa, que quando perde água, a caixa fica sem água e a casa fica também. Então falei: “Porque não fecha a torneira?”. Ele: “Não dá”. Então comecei a falar terapeuticamente como um encanador.
 
BN - Fazendo uma metáfora?
 
FB - Exatamente. Uma metáfora, analogia. Foi reduzindo a perda de sangue do dedo. Chegando no acampamento, falei para o padre o que aconteceu. Ele falou: “Não perca tempo, siga com isso”. Interessante a diferença. Quando comecei a fazer hipnose, com 12 anos, diziam que eu era louco. Depois que eu já era mocinho e fazia show, já era bruxo. E agora, quando volto, dizem: “Como você é inteligente”. Eu acredito que seja um talento. Depois descobri que meu avó materno fazia hipnose e hoje o principal concorrente que eu tenho é meu filho. Penso que é um talento e depois eu o aperfeiçoei, para cursos e atividades clínicas, por exemplo. A conclusão que eu tive é de que todo mundo tem talento para alguma coisa. O importante é descobrí-lo o mais rapidamente possível. 
 
BN- Ao mesmo tempo, você acha que a hipnose pode ser aprendida? 
 
FB - A hipnose é como a carteira de motorista: qualquer um tira. Mas tem como dar uma lapidadinha melhor. Frank Sinatra pega o microfone e canta, porque ele tem talento.
 
BN - Você costuma usar um bordão, que é o “bem dormido”. Como isso nasceu?
 
FB - Bem fácil. Em Brasília, na primeira vez que apareci na televisão, aqui não se conhecia muito a hipnose de show. Não se exibia muito. Era uma coisa pulverizada, não era muito massiva. O “bem dormido” é porque precisava estar bem relaxado. Se você vê em qualquer país do mundo, sobretudo Inglaterra e EUA,o termo é “sleepping deply”. O sono existe, dentro do critério da hipnose, no Uruguai, não existia no Brasil.
 
BN - É possível comparar então o estado da hipnose com o do sono? Como você define?
 
FB - O sono está no meio, digamos assim. E a hipnose está na outra ponta. Pareceria que você está dormindo, mas você está com consciência. O que adormece é o crítico, que deduz. O não consciente induz. A gente trabalha com o que induz, não o que deduz. O que deduz a gente elimina. A parte que deduz é que te prejudica. Se você vai preencher um cheque e eu te falo: “Cuidado que é a última folha. Hoje é sábado, o banco está fechado. Não erre, por favor”. Acontece que a pessoa erra, normalmente. O que faz bem é o automático. Se você dirige o carro pensando criticamente, que tem que apertar a embrenhagem, pisar o acelerador, mudar de marcha, o carro não sai.  Mas se fizer no automático, faz bem. A hipnose trabalha no automático, na parte que induz e não deduz. Quando se anestesia o dedo, por exemplo, ele está adormecido. A pessoa quando está muito rígida, quando está executando, terá que fechar os olhos e entrar por outro meio de comunicação.
 

 
BN - Existem pessoas que são mais suscetíveis à hipnose do que outras e aqueles que não conseguirão ser hipnotizadas?
 
FB - Imagina que toda pessoa é uma fechadura e o hipnólogo é um bom serralheiro que tem uma chave mestra que abre. Nós temos oito técnicas diferentes de hipnotizar. Trabalhamos em São Paulo com pacientes especiais, com Síndrome de Down, paralisia cerebral, com a terapia da hipnose. Você pega um militar e fala com ele, em tom imperativo: “durma”, “fique em pé”; porque está acostumado a receber ordens. Você pega um artista e faz ele sonhar, imaginar. De acordo com a personalidade, profissão dele, escolheremos uma técnica.
 
BN - Também é possível o uso da hipnose para anestesia, para o alívio da dor. Como funciona?
FB - Há 12 anos trabalho na clínica com o alívio da dor. É sensacional porque a hipnose, está comprovado agora na neurociência, existe mesmo, já não é mais discussão. Através de tomógrafos e exames, foi comprovado que a hipnose se desenvolve em uma área chamada giro anterior do cíngulo, que é a parte mais arcaica do cérebro, que, por coincidência, é onde está localizada a maior concentração de neurônios. Hipnotizar é muito fácil. O difícil é programar com eficácia a mente. Nossa mente se programa com imagens, não com palavras. Se você me diz: “Eu quero ser feliz”. Não sei o que é felicidade para você.
 
BN - Você tem que visualizar exatamente o que a felicidade significa para você?
 
FB - E buscar um referencial. Dizer: “Eu quero ser feliz como aquela vez que ganhei uma bicicleta”. Então eu trago essa sensação. Teve um caso que recebi no consultório que falou assim para mim: “Eu quero ficar sem gaguejar com a hipnose”. Deixei mudo. Mudo gagueja? Resolvi (risos). Então tem que se comunicar bem com o inconsciente. Outro dia a paciente falou: “Eu tenho medo de avião. O que eu faço?”. “Não viaje”. Você quer emagrecer ou ficar elegante? Você quer dormir 8 horas por dia ou acordar descansado? Tem que ser sempre um passo a mais do que se imagina. O mais difícil é como programar eficazmente as pessoas.
 
BN - É possível dizer que a hipnose pode funcionar como uma terapia, mas não como a cura?
 
FB - Ela não cura nada, somente alivia os sintomas. Você tem doença e sintoma. Uma cárie por exemplo, que será tratada por um dentista. A hipnose age na dor, que é um sintoma. Para fazer uma analogia melhor, imagine um computador que tenha duas partes. O cérebro seria o hardware, a parte física, que você pode trocar, a mente seria o software, o programa está aí dentro. O vírus é um sintoma, como um software de computador. A gente trabalha em conjunto. Toda uma equipe em prol de solucionar o problema do paciente: neurologista, psicólogo, dentista, terapeuta, todos juntos. Quando se pergunta quem curou, diz-se que é o grupo. 
 
BN - Tem algum risco no uso da hipnose para uma doença psiquiátrica, por exemplo, como esquizofrenia? Tem como ter controle total?
 
FB - Tem a possibilidade de ter um surto. Nunca se tem controle total, mas tem critérios. Por exemplo, no caso de esquizofrenia, evite usar. Porque em um surto, você não controla. E até mesmo em um show, como aqui na Bahia, por conta do sincretismo religioso, se confunde o transe hipnótico com o religioso [do candomblé]. Se eu pegar uma pessoa que frequente terreiro, ele confunde e entra em transe religioso e eu não tiro ele, porque sou hipnólogo e não pai-de-santo. Dentro da hierarquia religiosa, se obedece ao pai-de-santo.
 
BN - Isso acontece porque a mente da pessoa está programada para aquele tipo de transe?
 
FB - Se confunde, porque é muito parecido. Eu tenho que chamar o pai-de-santo, se não ele não sai. Ou sai, mas demora um tempo.
 
BN - Existe uma corrente de hipnólogos que critica o uso da hipnose para entretenimento, para shows. Como você avalia essa crítica?
 
FB - São pontos de vista. A hipnose só ficou conhecida com os shows na televisão.
 
BN - O senhor não acha que descredibiliza porque as pessoas acham que pode ser um truque?
 
FB - Um exemplo, em São Paulo, um centro em que há mais hipnólogos e mais população, há dois casos de hipnólogos que foram processados por mal uso de hipnose. Os dois são médicos. Um abusava de crianças e outra das pacientes para fertilização. Eu nunca fui acusado de nada. É muito relativo. É muito fácil opinar. Não há nenhum perigo. O Erickson se vestia de roxo. Porque faz parte do mágico. Hipnose é isso. Outro dia, fiz uma entrevista para a TV Cultura e foi a primeira em minha vida em que entrevistou Fábio Puentes e não o hipnólogo. Eu me senti diferente. Então não tem entrevista. Se eu fosse patologista, seria diferente.
 
BN - Sempre tem que fazer demonstração.
 
FB - Se for em Jô Soares e não fazer a demonstração, não adianta. Hipnólogo tem que demonstrar. As pessoas criticam porque não sabem, não têm facilidade. A velocidade com que fazemos a hipnose incomoda muito. Em 5 segundos, fica “bem dormido”. Imagina que já fiz 840 apresentações no país, já aconteceu algum xilique? Noventa fora do país e nunca aconteceu nada.
 
BN - Já teve alguma demonstração que você tentou fazer e não conseguiu?
 
FB - Sim, acontece. Muitos problemas. Às vezes é muito mais fácil naqueles que tem o corpo caloso mais desenvolvido, são mais fáceis de hipnotizar. É o que a ciência comprovou. O corpo caloso é o que junta os dois hemisférios, direito e esquerdo. 
 
BN - Você também já foi hipnotizado?
 
FB - Na hora de fazer um exame de próstata, autorizo meu filho a me hipnotizar se eu sentisse dor. Você dá permissão. A habilidade do hipnólogo é conseguir a permissão mais rapidamente, por isso se confunde hipnose com sedução. O tom de voz é muito importante, a autoridade, junto com a postura. O olhar. É todo um ritual de sedução. Terá que ver qual a intenção que vai ser usada.

Ao fim da entrevista, Fábio Puentes fez uma demonstração de hipnose na repórter do BN Marcela Gelinski. Confira: