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Marca Bahia Notícias Saúde

Entrevista

'Maioria das academias se preocupa com o básico', afirma fisicultor sobre atestados de saúde

Por Francis Juliano

'Maioria das academias se preocupa com o básico', afirma fisicultor sobre atestados de saúde
Fotos: Cláudia Cardozo
O caso da morte de Márcia Ângelo, de 32 anos, no começo de setembro em Jequié, no sudoeste baiano, enquanto fazia exercícios físicos, reacende o debate sobre os riscos da atividade física e a responsabilidade das academias na integridade dos seus clientes. Ela sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), foi atendida, mas não resistiu. Segundo o fisiologista Alexandre Dortas, um das portas de entrada para complicações é a forma com que muitos estabelecimentos aceitam seus alunos. “A maioria das academias se preocupa com o básico, que é um atestado médico”, afirmou ao Bahia Notícias. Dortas, que já atuou como preparador físico de Bahia e do Vitória e atualmente trabalha com o lutador Júnior Cigano, defende a tese de que esporte de alto rendimento não está associado à saúde: “eu posso lhe garantir que não”. Ainda na entrevista, o também professor universitário orienta sobre lugares para a prática de caminhadas em Salvador e avalia o fato de não existir profissionais de educação física para monitorar os atletas anônimos da cidade. “Uma placa vai orientar como se faz exercício? Você não monta uma farmácia popular, ou um hospital público, sem profissionais”, comparou. Confira abaixo a entrevista na íntegra.
 
   
Bahia Notícias: No começo do mês de setembro, em Jequié, uma mulher morreu enquanto fazia exercícios em uma academia. Existe um controle mais minucioso sobre a condição de cada atleta quando entram nesses lugares ou já estão lá dentro?
 
Alexandre Dortas: Olha, a grande verdade, vou falar de Salvador, que é onde eu trabalho, é que a maioria das academias se preocupa com o básico, que é um atestado médico. É óbvio, e todos sabem que um atestado médico não é difícil de ser conseguido.
 
BN: Como é esse atestado?
 
AD: Um atestado que diz que o indivíduo pode fazer atividade física. Um atestado que pode ser dado por qualquer médico. Uma vez foi denunciado que uma clínica vendia atestado médico. Eu acho, como uma forma de responsabilidade social, que as academias deveriam fiscalizar a origem desses atestados. É óbvio que existem protocolos para liberar o indivíduo para atividade física, desde os mais simples e mais baratos, aos complexos, com exames muito mais caros. A escolha desse protocolo ficaria a cargo do médico – de acordo com a idade, histórico familiar e pessoal do indivíduo –, vai definir o protocolo mais seguro para que possa ser emitido um atestado médico. E, se a gente imaginar que se faça os exames mais complexos, como o ecocardiograma, o eletrocardiograma de repouso e de esforço, associado a um exame completo de sangue e a uma consulta médica, a gente teria uma avaliação dessa em uma clínica particular por volta de R$ 700 a R$ 800.
 
BN: Fica fora da realidade de muita gente...
 
AD: Bom, se a gente quer estimular a população brasileira a praticar exercícios físicos, e boa parte dessa população não tem plano de saúde, nem recurso para fazer uma avaliação mais segura, praticamente estaríamos restringindo a atividade física no país.
 
 
BN: Qual seria então o meio termo?
 
AD: Por isso que existem protocolos que vão apenas de uma consulta médica com raios X de tórax, com um hemograma, com um eletrocardiograma de repouso, que são exames mais em conta. Agora, digo mais: mesmo o paciente fazendo todos os exames de maior complexidade e maior informação, não tira a possibilidade de um episódio de morte súbita. Esses episódios ocorrem até no máximo 48 horas depois da prática da atividade. Geralmente quem sofre esses ataques, são pacientes que têm histórico patológico ou atletas de alto rendimento.
 
BN: E já na academia, depois de ter os exames aceitos, em qual situação a pessoa deve se precaver?
 
AD: Nenhuma pessoa pode treinar descompensada, nem com a glicemia [taxa de glicose] baixa, nem com a glicemia alta; nem com a pressão alta, ou com a pressão baixa. Porque o quadro tende a se agravar durante a atividade física. 
 
BN: A partir de agora, o movimento em direção às academias deve aumentar. O verão está próximo e as pessoas vão querer ficar com o corpo malhado em pouco tempo de atividade física. É possível ganhar massa sadia de forma rápida?
 
AD: O ganho muscular está associado à condição genética, às estruturas musculares. Tem aquelas que têm facilidade de crescer com treinamento, enquanto outras, não. É comum você ver pessoas com massa muscular desenvolvida que nunca praticaram musculação. É mais difícil para as pessoas que não têm. E aí vem o perigo do uso abusivo de suplementos, do excesso de treinamento. Tem pessoas que recorrem a medicamentos à base de hormônios ou pré-hormônios que ajudam a desenvolver a massa muscular, mas que vêm associados a uma série de doenças, e a principal delas talvez o câncer. 
 
BN: Quais tipos de produtos são mais usados entre as pessoas que malham em academias?
 
AD: Olha, o suplemento é quase uma unanimidade. Se a pessoa for bem orientada por um profissional da área de nutrição que aborde, além da necessidade de treinamento do praticante, as necessidades minerais, nutricionais e vitamínicas, então esse suplemento vem associado a uma alimentação saudável. Mas quando se faz isso de forma aleatória, por conta própria, com conselhos de curiosos, de colegas de academia, e até de profissionais de educação física que não são qualificados, isso pode ser um problema. Porque, quando se faz de forma aleatória, o que é que acontece? A maioria desses suplementos para grande massa muscular é composta de proteínas, são hiperproteicos, como a gente diz. A sobrecarga de proteína é eliminada pelo fígado e pelos rins com aumento de substância como amônia e criatinina que são nocivas e tóxicas e que podem trazer prejuízos para os sistemas hepático e renal.
 

BN: Produtos vendidos muitas vezes como sinônimo de alimentação saudável, como o suco da Herbalife, são confiáveis?
 
AD: Eu não conheço a formatação e o conteúdo nutricional desses produtos, mas não tratando especificamente uma marca, mas uma tendência, a gente acredita que se passa pelo crivo da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] devem ter suas formatações dentro de padrões saudáveis. Mas é óbvio que ninguém se torna escravo de comprimido, de suco, de chá, de sheik, as pessoas necessitam de uma alimentação saudável. O que eu defendo é que as pessoas adquiram hábitos saudáveis, que façam uso de uma alimentação tradicional de uma forma calculada, buscando a saúde de uma forma mais objetiva.
 
BN: Sobre os esportes de alto rendimento, há especialistas que defendem que eles não significam saúde, mas sim o contrário.
 
AD: Eu posso lhe garantir que não é saúde. Eu trabalho com atletas de alto rendimento, eu trabalho com atletas de MMA, fiquei 15 anos no futebol e até hoje a gente presta assessoria a diversas modalidades. O que se preconiza é que a atividade física precisa ter volume, ter intensidade, mas principalmente respeitar as limitações de quem está praticando. Às vezes, esses problemas de morte súbita são desencadeados ou por um problema patológico; ou o paciente tem o histórico diagnosticado, mas não tem os cuidados devidos. Na sua grande maioria, quando se ultrapassa os limites do próprio corpo.
 
BN: Em Salvador, além das academias, há outras possibilidades de prática de exercícios, como as caminhadas. O problema é que muitos locais estão no meio de um trânsito complicado e com toda a poluição ao redor. Há saída para isso?
 
AD: Às vezes, as pessoas procuram locais como o Dique do Tororó, arborizado, aprazível... O que é que acontece? As pessoas têm que optar por atividades em ar livre em horários em que não haja congestionamento de carros. Por quê? A emissão de monóxido de carbono nesses locais acaba dificultando a capacitação de oxigênio durante a atividade, o que pode intoxicar as células musculares, causando náuseas, mal-estar, tontura.
 
BN: Quais locais abertos são mais aconselháveis para a prática de atividades físicas aqui em Salvador?
 
AD: Eu acho que a orla é uma boa estratégia, porque o vento acaba impedindo que o ar fique estacionado. No Dique do Tororó, em que existe uma circulação muito grande de carro, formando um bolsão de monóxido de carbono, as pessoas têm que escolher horários mais apropriados, como o início da manhã ou final da noite.
 

 
 
BN: Tem especialista que diz que exercícios também causam envelhecimento precoce. Queria que você comentasse a respeito.
 
AD: Interessante porque atividade física está ligada a saúde, mas quando você começa a fazer exercícios físicos, você aumenta o consumo de oxigênio, que faz aumentar uma partícula chamada radical livre. Esse radical livre acaba destruindo células do nosso corpo, fazendo com que se acelere o processo de envelhecimento. Por isso é que atividade física deve estar associada a uma boa estratégia nutricional, porque existem alimentos antioxidantes que combatem esses radicais livres.
 
BN: Você acredita que falta mais envolvimento do Estado, falo tanto da prefeitura quanto do governo, em investir mais em praças esportivas para a população?
 
AD: Olha, eu não gosto muito de falar em política. Mas eu acho que Salvador é uma cidade carente de espaços para atividade física. Quando a gente vê a prefeitura se preocupando em colocar equipamentos em espaços públicos, a gente vê isso com bons olhos. Mas essas pessoas vão ser orientadas por quem? Uma placa vai orientar como se faz o exercício? Por isso a gente defende que esses espaços tenham profissionais de educação física. Você não monta uma farmácia popular, ou um hospital público, sem profissionais. Uma coisa que me deixou muito triste foi ver dois espaços com piscinas olímpicas e semiolímpicas serem destruídos para se transformarem em praças. Tanto no Clube Português, como no antigo clube do Bahia tinham piscinas.