O direito à mamografia não pode ser negociado
A cada ano, o câncer de mama se consolida como um dos principais desafios da saúde pública no Brasil. Estimativas apontam que mais de 73 mil novos casos da doença podem ser diagnosticados até 2025, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Na Bahia, a projeção é alarmante: cerca de 4,2 mil mulheres podem receber esse diagnóstico nos próximos meses. Diante desse cenário, a mastologista Dra. Anna Paola Noya Gatto levanta um alerta essencial sobre a necessidade de fortalecer a detecção precoce e impedir retrocessos na cobertura da mamografia.
O rastreamento precoce salva vidas. Esse é um consenso entre especialistas, e por isso a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) recomenda a realização da mamografia anualmente a partir dos 40 anos. No entanto, uma recente proposta da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) sugere restringir a cobertura do exame apenas para mulheres acima dos 50 anos, com um intervalo de dois anos entre cada procedimento – replicando o que já ocorre no Sistema Único de Saúde (SUS). A medida pode afetar drasticamente o diagnóstico precoce, que muitas vezes é o único diferencial entre um tratamento menos invasivo e a perda de vidas.
A limitação da mamografia ignora um fator preocupante: o aumento dos casos em mulheres jovens. Como médica mastologista, tenho acompanhado um crescimento expressivo de diagnósticos em pacientes com menos de 50 anos. A ciência já provou que o câncer de mama tende a ser mais agressivo nessa faixa etária, tornando a detecção tardia um risco ainda maior. Dados da American Cancer Society divulgados no fim de janeiro apontam um aumento significativo de mulheres jovens sendo diagnosticadas com a doença – um alerta que deveria pautar qualquer mudança regulatória com muito mais cautela.
Tecnologia e personalização como aliadas na detecção precoce
Diante desse contexto, criar mecanismos de prevenção eficientes se torna essencial. Na Clínica da Mulher, desenvolvemos um modelo de check-up especializado que combina tecnologia avançada com um atendimento personalizado, garantindo que cada paciente tenha um acompanhamento adequado à sua fase de vida e histórico clínico. Esse formato busca acelerar diagnósticos e oferecer um olhar integral sobre a saúde feminina, indo além da mastologia e incluindo especialidades como ginecologia, cardiologia, dermatologia, urologia, entre outras.
Outro diferencial é a entrega de resultados no mesmo dia, um fator determinante para evitar a angústia da espera e permitir a tomada de decisões médicas com mais agilidade. Com um rastreamento eficiente e acessível, aumentamos as chances de identificar tumores ainda em estágios iniciais, quando o tratamento é mais eficaz e menos agressivo.
O direito à mamografia deve ser inegociável
A proposta da ANS de restringir a cobertura da mamografia levanta uma questão fundamental: o acesso à saúde não pode ser tratado como privilégio. Se estudos apontam que o rastreamento antes dos 50 anos reduz em até 40% a mortalidade por câncer de mama, qualquer tentativa de restringir esse direito representa um risco desnecessário para milhares de mulheres.
O câncer de mama não pode esperar. A medicina está avançando, mas a luta contra a desinformação e o acesso desigual ao diagnóstico ainda são barreiras que precisamos superar. A prevenção deve ser um compromisso de toda a sociedade – governos, profissionais de saúde e instituições precisam atuar juntos para garantir que nenhuma mulher seja privada da chance de detectar a doença a tempo.
Retroceder na cobertura da mamografia é uma ameaça real à vida de muitas brasileiras. Precisamos agir agora para garantir que o direito à saúde seja respeitado e que mais mulheres tenham a oportunidade de vencer essa batalha antes que seja tarde demais.
*Anna Paola Noya Gatto é Mastologista e CEO Clinica da Mulher
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
