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A importância do olhar racializado para saúde mental

Por Laíse Brito

A importância do olhar racializado para saúde mental
Foto: Divulgação

Ao falarmos de saúde mental, precisamos ter uma perspectiva ampla sobre a pessoa em questão, olhando as múltiplas dimensões da sua vida para só depois fazermos uma avaliação clínica. E dentro desta dinâmica, o quesito raça/cor é um eixo essencial. 


Os estudos e atualizações de pesquisas dentro das compreensões étnico-racial, dizem que a raça vem primeiro. Ela é um ativador da nossa subjetividade, antes mesmo da racionalidade sobre alguém. Ao nos socializarmos, vamos aprendendo os códigos sociais, os modos operantes de funcionamento de quem é meu aliado e quem é uma possível ameaça. A estrutura social "deu cor" para essa possível ameaça. Não é à toa que cerca de 70% da população carcerária são de pessoas negras, além da maioria das pessoas em situação de rua e alocadas em subempregos. Somado a tudo isso, não podemos esquecer que a cada 12 minutos morre uma pessoa negra no Brasil.  

 

Quando desconectamos o ser humano da natureza e hierarquizamos as pessoas pela sua cor e etnia, criamos uma “cadeia alimentar” desequilibrada, que se contrapõe a vida e, por consequência, a insalubridade em ter uma saúde mental satisfatória de quem é presa nessa cadeia.  Desta forma, a raça se torna um dispositivo de tensão para a saúde mental. A vivência continuada dentro dessas tensões gera uma situação de estresse em níveis elevados que comprometem o bom funcionamento do sistema nervoso central, a ponto de produzir mais adoecimento psíquico nas populações negras e indígenas, ocasionando altos indicies de suicídio, depressão e transtornos de ansiedade, assim como afastamentos médicos. 


É curioso pensar que não se reflete sobre raça, mas comumente sobre racismo. De fato, seus efeitos são devastadores! No entanto, é essencial pensarmos sobre racialidade, para entendermos onde ela se constrói e como se encaixa no sistema, sobretudo no sistema ocidental e capitalista que estamos inseridos. Há um imaginário do que aprendemos sobre pessoas negras e indígenas, mas também há uma vivência desses povos. Essa problemática precisa urgentemente vir para o centro da discussão.  


Essas existências possuem vivências específicas muito pelo lado da sobrevivência, já que o apagamento histórico, cultural, religioso, científico, sempre foi uma tentativa de aniquilação. Estejam em qualquer patamar dentro do sistema capitalista, seja a pessoa em vulnerabilidade social ou um reconhecido escritor. Essas pessoas seguem lutando incessantemente para provar que merecem existir, seja pelo trabalho excessivo para mostrar um bom desempenho, seja pela reivindicação de direitos. Provar seu valor enquanto humano para outras raças ainda é uma luta diária das pessoas negras e indígenas.  


Para existir saúde mental, as tensões que prejudicam o bom desempenho de saúde precisam ser solucionadas, caso contrário, todas as demais tentativas serão somente paliativas. Sendo assim, racializar a pessoa ao olhar para sua saúde mental poderá nos dar estratégias de vida que possibilitem uma melhor condição de existência até que as estruturas se modifiquem, sobretudo as de poder e institucionais. 


*Laíse Brito é psicóloga com abordagem psicoterapêutica Gestalt-terapia e fundadora da Baobá Saúde

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias