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Psoríase, verão e o centauro Quíron

Por Dr. Gleison Duarte

Psoríase, verão e o centauro Quíron
Foto: Arquivo Pessoal

Nas últimas décadas, consideráveis avanços revolucionaram o tratamento da psoríase. Dentre as doenças imunomediadas que atacam a pele, as articulações ou intestino, essa foi a que mais se beneficiou com surgimento de drogas com enorme eficácia, elevando as metas terapêuticas para patamares arrojados.

 

Há milênios já se conhecia os efeitos benéficos da radiação ultravioleta sobre a psoríase, seja servindo de coadjuvante, como nos curtos banhos de sol, ou como tratamento, no caso da fototerapia em cabines. É curioso que, na história, são citadas as “curas” no rio Jordão, o uso do sol pelos egípcios 1.500 a.C. e, no Brasil colônia, o pó da Bahia, proveniente de planta que potencializava a absorção desta radiação. A partir da década de 1970 em diante, com o conhecimento sobre a gênese da doença (a participação do sistema imune no ataque às células da pele, unhas e articulações), surgem as imunoterapias, que somadas a esses tratamentos antigos, já anunciavam o início de uma nova era. Nos anos 2000, os chamados imunobiológicos quebraram paradigmas, começando pela surpreendente eficácia, e coroando com um perfil de segurança superior às demais tecnologias que as antecederam.

 

Ainda hoje, apesar dos avanços, noto esforços incessantes em busca de cura, feitos com orçamentos para pesquisa de bilhões de dólares por ano e há, ainda, questões controversas, como o acesso universal às medicações de alto custo, uma vez que nem todos os países disponibilizam esse benefício para seus cidadãos. Felizmente temos no Brasil acesso pleno, seja dos usuários de planos de saúde, como também via SUS, para todos aqueles elegíveis - ou seja, com falha à terapia convencional e com critérios de gravidade da doença.

 

Nas primeiras semanas de janeiro, ou melhor, já nas últimas semanas de dezembro, é possível sentir o calor emanado pelo sol durante os dias mais longos. E nada melhor do que dar um mergulho no mar e aproveitar a praia, certo? Algumas pessoas com psoríase podem até responder essa pergunta de forma negativa. Se você é uma dessas, sugiro repensar. Tomar sol e curtir a água do mar – uma aliada e tanto para reduzir a inflamação - pode ser bastante benéfico para sua pele. Em primeiro lugar, consulte seu médico, depois, com moderação, evite os horários de maior incidência de radiação, use filtro solar, hidratantes e sempre beba bastante água. Pronto. Após um belo dia de sol -seguro- e um mergulho, você vai se sentir bem e sua pele vai agradecer. 

 

Ter uma pele 100% sem lesões não significa cura, mas controle, algo que não difere muito do tratamento de outras doenças crônicas, como hipertensão. Assim como Quíron - um centauro (metade homem, metade cavalo) que certo dia foi atingido acidentalmente por uma flecha, mas por ser imortal e não poder curar a si mesmo foi obrigado a lidar eternamente com a habilidade de curar a todos e viver com uma ferida incurável – o tratamento da psoríase hoje possui a mesma dualidade, de aliar terapias modernas (biotecnologias) com o milenar (exposição solar e banhos de mar), convivendo em harmonia e acumulando séculos de conhecimentos. 

 

*Gleison Duarte é dermatologista na clínica IBIS – Salvador, clínica do Grupo Cita, mestre e doutor em Ciências da Saúde.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias.