Eficácia da capsula contra o câncer causa dúvida no meio científico. Ciência responsável ou panaceia?
Nas últimas semanas, um debate tomou conta da mídia nacional, tendo como eixo central os estudos conduzidos no IQSC/USP sobre um derivado sintético do alquilfosfolipidi - a Fosfoestanolamina e sua potencial ação para o tratamento de diversos tipos de cânceres.
Todavia, uma revisão da literatura científica sobre o tema revela que os estudos utilizando a fosfoetanolamina sintética foram conduzidos apenas pelo grupo brasileiro da USP de São Carlos e todos os dados de eficácia contra o câncer, até o momento, referem-se a estudos in vitro; há apenas um trabalho em modelo animal relatado. Todas as outras informações sobre a molécula são os relatos de utilização não-controlada do produto por pacientes com diferentes tipos da doença.
Nesse sentido, o mérito da discussão não é acerca do funcionamento da molécula ou, ainda, se a não autorização de seu uso impediria o acesso da população a um tratamento eficaz. A preocupação está relacionada à segurança da utilização de um produto que não segue os procedimentos internacionais de boas práticas de fabricação (BPF), havendo risco real de contaminação com resíduos dos solventes utilizados na síntese da molécula.
Além disso, a transposição de uma molécula que funciona em células para um medicamento utilizado em seres humanos passa por critérios rigorosos de estudos pré-clínicos e clínicos, além da autorização de entidades regulatórias. Sem esse rigor há uma real possibilidade de se oferecer um produto ineficaz e/ou potencialmente tóxico.
Outro aspecto preocupante é a ação da justiça, de maneira a conceder o acesso da população a uma droga não plenamente estudada e, principalmente, não regulamentada pela autoridade sanitária competente. Ainda que seja louvável o entendimento jurídico de que o acesso à saúde precede regulamentações, quando tal ação acontece despida de arcabouço científico gera uma exposição da população interessada aos riscos inerentes do uso indiscriminado de fármacos e medicamentos.
A discussão da fosfoetalonamina e de outros fármacos com potencial uso para o tratamento de doenças graves como câncer expõe a demora na condução de estudos clínicos no país, desde a aprovação nos órgãos de ética e sanitários, condução do estudo por si, preparação de dossiês, até o registro do novo medicamento. É premente a ampliação do debate e a tomada de decisões para acelerar tais estudos. Não existem cápsulas mágicas. É necessário fazer ciência séria para o desenvolvimento de fármacos e medicamentos.
Jan Carlo Delorenzi é farmacêutico, mestre e doutor em Ciências Biológicas (Biofísica). Professor de Imunologia e Saúde Pública e responsável pelo Laboratório de Farmacologia e Toxicologia Aplicadas ao Desenvolvimento de Fármacos – FARMATOX da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Consultor Científico da Indústria Farmacêutica nas áreas de Pesquisa Pré-Clínica e Pesquisa Clínica e Assuntos Regulatórios.
