Pele preta e saúde mental: quem cuida de quem sempre cuida?
Antes de se olhar no espelho, uma mulher negra já foi olhada muitas vezes. Sobre sua pele, cabelo e traços recaem julgamentos que podem atravessar a maneira como ela se percebe e se sente no mundo.
Como mulher negra e farmacêutica que atua no cuidado com a pele, acredito que essa história precisa ser considerada quando recebemos uma paciente. A queixa que ela apresenta merece atenção técnica e uma escuta atenta à sua história.
Pesquisas associam experiências de discriminação racial a piores indicadores de saúde mental e autoestima e isso não significa que ser negra seja uma condição de adoecimento, significa reconhecer os efeitos do racismo, somados às desigualdades e às cobranças que atravessam a vida dessas mulheres.
Existe ainda uma expectativa de força permanente, onde a mulher que trabalha, sustenta, resolve e acolhe nem sempre encontra espaço para dizer que está cansada.
Quando sua resistência é tratada como inesgotável, suas necessidades podem passar despercebidas.
Também precisamos reconhecer limites, procedimentos estéticos não tratam ansiedade, depressão ou consequências do racismo. O cuidado com a aparência pode fazer parte do bem-estar, mas não substitui o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário.
Defendo um cuidado que respeite escolhas, valorize a beleza negra e que saiba acolher sem julgar essa mulher que tem desejos, projetos, vaidade e direito ao descanso.
Sua vida não pode ser resumida à capacidade de suportar dificuldades.
Cuidar da pele preta também é abrir espaço para que a mulher acostumada a cuidar de todos se permita, enfim, ser cuidada.
*Andrea Santana é farmacêutica esteta e especialista em pele preta.
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