Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Saúde
Você está em:
/
/

Artigo

Muito além do pulmão: o que a poluição do ar tem a ver com o câncer de mama

Por Ive Lima

Muito além do pulmão: o que a poluição do ar tem a ver com o câncer de mama
Foto: Divulgação

Quando pensamos nos efeitos da poluição do ar sobre a saúde, é comum associá-los principalmente a doenças respiratórias e ao câncer de pulmão. Essa relação é bem estabelecida pela ciência. No entanto, o conhecimento sobre os impactos da exposição aos poluentes atmosféricos tem avançado, e novas pesquisas apontam para possíveis associações entre a má qualidade do ar e o desenvolvimento de outros tipos de câncer, incluindo o câncer de mama.

 

O tema ganha especial relevância durante o Agosto Branco, mês de conscientização sobre o câncer de pulmão. É justamente nesse contexto que vale ampliar a discussão: a poluição atmosférica não deve ser compreendida apenas como um problema respiratório, mas como uma questão que pode afetar diferentes sistemas do organismo e que merece atenção também sob a perspectiva da prevenção do câncer.

 

A Organização Mundial da Saúde considera a poluição do ar um dos grandes desafios de saúde pública da atualidade. Entre os principais poluentes atmosféricos estão o material particulado fino, conhecido como PM2,5, e o dióxido de nitrogênio (NO?), presentes em diferentes concentrações nos ambientes urbanos e associados, entre outras fontes, ao tráfego de veículos, às atividades industriais e às queimadas.

 

Mas de que forma um problema ambiental poderia estar relacionado ao câncer de mama?

 

A explicação está nos efeitos que determinados poluentes podem produzir no organismo quando a exposição ocorre de maneira prolongada. O contato contínuo com essas substâncias pode favorecer processos de inflamação crônica e estresse oxidativo, mecanismos capazes de contribuir para danos celulares e alterações no material genético. Alguns componentes da poluição atmosférica também podem apresentar atividade semelhante à de substâncias que interferem no sistema hormonal.

 

No caso do câncer de mama, essa possibilidade é especialmente relevante porque determinados tumores são influenciados pela ação de hormônios, como o estrogênio. Dessa forma, a investigação científica passou a considerar não apenas os fatores genéticos e comportamentais tradicionalmente associados à doença, mas também a influência de fatores ambientais aos quais estamos expostos ao longo da vida.

 

Grandes estudos epidemiológicos vêm contribuindo para esse entendimento. Uma pesquisa que acompanhou mais de 58 mil mulheres durante quase duas décadas identificou uma maior incidência de câncer de mama entre aquelas expostas a níveis mais elevados de material particulado fino (PM2,5). Outros trabalhos também encontraram associações entre a exposição à poluição atmosférica e o risco da doença.

 

É importante, entretanto, interpretar esses resultados com cautela. A existência de uma associação estatística não significa que a poluição seja, isoladamente, responsável pelo surgimento do câncer de mama. O desenvolvimento de um tumor é um processo complexo, que resulta da interação de múltos fatores ao longo do tempo.

 

Genética, idade, histórico familiar, características hormonais, excesso de peso, consumo de álcool, sedentarismo e tabagismo, entre outros fatores, podem participar dessa equação. A exposição à poluição deve ser compreendida como um possível componente adicional desse conjunto de riscos, e não como uma causa única.

 

Essa discussão também evidencia uma diferença importante entre fatores de risco individuais e fatores ambientais. É possível decidir não fumar, reduzir o consumo de álcool, praticar atividade física e manter uma alimentação equilibrada. Já a qualidade do ar que respiramos depende, em grande medida, das condições ambientais e das políticas adotadas nas cidades.

 

Por isso, discutir poluição atmosférica também é discutir saúde pública.

 

No âmbito individual, algumas medidas podem contribuir para reduzir a exposição em determinados contextos. Acompanhar os índices de qualidade do ar, evitar exercícios ao ar livre em períodos de maior concentração de poluentes, reduzir a exposição à fumaça de queimadas e, quando possível, escolher trajetos menos movimentados são estratégias que podem ajudar.

 

Entretanto, essas medidas têm alcance limitado quando comparadas à necessidade de políticas públicas voltadas à redução da emissão de poluentes. Melhorar a mobilidade urbana, ampliar o controle das emissões industriais, combater queimadas e investir em fontes de energia e transportes menos poluentes são ações que podem produzir benefícios coletivos muito mais amplos.

 

Enquanto a ciência continua investigando com maior precisão a relação entre poluição atmosférica e câncer de mama, não devemos perder de vista aquilo que já sabemos sobre prevenção. Manter um peso adequado, praticar atividade física regularmente, evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool e seguir as recomendações médicas para rastreamento e acompanhamento são medidas importantes para reduzir riscos e favorecer o diagnóstico precoce.

 

A prevenção do câncer precisa ser compreendida de maneira cada vez mais ampla. Ela envolve nossas escolhas, nossa genética, nossos hábitos e também o ambiente em que vivemos.

 

Se a qualidade do ar pode influenciar nossa saúde de maneira tão abrangente, cuidar do ambiente também é, em última análise, uma forma de cuidar da saúde. E ampliar esse olhar é fundamental para que a prevenção do câncer não se limite ao consultório, mas também alcance os espaços onde vivemos, trabalhamos e respiramos.

 

*Ive Lima é Oncologista — CRM 26500

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias