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Bets, saúde mental e o desafio de reconhecer quando o jogo se tornou compulsão

Por Juscimária Bezerra

Bets, saúde mental e o desafio de reconhecer quando o jogo se tornou compulsão
Foto: Divulgação

As apostas esportivas nunca estiveram tão presentes na rotina dos brasileiros. Com poucos toques no celular, qualquer pessoa pode apostar a qualquer hora do dia e em qualquer lugar, impulsionada pela promessa de ganhos rápidos e pela sensação de prazer imediato. Mas, enquanto esse mercado cresce em ritmo acelerado, outro fenômeno avança de forma silenciosa: o número de pessoas que desenvolvem uma relação compulsiva com o jogo.

 

O transtorno do jogo, popularmente conhecido como ludopatia, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. Ainda pouco discutido fora dos consultórios, seus impactos são cada vez mais visíveis. Endividamento, conflitos familiares, dificuldade de se relacionar, ansiedade e depressão fazem parte de uma realidade que ultrapassa a esfera financeira e exige um olhar atento para a saúde mental.

 

É importante fazer uma distinção. Apostar ocasionalmente não significa, por si só, desenvolver uma doença. O problema começa quando o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade. A pessoa perde a capacidade de estabelecer limites, continua apostando mesmo diante de prejuízos evidentes e passa a reorganizar sua vida em função da próxima possibilidade de ganho.

 

Esse comportamento costuma se instalar aos poucos. Primeiro surge a tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Depois, as justificativas para continuar jogando. Em seguida, aparecem as mentiras, os empréstimos, os conflitos dentro de casa e o sofrimento emocional. São sinais de que o jogo deixou de ser entretenimento e passou a controlar a rotina e as decisões daquela pessoa.

 

O avanço das plataformas digitais contribuiu para esse cenário. Diferentemente dos jogos tradicionais, as casas de apostas online estão disponíveis 24 horas por dia, oferecem inúmeras modalidades de apostas e utilizam mecanismos que estimulam a permanência do usuário. Essa combinação favorece um ciclo de repetição especialmente perigoso para pessoas mais vulneráveis ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos.

 

Por isso, discutir ludopatia é discutir saúde pública. Assim como outros transtornos relacionados à dependência, ela exige informação, prevenção e acesso ao tratamento. O estigma ainda faz com que muitas pessoas demorem a procurar ajuda por acreditarem que o problema é apenas falta de autocontrole ou de responsabilidade, quando, na verdade, trata-se de uma condição clínica reconhecida.

 

O tratamento existe e apresenta resultados positivos, principalmente quando iniciado precocemente. A psicoterapia, especialmente por meio da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), auxilia o paciente a identificar os gatilhos da compulsão, reestruturar padrões de pensamento e desenvolver estratégias para recuperar o controle sobre sua rotina. Em casos mais complexos, sobretudo quando há sintomas de ansiedade ou depressão associados, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser recomendado.

 

À medida que o universo das apostas ganha espaço na sociedade brasileira, cresce também a necessidade de ampliar o debate sobre seus efeitos. A regulamentação do setor é importante, mas ela precisa caminhar ao lado da educação, da conscientização e do fortalecimento da rede de atenção à saúde mental.

 

Quando a aposta deixa de ser uma forma de entretenimento e passa a comprometer a vida social, financeira e emocional, já não estamos falando apenas de um hábito. Estamos diante de uma doença que precisa ser reconhecida, acolhida e tratada.

 

*Juscimária Bezerra é psicóloga da Hapvida

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias