Hidradenite Supurativa: por que uma doença relativamente comum ainda leva anos para ser diagnosticada?
Imagine conviver durante anos com lesões dolorosas, recorrentes, que surgem principalmente nas axilas, virilhas, nádegas ou abaixo das mamas. Imagine procurar diferentes profissionais de saúde, receber diagnósticos variados, ser tratado repetidas vezes como portador de infecções ou furúnculos e, mesmo assim, continuar sofrendo com os mesmos sintomas.
Essa ainda é a realidade de muitos pacientes com Hidradenite Supurativa (HS), uma doença inflamatória crônica que afeta aproximadamente 1% da população mundial e que continua sendo subdiagnosticada em diferentes países, incluindo o Brasil.
O que mais chama atenção é que não estamos falando de uma doença rara nem de um diagnóstico complexo. Pelo contrário. A hidradenite supurativa pode ser identificada por critérios clínicos relativamente simples, sem necessidade de exames sofisticados para confirmação. Ainda assim, estudos mostram que o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico correto pode variar entre sete e 15 anos.
Esse atraso ocorre por diversos motivos. Muitas vezes, o paciente procura atendimento durante uma fase aguda da doença e recebe tratamento para um suposto quadro infeccioso. Em outros casos, as lesões são interpretadas como furúnculos recorrentes, foliculites ou problemas localizados da região acometida. Como consequência, o paciente passa anos tratando episódios isolados, sem que a doença de base seja reconhecida.
A principal característica da Hidradenite Supurativa é justamente a recorrência. Lesões que aparecem repetidamente nos mesmos locais, especialmente em regiões de dobra do corpo, devem servir de alerta tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde.
Nas últimas décadas, também houve uma mudança importante na forma como compreendemos a doença. Durante muito tempo, a hidradenite supurativa foi encarada como uma condição relacionada principalmente a infecções. Hoje sabemos que se trata de uma doença inflamatória complexa, mediada por alterações do sistema imunológico e associada a diferentes vias inflamatórias.
Essa evolução do conhecimento científico permitiu avanços significativos no tratamento. Atualmente, o Brasil já dispõe de terapias biológicas capazes de atuar diretamente nos mecanismos inflamatórios envolvidos na doença. Além disso, novas moléculas continuam sendo estudadas em pesquisas clínicas internacionais, ampliando as perspectivas para pacientes que convivem com formas moderadas e graves da condição.
Mas é importante destacar que a hidradenite supurativa não se limita às lesões de pele. Frequentemente ela está associada à obesidade, tabagismo, síndrome metabólica, diabetes, alterações hormonais e transtornos relacionados à saúde mental. Por isso, o tratamento ideal exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo diferentes especialidades médicas e profissionais de saúde.
Recentemente, durante o 4º Imuno & Derma e o 5º SOLAPSO, realizados no Rio de Janeiro, especialistas de diferentes países discutiram justamente os avanços terapêuticos e os desafios que ainda enfrentamos no cuidado desses pacientes. Entre os temas debatidos estiveram novas terapias biológicas, estudos de longo prazo sobre segurança e eficácia dos tratamentos e perspectivas futuras para o controle mais duradouro da doença.
Os avanços são animadores. No entanto, nenhum tratamento será capaz de atingir seu potencial máximo se continuarmos falhando no diagnóstico precoce.
Precisamos ampliar o conhecimento sobre a Hidradenite Supurativa não apenas entre dermatologistas, mas também entre médicos de outras especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais que possam ter contato com esses pacientes. Quanto mais cedo a doença for identificada, maiores serão as chances de evitar cicatrizes permanentes, complicações e impactos significativos na qualidade de vida.
O maior desafio da hidradenite supurativa atualmente talvez não seja a falta de tratamento. É garantir que o paciente chegue ao diagnóstico antes que a doença deixe marcas irreversíveis.
*Gleison Duarte é dermatologista da Clínica Ibis (CRM - 18130 / RQE - 11203)
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