A matemática da vida e o desafio de envelhecer com saúde
Os números mais recentes do IBGE, consolidados na pesquisa Tábuas de Mortalidade 2024, trazem uma confirmação estatística de um fenômeno que observamos diariamente no ambiente clínico: a vida está se estendendo. A expectativa de vida do brasileiro atingiu a marca histórica de 76,6 anos, um incremento de 2,5 meses em apenas um ano. No entanto, como diretora médica e gestora de saúde, meu olhar se volta para uma pergunta mais profunda e analítica: estamos apenas somando anos à vida ou estamos somando vida aos anos?
A análise comparativa histórica é fascinante e, ao mesmo tempo, um alerta. Em 1940, um brasileiro que alcançava os 60 anos tinha, estatisticamente, mais 13,2 anos de jornada pela frente. Hoje, esse mesmo indivíduo de 60 anos tem uma projeção de mais 22,6 anos de vida. Ganhamos quase uma década de existência adicional após a chamada melhor idade. É um triunfo da medicina, do saneamento e do acesso à informação. Mas esse bônus cronológico não vem de graça. Ele exige um novo contrato de saúde assinado muito antes, aos 30 e 40 anos.
É comum que, no auge da fase produtiva, entre os 30 e 40 anos, o indivíduo negligencie os sinais do corpo em nome da carreira e das obrigações familiares. No entanto, é precisamente nesta janela de tempo que o "boleto biológico" da longevidade começa a ser emitido. Os dados mostram que a população masculina, embora tenha tido um ganho de expectativa de vida (passando de 73,1 para 73,3 anos), ainda vive significativamente menos que as mulheres, que já beiram os 80 anos (79,9).
Essa diferença de quase sete anos entre os gêneros é um indicador analítico de que o comportamento preventivo, mais frequente no público feminino, é o divisor de águas entre a sobrevivência e a vitalidade.
Sob o ponto de vista técnico, a longevidade ativa depende do manejo precoce das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). O diagnóstico de uma hipertensão ou de um pré-diabetes aos 35 anos não é uma sentença, mas uma oportunidade estratégica de ajuste. Se ignorados, esses fatores serão os responsáveis por transformar os 22 anos extras de vida conquistados desde 1940 em anos de dependência e limitação física.
O aumento da expectativa de vida é um dado para ser comemorado, mas a longevidade ativa é uma construção diária. O futuro promissor que os dados do IBGE desenham só se concretiza se as escolhas de hoje forem tão robustas quanto as estatísticas. Afinal, viver mais é um fato; viver bem é uma escolha técnica e consciente.
*Claudia Velasco é Diretora Médica da Clínica SiM
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