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Saúde nas eleições, por que promessa não basta?

Por Tacyra Valois

Saúde nas eleições, por que promessa não basta?
Foto: Divulgação

A saúde é um dos setores mais relevantes da vida brasileira, mas continua ocupando espaço menor do que deveria nas decisões centrais. O problema não é falta de diagnóstico. O Brasil produz planos, metas e propostas. O que falta é capacidade de transformar isso em decisão consistente, coordenação institucional e política de Estado.


Isso ajuda a explicar por que um setor que responde por mais de 9,5% do PIB e emprega mais de 5 milhões de pessoas segue tratado de forma fragmentada. A saúde aparece no discurso, mobiliza eleições e pressiona governos. Mas ainda não se firmou como critério efetivo de qualidade da decisão política. Continua submetida ao calendário eleitoral, à pressão imediata e à baixa continuidade institucional.


A pandemia de Covid-19 expôs esse limite. Ficou evidente que a resposta em saúde não depende apenas de hospital, leito ou insumos. Depende da capacidade do poder público de decidir com rapidez, coordenar setores, compartilhar informação e agir com base em evidências. Onde isso funcionou melhor, a resposta foi mais consistente. Onde não funcionou, o custo foi maior.


Ainda assim, essa lição não foi incorporada. O debate sobre saúde no Brasil continua fragmentado. Discute-se o financiamento do SUS, a pressão sobre a saúde suplementar, a regulação e o avanço da judicialização como se fossem problemas isolados. Não são. Revelam um sistema que decide mal, coordena pouco e corrige falhas de forma tardia e mais cara.


Na mesma direção, as emendas parlamentares podem expressar demandas legítimas dos territórios, mas precisam estar mais conectadas ao planejamento público. Quando os recursos chegam sem articulação com prioridades sanitárias, metas regionais e avaliação de resultados, o orçamento se dispersa e perde capacidade de produzir mudanças duradouras. Não queremos aqui negar o papel político das emendas, mas garantir que elas fortaleçam uma estratégia de saúde contínua, coordenada e orientada por necessidades reais da população.


Essa fragmentação compromete a racionalidade do sistema. Cada ator busca resolver sua parte e cada nível de governo administra seu próprio limite. Mas saúde não funciona por pedaços. Ela depende de coordenação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, articulação federativa e capacidade para conectar financiamento, regulação, serviços e resultados.
É justamente nesse ponto que a dimensão municipal continua subestimada. A vida acontece nas cidades. A saúde se produz nos territórios. A população sente a política pública no posto de saúde, no deslocamento, na qualidade do saneamento, na segurança alimentar e na capacidade do serviço local de responder com continuidade. Saúde, na prática, também é mobilidade, habitação, ambiente urbano, educação e assistência social.


Municípios que articulam melhor saúde, assistência, educação, urbanismo e mobilidade tendem a produzir respostas mais consistentes. Não necessariamente porque tenham mais recursos, mas porque conseguem decidir melhor, integrar melhor e acompanhar melhor. Mas nenhuma cidade sustenta isso sozinha. Essa capacidade depende de financiamento estável, coordenação federativa, regras previsíveis e instrumentos de gestão que sobrevivam à troca de governos.


O Brasil entrou mais uma vez em ciclo político. Esse deveria ser o momento de exigir menos retórica e mais método. Plano de governo que não informa prioridade, prazo, responsabilidade, critério de implementação e lógica de coordenação não é compromisso real de governo. É apenas intenção.


Na saúde, isso deveria estar ainda mais claro. Seus efeitos aparecem na vida cotidiana, na confiança institucional e na capacidade do Estado de entregar respostas concretas à população. O país não precisa de mais promessas genéricas na área. Precisa de decisão pública à altura da complexidade do setor.


A saúde já está no centro das preocupações da sociedade. Falta ocupar o mesmo lugar na qualidade da decisão pública.


*Tacyra Valois é executiva em saúde, vice-presidente da ABRIG, pesquisadora em gestão e governança e doutoranda em administração pública pela Université de Bordeaux.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias