Infertilidade, excesso de informação e solidão silenciosa: o que não se vê por trás do desejo de ser mãe
Maio costuma ser um mês de celebração. Mas, dentro dos consultórios, ele também revela uma camada menos visível da maternidade: a das mulheres que desejam engravidar, mas encontram no caminho um tempo que não responde, um corpo que não acompanha e uma expectativa que começa a pesar.
A infertilidade, definida clinicamente como a dificuldade de engravidar após 12 meses de tentativas, ou seis meses em mulheres acima de 35 anos, já não pode mais ser tratada como exceção. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 17,5% da população adulta global enfrenta essa condição em algum momento da vida, o que representa aproximadamente uma em cada seis pessoas. No Brasil, estimativas da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida apontam que cerca de 8 milhões de pessoas convivem com dificuldades para engravidar.
Ainda assim, o tema segue cercado por silêncio, atraso no diagnóstico e, muitas vezes, interpretações simplificadas. A fertilidade não é um evento isolado, nem um resultado imediato. Ela é construída a partir de múltiplos fatores biológicos, hormonais, comportamentais e sociais. Reduzir esse processo a uma tentativa que não deu certo significa perder a oportunidade de investigar de forma estratégica.
Na prática clínica, observa-se que muitas pacientes chegam após longos períodos de tentativa sem orientação adequada. Parte disso se deve a uma percepção cultural ainda muito presente: a ideia de que engravidar é um processo natural, automático e, portanto, apenas uma questão de tempo. Não é.
A idade segue como um dos fatores mais determinantes. A fertilidade feminina começa a declinar de forma mais acentuada após os 35 anos, com redução progressiva da quantidade e da qualidade dos óvulos, um processo biologicamente esperado, mas frequentemente negligenciado no planejamento reprodutivo contemporâneo. Paralelamente, condições como endometriose, síndrome dos ovários policísticos, alterações hormonais e baixa reserva ovariana podem atuar de forma silenciosa por anos.
A isso se somam fatores comportamentais cada vez mais presentes, como estresse crônico, privação de sono, alimentação desregulada, consumo de álcool, tabagismo e sedentarismo. Nenhum deles, isoladamente, determina a infertilidade, mas, em conjunto, contribuem para um cenário menos favorável à concepção. Vive-se hoje uma contradição importante: as mulheres têm mais autonomia para decidir quando querem ser mães, o que é um avanço inegável, mas o corpo reprodutivo ainda responde a um tempo biológico que não mudou. Esse desalinhamento precisa ser discutido com mais clareza.
Nesse contexto, cresce também a busca por apoio fora do ambiente médico. As redes sociais se tornaram espaços de troca, acolhimento e identificação entre mulheres que vivem o mesmo processo. Relatos pessoais, jornadas de tratamento e experiências compartilhadas ajudam a reduzir a sensação de isolamento, o que tem valor. No entanto, há um movimento paralelo que merece atenção.
Estudos recentes publicados em periódicos científicos mostram que conteúdos sobre fertilidade nas redes sociais frequentemente apresentam desinformação e baixa participação de profissionais qualificados. Além disso, revisões em saúde digital indicam que a exposição contínua a narrativas idealizadas ou a soluções simplificadas pode aumentar níveis de ansiedade e estresse em pacientes em tentativa de engravidar.
Trata-se de um ambiente ambíguo. Ao mesmo tempo em que acolhe, também pode confundir. Promessas de cura natural, tratamentos sem evidência científica e protocolos replicados sem individualização são mais comuns do que deveriam, o que pode atrasar decisões importantes. Outro ponto sensível é a cultura da comparação. Diferente do que acontece no consultório, onde cada caso é interpretado de forma individualizada, nas redes sociais as histórias são consumidas de forma fragmentada e frequentemente fora de contexto, gerando uma percepção distorcida de tempo, prognóstico e expectativa.
Enquanto isso, o impacto emocional da infertilidade é real e mensurável. Mulheres em tratamento podem apresentar níveis de estresse comparáveis aos de pacientes com doenças crônicas graves. Ansiedade, frustração, sensação de perda de controle e isolamento são recorrentes e muitas vezes invisíveis.
A infertilidade não é apenas uma condição física. Ela atravessa o emocional, os relacionamentos e a forma como a mulher se enxerga. Por isso, o cuidado precisa ser ampliado, não apenas técnico, mas também humano.
Neste Mês das Mães, ampliar a conversa sobre maternidade também significa incluir quem ainda está no caminho. Significa reconhecer que, para muitas mulheres, o desejo de ser mãe não vem acompanhado de respostas rápidas e que isso não deve ser tratado com culpa, urgência ou soluções simplistas. Nem sempre o tempo da vida coincide com o tempo biológico. E é justamente por isso que informação de qualidade, diagnóstico precoce e acompanhamento especializado fazem tanta diferença. Fertilidade não é sobre promessa. É sobre estratégia, ciência e, principalmente, cuidado.
*Wendy Delmondes é Médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com Atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959)
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