Lei amplia acesso à reconstrução mamária, mas informação ainda é desafio
A ampliação do acesso à reconstrução mamária no Brasil representa um avanço importante no cuidado às mulheres com câncer de mama. Ainda assim, a falta de informação continua sendo um dos principais obstáculos para que esse direito seja plenamente exercido.
Ao longo do tratamento, uma decisão fundamental nem sempre é apresentada de forma clara às pacientes: a possibilidade da reconstrução mamária. Embora garantida por lei e reconhecida como parte integrante do tratamento oncológico, essa etapa ainda é frequentemente percebida como opcional ou restrita à estética, o que contribui para que muitas mulheres não tenham acesso a todas as alternativas disponíveis.
Nos últimos anos, a legislação brasileira avançou ao ampliar a oferta da reconstrução mamária pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contemplando não apenas casos oncológicos, mas também outras situações que envolvem a retirada da mama. Essa ampliação reforça o entendimento de que o procedimento deve ser encarado como parte do cuidado integral à saúde da mulher.
Apesar disso, persiste uma percepção limitada sobre o tema. A reconstrução mamária vai além da aparência: ela tem impacto direto na autoestima, na identidade e na recuperação emocional das pacientes. Mais do que uma questão estética, a reconstrução mamária faz parte do tratamento. Ela influencia diretamente na forma como a paciente se reconhece após a cirurgia e contribui para a recuperação emocional ao longo de todo o processo.
Por esse motivo, quando indicada, a reconstrução deve ser discutida desde o momento do diagnóstico. Essa abordagem permite que a paciente participe ativamente das decisões sobre seu tratamento, compreendendo possibilidades e limites de cada opção. A cirurgia pode ser realizada de forma imediata — no mesmo tempo da retirada da mama — ou tardia, até anos após a conclusão do tratamento. A escolha do momento ideal depende de uma avaliação clínica individualizada.
Entre os fatores considerados estão o tipo e o estágio do tumor, as condições gerais de saúde da paciente e o planejamento terapêutico. As técnicas também variam, podendo incluir o uso de próteses de silicone ou a reconstrução com tecidos do próprio corpo, sempre com indicação personalizada.
Uma das dúvidas mais frequentes diz respeito à segurança da reconstrução imediata. Quando bem indicada, essa abordagem é considerada segura do ponto de vista oncológico. Estudos e diretrizes internacionais mostram que a reconstrução imediata não aumenta o risco de recidiva nem compromete a sobrevida. No entanto, essa decisão não é automática: depende da extensão da doença, das condições clínicas da paciente e da experiência da equipe envolvida.
Quando esses critérios são respeitados, a reconstrução imediata pode trazer benefícios importantes, como a redução do número de cirurgias e melhores resultados estéticos, sem prejuízo ao tratamento do câncer. Mais do que a reconstituição física, o procedimento contribui para que a paciente se reconecte com o próprio corpo, retome sua identidade e enfrente o processo com mais segurança e bem-estar.
Diante desse cenário, a principal orientação para mulheres que passam pela retirada da mama é buscar informação qualificada e acompanhamento especializado. A retirada da mama não significa, necessariamente, uma perda definitiva. Em muitos casos, é possível reconstruir na mesma cirurgia e, mesmo quando isso não é indicado naquele momento, ainda existe a possibilidade de reconstrução posteriormente. O mais importante é que a paciente entenda que a reconstrução não é um detalhe estético, mas parte do tratamento, e precisa ser discutida com uma equipe preparada.
Garantir o acesso à informação é fundamental para que esse direito seja efetivamente exercido. O acompanhamento multidisciplinar possibilita que cada paciente compreenda suas opções e participe de forma ativa e consciente de toda a sua jornada de cuidado.
*Larissa Bitencourt (CRM 24.958/BA | RQE 14.465 / 14.464) e Marinalva Medina (CRM 23.234/BA | RQE 15148 - | RQE 15.149) são mastologistas.
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