Saúde mental no trabalho deixa de ser opcional e passa a ser compromisso legal
A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, marca um divisor de águas na forma como as empresas brasileiras devem lidar com a saúde de seus colaboradores. Ao incluir formalmente os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma amplia o olhar sobre o adoecimento ocupacional, reconhecendo que ele não se limita ao corpo, mas envolve também a mente e as emoções.
Embora a atualização já esteja em vigor, a obrigatoriedade com possibilidade de fiscalização e autuação passa a valer a partir de 26 de maio de 2026. Até lá, as organizações têm um período de adequação técnica, que exige planejamento, mapeamento de riscos e implementação de estratégias preventivas.
Essa mudança não surge por acaso. Nos últimos três anos, o Brasil registrou um aumento de 80% nos afastamentos relacionados à saúde mental, evidenciando um cenário preocupante e, ao mesmo tempo, urgente. Trata-se de um avanço civilizatório, que reconhece que ambientes de trabalho podem adoecer e que isso deve, e pode, ser prevenido.
Os chamados riscos psicossociais dizem respeito a fatores presentes no ambiente corporativo que impactam diretamente o bem-estar emocional dos trabalhadores. Metas excessivas, sobrecarga, lideranças abusivas, assédio moral e um clima organizacional hostil não são exceções isoladas, mas, muitas vezes, reflexos de estruturas adoecidas. É fundamental compreender que esses fatores não são fragilidades individuais, e sim questões sistêmicas que precisam ser enfrentadas com responsabilidade.
Na prática, a exigência da NR-1 traz uma nova camada de responsabilidade para as empresas. A avaliação psicossocial passa a ser uma ferramenta essencial para identificar setores críticos, padrões de liderança disfuncionais e dinâmicas que favorecem o esgotamento. O Burnout, por exemplo, não surge de forma repentina, ele é resultado de um contexto contínuo de pressão e desequilíbrio.
Mais do que cumprir uma exigência legal, as organizações precisarão promover uma verdadeira mudança cultural. Cuidar da saúde mental não pode ser reduzido a campanhas pontuais ou ações isoladas. Trata-se de uma construção contínua, que envolve escuta ativa, revisão de práticas e compromisso com ambientes mais saudáveis.
A atualização da NR-1 inaugura, portanto, uma nova fase no mundo corporativo. O cuidado com a saúde mental deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser uma obrigação legal, e, acima de tudo, um imperativo ético.
*Livia Drummond é psicóloga (CRP 03/23604) da Clínica Holos.
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