Não basta não ser machista. É preciso ser antimachista
Durante muito tempo, bastava aos homens dizerem que “não eram machistas” para se sentirem fora do problema. Como se a ausência de violência explícita fosse suficiente para absolvê-los de uma estrutura que se estrutura, justamente, nas pequenas ações do cotidiano. Mas essa ideia confortável já não se sustenta. Em uma sociedade marcada por desigualdades profundas de gênero, não se posicionar também é uma escolha e, muitas vezes, uma forma de manutenção. É nesse ponto que a discussão precisa avançar: não basta não ser machista...é preciso assumir um papel ativo na transformação.
O combate ao machismo não pode ser visto como uma responsabilidade exclusiva das mulheres, pois são os próprios homens que, historicamente, mais se beneficiaram e reproduziram essas estruturas. Por isso, é fundamental que assumam um papel ativo nessa transformação, reconhecendo seus privilégios, revendo comportamentos e questionando atitudes naturalizadas no dia a dia, desde piadas até formas mais explícitas de violência. Mais do que concordar com a causa, é preciso agir: ouvir, aprender, intervir quando presenciarem situações de machismo e promover relações mais justas e respeitosas. A mudança real só acontece quando os homens deixam de ser parte do problema e passam, de fato, a ser parte da solução.
Ao longo da minha trajetória como sexólogo e educador em sexualidade, além de anos de experiência como professor na área da saúde, fui percebendo algo que se repetia constantemente: muitas das dificuldades emocionais e sexuais enfrentadas por homens e mulheres estão profundamente ligadas a uma masculinidade rígida e tóxica, além da cultura patriarcal na qual fomos socializados e que ainda contamina a sociedade. Um exemplo disso é a presença de atitudes machistas vindas de mulheres e até mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Grande parte dos conflitos afetivos nasce da dificuldade masculina de lidar com frustração, vulnerabilidade e limites. Fomos ensinados a não demonstrar fragilidade, a competir o tempo todo e a entender o poder como parte essencial da identidade masculina. O resultado é que muitos homens acabam emocionalmente empobrecidos, incapazes de estabelecer relações mais maduras e equilibradas.
Outro ponto que precisa ser enfrentado é a tendência de associar o machismo apenas aos casos extremos de violência. Evidentemente, o feminicídio e as agressões físicas são expressões brutais desse problema. Mas o machismo também vive nas pequenas práticas do cotidiano que muitas vezes passam despercebidas ou são naturalizadas: interromper constantemente a fala de uma mulher, fazer piadas misóginas ou sexistas, evitar dividir tarefas domésticas, resistir a conversas sobre consentimento ou reagir de forma defensiva quando somos confrontados. Enquanto muitos homens acreditarem que não fazem parte do problema apenas porque não são violentos fisicamente, continuaremos presos a uma compreensão superficial do que é o machismo e suas consequências.
Foi justamente a partir dessas inquietações que criei o Antimachismo Social Club, um movimento que pretende estimular homens e mulheres a revisarem comportamentos cotidianos e assumirem um compromisso ativo contra o machismo. Ele nasce com a proposta de romper com o que gosto de chamar de “pacto de silêncio”. Um pacto que existe quando homens preferem ignorar comportamentos problemáticos dentro dos próprios grupos, evitando desconfortos e conflitos. Talvez um dos maiores desafios esteja justamente na dificuldade masculina de suportar o desconforto. Muitos homens confundem crítica estrutural com ataque pessoal. Mas reconhecer privilégios não significa perder espaço. Significa amadurecer socialmente.
Outra questão que considero fundamental para essa mudança é que a educação sexual nas escolas e nas famílias seja uma prática natural e consistente. Falar sobre consentimento, respeito, responsabilidade afetiva e comunicação nas relações não é apenas um tema de saúde ou comportamento, é também uma estratégia concreta de prevenção da violência.
Acredito que podemos criar uma geração de homens mais conscientes com relação a tudo que o machismo e o patriarcado trazem de ruim para a sociedade, para mulheres e para eles mesmos.
*Januário Mourão é Mestre e Doutor em Ciências Morfológicas pela UFRJ, e atuou como professor de Anatomia Humana em cursos da área da saúde e como gestor educacional em instituições privadas. É graduado em Fisioterapia e Gestão Financeira, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Especialista em Sexologia e Sexualidade Humana e em Psicanálise Clínica, une ciência, educação e comportamento em sua trajetória profissional. É fundador do projeto “Prazer! Te Conhecer”; do projeto “Antimachista Social Club”; e Diretor Operacional da Gaveta do Pensamento.
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