Esgotamento feminino: quando dar conta de tudo deixa de ser força e passa a ser sobrecarga
A sensação constante de cansaço, sobrecarga e exaustão emocional tem se tornado cada vez mais presente na vida de muitas mulheres, inclusive daquelas que, à primeira vista, parecem dar conta de todas as demandas. Entre trabalho, responsabilidades domésticas, relações pessoais, autocuidado e a cobrança contínua por desempenho, forma-se um cenário propício ao esgotamento silencioso.
Esse fenômeno vai além de uma rotina intensa ou exaustiva. Um dos seus principais fatores está na repetição de padrões familiares e culturais que são internalizados desde cedo. Muitas mulheres aprendem, de maneira direta ou sutil, a ocupar o papel de quem cuida, acolhe e sustenta o outro, frequentemente deixando suas próprias necessidades em segundo plano. Com o tempo, esse comportamento deixa de ser uma escolha consciente e passa a operar como uma exigência interna automática.
Existe uma construção cultural muito forte da mulher que prioriza o outro e só olha para si se “sobrar tempo”. Esse movimento não nasce apenas das demandas atuais, mas de aprendizados emocionais antigos, muitas vezes herdados da própria dinâmica familiar e ancestral. Nesse contexto, abordagens terapêuticas que integram a psicologia científica e a psicologia profunda tornam-se fundamentais. Enquanto a psicologia baseada em evidências oferece uma compreensão estruturada sobre comportamento, emoções e funcionamento mental, a psicologia profunda permite acessar camadas mais inconscientes, como padrões repetitivos, conflitos internos e marcas emocionais que não são imediatamente visíveis.
Não basta apenas entender o que está acontecendo no presente. É preciso acessar a origem desses padrões, dar significado às experiências e integrar emocionalmente essas vivências. É nesse ponto que o processo terapêutico se torna mais efetivo e transformador. A partir dessa integração, torna-se possível reconhecer limites, ressignificar o lugar ocupado nas relações e construir formas mais saudáveis de se posicionar , sem a culpa e a sobrecarga que, por tanto tempo, pareceram inevitáveis.
Se você não precisasse dar conta de tudo para ser valorizada, quem você seria?
*Ajurymar Santtos é Psicóloga e PhD Internacional em Psicologia Clínica e da Saúde
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