Câncer de mama não é doença apenas de mulheres idosas: aumento de casos em jovens acende alerta
O câncer de mama permanece como o tipo de câncer mais frequente entre mulheres no Brasil e no mundo, com maior incidência após os 50 anos. No entanto, nas últimas décadas, temos observado um aumento proporcional de diagnósticos em mulheres jovens, muitas delas com menos de 40 anos. Esse cenário acende um alerta importante para a necessidade de diagnóstico precoce e de uma abordagem individualizada, especialmente nessa faixa etária.
O debate ganha ainda mais relevância no mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, momento que nos convida a refletir sobre saúde, autonomia e acesso à informação qualificada. Falar sobre câncer de mama em mulheres jovens é, também, reafirmar o direito ao diagnóstico oportuno, ao cuidado personalizado e à preservação de projetos de vida.
Entre mulheres jovens, o diagnóstico costuma ocorrer em estágios mais avançados. A ausência de rastreamento sistemático antes dos 40 anos, a menor suspeição clínica e a maior densidade das mamas — característica comum nessa faixa etária e que pode dificultar a interpretação dos exames de imagem — estão entre os fatores que contribuem para atrasos na identificação da doença. Por isso, nódulos palpáveis, retrações na pele, secreção pelo mamilo ou alterações no formato das mamas devem sempre ser investigados, independentemente da idade.
Do ponto de vista biológico, o câncer de mama em mulheres jovens pode apresentar, com maior frequência, características mais agressivas, como tumores de alto grau, crescimento acelerado e maior proporção de subtipos como o triplo-negativo ou HER2-positivo. Além disso, muitas vezes o diagnóstico ocorre mais tardiamente, o que impacta diretamente nas opções terapêuticas. Isso não significa que todos os casos serão agressivos, mas reforça a necessidade de avaliação criteriosa, exames adequados e definição de um tratamento personalizado, baseado nas características do tumor e da paciente.
É fundamental romper com a ideia de que o câncer de mama é uma doença exclusivamente associada ao envelhecimento. Mulheres jovens também precisam estar atentas às mudanças no próprio corpo e procurar avaliação especializada sempre que perceberem qualquer alteração. O diagnóstico precoce amplia significativamente as possibilidades de tratamento e melhora os desfechos clínicos.
Quando o câncer de mama acomete mulheres em idade reprodutiva, os impactos vão além do tratamento oncológico. Muitas pacientes estão em fase de consolidação profissional, planejamento familiar ou ainda não tiveram filhos. Terapias como a quimioterapia podem comprometer a função ovariana, afetando a fertilidade futura.
Nesses casos, é essencial que a paciente seja orientada, antes do início do tratamento, sobre as possibilidades de preservação da fertilidade, como o congelamento de óvulos ou embriões e, em situações específicas, a proteção ovariana medicamentosa. O cuidado deve ser integral, envolvendo oncologia, mastologia e, quando necessário, especialistas em reprodução humana, para que as decisões terapêuticas estejam alinhadas aos projetos de vida de cada mulher.
O aumento proporcional de casos em pacientes jovens reforça a importância de um olhar atento às particularidades clínicas, emocionais e sociais dessa população. Mais do que tratar a doença, o desafio é oferecer assistência completa, individualizada e sensível às diferentes dimensões da vida da paciente — promovendo informação, acolhimento e cuidado de excelência.
*Ive Lima é Oncologista (CRM 26500 / RQE Nº 20193), e Luiza Mascarenhas é Mastologista (CRM 31052 / RQE Nº 25266)
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