Quarta, 26 de Dezembro de 2018 - 11:00

Chico Kertész sente 'menos interesse' no Axé, mas crê que renovação pode reverter crise

por Júnior Moreira Bordalo / Ian Meneses

Chico Kertész sente 'menos interesse' no Axé, mas crê que renovação pode reverter crise
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Chico Kertész pode ser considerado um profissional multitarefas, até porque ele mesmo diz que “não dá para ser uma coisa só”. Além de sua apresentação diária no Jornal da Cidade, na Rádio Metrópole, o empresário também se dedica à área audiovisual. Com sua produtora Macaco Gordo, Chico tem trabalhado com filmes documentários (veja aqui e aqui) e também está por trás da criação e execução de clipes de artistas como Claudia Leitte, Denny Denan, Daniela Mercury e Harmonia do Samba. 

 

Chico K., como também é conhecido, tem se empenhado nos últimos anos em trazer de volta ao público a importância que o Axé Music tem para a vida dos baianos e como o movimento marca a cultura brasileira. “Eu percebi, um dia, que não era possível que até hoje ninguém fez isso, uma história que é tão rica”, diz Chico ao pensar na criação do filme documentário “Axé – Canto do Povo de um Lugar” (2017). 

 

Dar espaço a este universo que não se resume somente ao Carnaval provocou nele uma dualidade de perspectivas com o futuro do Axé. Por um lado, ele confessa que às vezes tem “a sensação de que as pessoas estão menos interessadas”, por outro, mantém esperanças de que “tem um ciclo vicioso ruim que precisa ser corrompido”, para assim dar “oportunidade aos novos” e “botar a galera para tocar”.

 

Empresário, radialista, produtor... Como você se apresenta? Como você se auto identifica?

Eu nem sei responder. Eu acho que meu foco é a Comunicação. Através de clipes, através de filmes, da própria rádio e da internet. É uma pergunta difícil. Não dá para ser uma coisa só, porque eu divido o tempo com essas coisas. Não faço uma coisa só mesmo e parto dessa inquietação.

 

Você planejou sua vida profissional para ser assim?

Não, eu sou muito ansioso. Então eu acabo fazendo muitas coisas e começando a fazer as coisas intempestivamente. Não é uma coisa orquestrada. O filme do “Axé” [Canto do Povo de Um Lugar], por exemplo, eu percebi um dia que não era possível que até hoje ninguém fez isso, uma história que é tão rica.

 

Atualmente você é responsável por dirigir os clipes de cinco artistas baianos. Como você pensa cada projeto enquanto diretor?

A música vem antes de tudo, o clipe é um acessório. Nenhum clipe faz sucesso pelo clipe. Porque se o clipe for fantástico e a música for ruim, você vai assistir uma vez, assistir duas no máximo e não vai assistir mais. Então eu não faço mágica e a parte importante não é do clipe, é da música. Então todo roteiro vem em cima da música. A gente recebe a música e discute como vai fazer, geralmente com o artista. Dependendo do artista ele se envolve mais ou menos no roteiro, na discussão.

 

Mas você tem alguma marca, algum traço específico como diretor?

Acho que é só ritimo de montagem. Por isso que eu faço questão sempre de montar com Felipe Pauli, que é um cara fantástico que trabalha comigo há muitos anos, um gênio da edição. Ele consegue transmitir o ritmo que a gente quer dar ao trabalho.

 

Destas músicas, pelo menos três desses vídeos trazem uma relação forte com a Bahia. O de Xanddy comemora os 25 anos do Harmonia, Denny tem a relação com o Candeal e Claudia tem a ligação com o Pelourinho. Foi uma sugestão deles em específico? É um momento em que todos estão querendo exaltar mais a Bahia?

Claudia me procurou com a música “Saudade”, que é falando do samba-reggae, exaltando e dizendo que o samba-reggae está rompendo barreiras, então ela já veio com essa ideia de fazer sobre a Bahia. No caso de Denny, foi uma discussão com ele. A gente viu que tem um espaço aberto desde a sua saída da Timbalada, onde nem a própria carreira de Denny não tinha ainda aparecido de uma forma substancial, nem a própria Timbalada nova. Então ficou esse buraco. Sempre teve muita gente que curtia o som da Timbalada, por isso voltar para o Candeal é uma forma de chegar ali e dizer. No caso de Daniela [Mercury], ela vem com o roteiro pronto. Ela vem já sabendo o que vai fazer e qual a roupa que quer vestir e se deixar ela me dirige.

 

O novo trabalho de Claudia Leitte teve inspiração em Michael Jackson. Porém, ele foi alvo de comentários negativos antes mesmo de lançado. Como você vê isso?

Não é só inspirado em Michael Jackson. Isso aí foi porque saiu um bocado de memes e isso é precipitado. Na verdade ali é uma caixa onde ela remonta alguns clipes históricos da Bahia, como “Fricote” de Luiz Caldas, o de Sarajane com o da Rodinha [“A Roda”], dela do Babado Novo com o “Amor Pefeito” e o de Michael Jackson com o Olodum [They Don't Care About Us]. E eu acho que [os comentários negativos] é coisa de hater de internet, gente que pega no pé. Claudinha tem uma galera que pega no pé dela para sempre. Por outro lado, ela é bem quista por um público enorme. Não dá nem para poder dizer que é cópia. Primeiro que não é cópia, quando você vai refilmar uma coisa com o posicionamento das pessoas iguais, as roupas... É muito diferente de uma cópia, é uma homenagem, não só aquilo, como mais uns outros três clipes juntos a esse. É coisa de internet, mas é bom, porque está falando. Um bocado de gente comentando, botando foto dela com policial, fazendo meme, está repercutindo. Eu acho que ela não se estressa mais, não.

 

 

A sugestão desses quatro clipes foi dela ou foi sua? Como foi esse trabalho?

Foi conversando com ela na casa dela, a gente discutindo a música. Ela tinha a ideia de que queria gravar na casa dela na Saúde, onde ela morava. A casa dela não era uma locação que representasse a vista do Pelourinho, então a gente procurou o Lar Franciscano, que tem umas cenas lindas. Os remakes eu sugeri a ela como homenagem, já que ela estava com a letra dessa música fazendo a homenagem ao samba-reggae, à Bahia… que a gente resgatasse esse clipes. Inclusive fiz isso com meu irmão que é diretor de arte, Marcelo Kertész, e foi junto com ele esse de Claudia Leitte especificamente, que é mais rebuscado, que foi o que teve mais trabalho de estúdio, tem um custo de figurante muito grande, tem muita gente envolvida. Desses clipes todos, o mais grandioso foi o de Claudia, porque foi pensado e planejado com uns três meses para poder executar do jeito que foi. 

 

Acredita que alguma dessas músicas se torne o hit do verão?

Já tem uns cinco anos que não penso mais nisso. Desde Vingadora com “Metralhadora” e Psirico com essas últimas, eu acho que a gente já virou muito perecível, muito rápido. E não vejo gente ouvindo mais do jeito que ouvia. Eu fico meio descrente com essa coisa de música do Carnaval. É uma incógnita. Eu não sei como as pessoas estão escutando isso, não sei qual a atenção que as pessoas estão dando, o que é que chama atenção. O sertanejo tem um espaço hoje muito grande e aqui a gente tem cada vez menos rádio tocando música e quando toca é por acordo comercial. A coisa orgânica mesmo, de acontecer em si, é o que eu acredito. Tem que acontecer organicamente sem impulso, sem comprar views, sem fazer esses tipos de coisas que são artifícios que estão aí. Eu gosto muito dessa música do Harmonia, eu gosto da verdade de ter ido para Capelinha e não tem um figurante. E eles têm uma história bonita entre a banda. A gente vai apresentar o clipe para Xanddy, ele bota para a banda toda. Antes dele me responder “está bom ou não está bom”, eu já dizendo “uma hora que eu mandei o clipe para esse cara e esse cara não me diz se o clipe presta ou não presta”, ele estava ouvindo a banda, para ouvir a opinião de todo mundo, para daí ele me responder. Então há o respeito, não tem aquele negócio do cara que é o cantor, o líder. Isso do Harmonia eu acho fantástico e a música deles eu acho muito forte. 

 

As músicas que hoje são feitas aqui na Bahia criam boas perspectivas para o que virá no futuro? Como você vê a produção que é feita pelos artistas?  

A gente tem se preocupado. Tem procurado investir mais no audiovisual. Hoje com o Youtube está todo muito precisando, tanto é o motivo de eu ter feito cinco materiais de artistas da Bahia para o verão. Tem a necessidade. A música precisa hoje da imagem, é diferente do que a gente tinha há um tempo. Eu acho que eles estão investindo, se preparando para isso de uma forma mais presente. 

 

Como é a sensação de notar que talvez o público não esteja mais tão interessado?

Às vezes é frustrante, às vezes é preocupante e às vezes me surpreende, como no caso do Harmonia, por exemplo. A gente vai e faz um clipe e no segundo dia está com 300.000 visualizações e sei que aquilo é orgânico mesmo. Sei que pela gravação tem coisas que me impressionam. Eu saio com artistas há muitos anos e via o impacto de sair com eles na rua. No clipe do Harmonia mesmo você vê um bocado de gente na Capelinha que aparece nas janelas dando tchau de verdade, estavam lá para ver. Com Claudia Leitte é a mesma coisa no Pelourinho. Mas eu às vezes tenho a sensação de que as pessoas estão menos interessadas. Isso é cíclico. E acho que falta renovação aqui na Bahia, temos que dar mais espaços para Attooxxa, para a gente que está surgindo e que tem qualidade mesmo para poder aparecer, trazer a novidade e fazer as pessoas entenderem e escutarem mais. 

 

Sua inserção no mercado de videoclipes tem alguma relação com o documentário do Axé? 

Não. Eu já fazia clipe antes. Fiz Magary Lord lá atrás com “Tumbatá”, uma música que nem fez tanto sucesso como “Billy Jean”. Fiz o DVD dele antes. Fiz material para Saulo quando ele estava no Eva. O filme foi por uma necessidade. Eu estava com Faustão e a gente encontrou Brown e Luiz Caldas e ficamos conversando e veio essa conversa dos 30 anos do Axé. Aí Brown falava para Faustão para escrever um livro. Aí eu disse que íamos fazer um filme. 

 

Porque você acha que está tão difícil do Axé voltar aos holofotes com a sua força?

Eu acho que é renovação, é momento. A gente precisa entender os momentos para a gente. O Carnaval deu uma empobrecida, com essa questão de fechar o Carnaval aos patrocinadores a gente acabou com os blocos. Só a prefeitura vende o patrocínio. A gente não tem um bloco que pode vender de outra cervejaria, então não tem dinheiro. O abadá já não vende, só quem compra é o público gay. Então só tem as divas, com blocos de Daniela, Ivete, Claudia e Aline Rosa. Quem mais se aventura para vender pano? Ninguém vende e não tem patrocínio. Tem um ciclo vicioso ruim que precisa ser corrompido. Tem que dar oportunidade aos meninos novos, Afrocidade, Attooxxa… Botar a galera para tocar. Acho que falta isso. A gente hoje, se pega o Festival de Verão, a grande é sertaneja. E aí você fala: Que porra é essa? 

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