Opinião: Um bode entrou na Facom e a universidade montou palco para lacração
Por Fernando Duarte
Um bode entrou numa universidade. Ele não deveria estar ali, mas ainda assim estava lá. A comunidade local, ao invés de ignorá-lo, decidiu pelo confronto. Resultado: o bode, que passaria despercebido, ganhou holofotes, quando deveria ter sido, simplesmente, esquecido. A anedota é um resumo do lamentável episódio envolvendo o deputado estadual Diego Castro (PL) e a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (com perdão aos bodes pela esdrúxula comparação).
O parlamentar queria lacrar (para usar um termo bem popular entre a extrema-direita para avaliar os adversários). Conseguiu. Cortes e mais cortes para as redes sociais, o discurso de vitimismo (que ironia) e a inflamação dos críticos à universidade pública contra o "aparelhamento pela esquerda". Tudo o que aconteceu na manhã desta quinta-feira (20) foi parte de uma ação planejada que, não apenas saiu do controle, como se tornou um trunfo para convertidos. Não há amadores na política e os estudantes que reagiram a Diego Castro montaram um palco para que ele brilhasse.
A reprovável conduta do deputado é um jogo de cena. Ao escolher não apenas a Ufba como a própria Faculdade de Comunicação, ele sabia que iria "causar". Esse é um modelo replicado pelos bolsonaristas em todo o país e coube à Facom, ao invés de usar ferramentas que lhe cabiam, ser enredada por um político profissional. O amadorismo existiu e não foi por parte de Castro e de sua equipe, mas daqueles que tornaram possível o parlamentar ampliar sua visibilidade com temas que deveriam ser cotidianos - a exemplo dos banheiros masculinos e femininos para pessoas cis ou trans. A opção do confronto é importante em diversos momentos. Em outros, esse confronto só reforça teses para cidadãos menos afeitos a transformações sociais.
A desculpa de que havia propaganda irregular pró-PT foi apenas a justificativa para endossar o antipetismo de parte do eleitorado. Diego Castro quis - e conseguiu - sugerir que a universidade é um espaço excessivamente progressista e de esquerda, razão pela qual deve ser expurgada publicamente pelos pecados de quem a compõe. Sim, a universidade é um espaço de livre pensamento. Sim, a universidade é um espaço para pautas progressistas. Sim, a universidade tende a ser de esquerda pelo próprio conceito vanguardista de estar numa comunidade diversa. Qualquer coisa diferente disso é exatamente o que a extrema-direita quer: espaços sem reflexão onde o pensamento hegemônico (leia-se o dela) se sobrepõe a qualquer outro.
Além de Diego Castro, outros envolvidos surfaram na onda. Seja o estudante agredido - que iniciou a onda de afagos contra o deputado -, sejam parlamentares e políticos que, travestidos pelas autoridades conferidas pelos cargos públicos fizeram questão de dar palco para a "vítima" (não apenas o espaço universitário, mas o representante estudantil "violado" pela truculência do entorno do bolsonarista).
O episódio todo é deplorável. A atuação de Diego Castro é constrangedora para quem enxerga a política e a democracia no modelo clássico. Já o caldo entornado pela cena mostra que os adversários ainda não sabem como reagir ao bode na sala. Muitas vezes, ele é só um bode. Fede um pouco, mas basta tangê-lo para fora que tudo volta à normalidade.
