Opinião: Binho Galinha é condenado e comprova a inércia do sistema político para lidar com uma crise instalada
Por Fernando Duarte
O caso do agora condenado Binho Galinha (Avante) trouxe à Bahia um debate até então inexistente sobre a relação entre o crime e a política. O deputado estadual foi condenado a mais de 36 anos de prisão em um dos processos a que responde e, até aqui, não teve qualquer ranhura à imagem política. Oficialmente, ele segue filiado ao Avante e mantém o mandato na Assembleia Legislativa da Bahia como parte integrante da base aliada do governo Jerônimo Rodrigues.
Essa primeira sentença se refere a questões de armamentos irregulares. Porém ainda pairam sobre o parlamentar denúncias de crimes como formação de quadrilha (ou milícia, na apresentação do Ministério Público), lavagem de dinheiro e suspeitas de homicídios - há a inexplicada execução do comparsa Charutinho, logo após um habeas corpus liberá-lo da prisão. Ainda assim, são raros os políticos que falam abertamente sobre Binho e suas ações.
Após a divulgação da sentença, a AL-BA, Que quase o libertou da prisão preventiva, se posicionou institucionalmente. A presidente Ivana Bastos reforçou o papel do Conselho de Ética no processo. Em resumo, o sempre inoperante órgão interno do legislativo vai fingir que nada aconteceu e empurrar com a barriga. Afinal, nas palavras de um deputado, ali todos eram "reféns" de Binho. Formalmente, a Bahia tem uma bancada no complexo penitenciária de Salvador.
O governador Jerônimo Rodrigues tergiversou ao falar publicamente do aliado. Lembrou que caminhou ao lado do deputado nas duas últimas eleições e que agora, politicamente, Binho Galinha era um problema do Avante. Até a escrita dessa coluna, o partido não falou sobre o filiado e, ao que consta, não o excluiu da lista de candidatos a deputado a ser concluída em convenção nas próximas semanas. Há um quê de escárnio, mas também de indulgência com o fato de um homem condenado correr o risco de ser candidato estando preso.
As chances da candidatura à reeleição de Binho Galinha ser mantida tendem a rarear. No entanto, já se fala nos bastidores sobre o legado eleitoral dele que pode ser disputado "à bala" por algum sucessor. Fontes do entorno admitiram que chegou a haver a possibilidade de um familiar ser o herdeiro do espólio. Mesmo que dois deles, a esposa e o filho, sejam réus no processo que segue concluso para sentença. Em resumo, Binho pode não estar nas urnas, mas alguém dele deve estar, seja no Avante ou em outra sigla, mantendo a representação miliciana, na classificação do MP-BA, com uma cadeira no Legislativo baiano.
Enquanto tudo isso acontece, ainda ficamos impressionados como um estado paralelo vem se formando no país ao longo dos anos, um tipo de exportação que o Rio de Janeiro conseguiu emplacar. A maré já encheu faz tempo por cá. Tomara que a sociedade se dê conta antes que ela nos afogue.
