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Travelling

Davidson Pelo Mundo: Ibitipoca - quando a montanha vira destino

Por Davidson Botelho

Davidson Pelo Mundo: Ibitipoca - quando a montanha vira destino
???????Foto: Divulgação

Durante muito tempo, o turismo brasileiro pareceu ter escolhido um lado: o mar. Sol, praia, coqueiro, verão. Foi assim que vendemos o Brasil para o mundo e, em boa medida, para nós mesmos. Mas existe um outro Brasil turístico. Um Brasil de montanhas, cachoeiras, trilhas, pequenas vilas, gastronomia, frio, silêncio e experiências. Um Brasil que começa, cada vez mais, a descobrir que viajar também pode ser uma forma de desacelerar.

 

É nesse cenário que surge Conceição de Ibitipoca. Encravada na Serra de Ibitipoca, em Minas Gerais, a pequena vila vem ganhando projeção justamente por aquilo que muitos destinos turísticos tentam construir artificialmente: identidade. E Ibitipoca tem identidade de sobra.

 

O Parque Estadual do Ibitipoca, localizado na Serra da Mantiqueira, possui cerca de 1.488 hectares e reúne mirantes, grutas, cachoeiras, piscinas naturais, trilhas e paisagens de montanha. 

 

Mas talvez a maior riqueza de Ibitipoca esteja justamente fora das atrações que aparecem nos cartões-postais. Está na experiência.

 

Na caminhada sem pressa. No café depois da trilha. Na pousada pequena. Na conversa na praça. Na gastronomia mineira. No friozinho da noite. Na sensação de estar em um lugar que ainda não foi completamente tomado pela pressa do turismo de massa.

 

E isso tem valor, muito valor. Não por acaso, Conceição de Ibitipoca foi escolhida, em 2026, entre as sete vilas brasileiras que representaram o país na disputa pelo reconhecimento de Melhores Vilas Turísticas da ONU Turismo. O programa avalia características como patrimônio cultural, sustentabilidade, preservação e qualidade da experiência turística. É uma distinção importante, porque aponta para uma mudança no comportamento do viajante.

 

O turista contemporâneo não quer necessariamente apenas chegar a um lugar. Ele quer sentir o lugar. E talvez seja essa a grande oportunidade do turismo de montanha brasileiro.

 


Foto: Divulgação

 

Ibitipoca mostra que não é preciso construir um destino artificial para transformá-lo em produto turístico. É possível fazer o contrário: preservar a identidade, organizar a oferta, qualificar os serviços, melhorar a infraestrutura e permitir que o visitante descubra aquilo que já existe.

 

O desafio está justamente aí. Como crescer sem destruir aquilo que fez o destino crescer? Como receber mais turistas sem transformar a vila em mais uma vítima do próprio sucesso? Como gerar emprego e renda para a população local sem descaracterizar sua cultura?

 

São perguntas que Ibitipoca terá de responder e que deveriam estar na agenda de muitos outros destinos brasileiros, porque o Brasil possui uma enorme geografia de montanhas ainda subaproveitada pelo turismo.

 

E aqui faço uma provocação especialmente para nós, baianos: a Bahia é mundialmente conhecida por suas praias, pelo Carnaval, pela cultura, pela gastronomia e pelo patrimônio histórico. Mas também temos montanhas, serras, vales, cachoeiras, pequenas cidades e experiências que poderiam compor uma poderosa oferta de turismo de natureza e de montanha.

 


Foto: Divulgação

 

Piatã, Mucugê, Rio de Contas, Morro do Chapéu e tantos outros destinos mostram que existe uma Bahia muito além do litoral. Talvez esteja na hora de olharmos para cima.

 

Ibitipoca não precisa ser copiada, precisa ser observada. Porque ela mostra que, no turismo do futuro, o tamanho do destino pode ser menos importante do que o tamanho da experiência. E talvez a próxima grande fronteira do turismo brasileiro não esteja em construir novos destinos, mas em descobrir os que já existem.

 

Às vezes, para encontrar um novo destino, basta olhar para uma velha montanha com novos olhos.

 

Boa viagem!