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Davidson Pelo Mundo: Turismo não é apenas receber, é também viajar

Por Davidson Botelho

Davidson Pelo Mundo: Turismo não é apenas receber, é também viajar
Foto: Pixabay

Existe uma maneira muito tradicional de enxergar o turismo: é a lógica do destino. Precisamos trazer mais turistas para o Brasil, para a Bahia, para Salvador, e não há absolutamente nada de errado nisso. Muito pelo contrário.

 

Atrair visitantes significa movimentar hotéis, restaurantes, bares, transportes, equipamentos turísticos, comércio, cultura e entretenimento. Significa gerar empregos, renda, investimentos e arrecadação. O turismo é uma das maiores atividades econômicas do mundo justamente porque sua cadeia é extensa e pulverizada.

 

É natural, portanto, que secretarias municipais e estaduais de Turismo, o Ministério do Turismo e a Embratur concentrem boa parte de seus esforços em promover seus destinos e trazer visitantes. Mas existe uma outra face dessa equação que ainda recebe pouca atenção.

 

Turismo também é sair, e talvez esteja na hora de começarmos a falar mais seriamente sobre o chamado turismo emissivo. Quando um baiano compra uma viagem para a Europa, uma família de Salvador passa férias no Nordeste, um casal viaja para Dubai ou um grupo de amigos embarca para Buenos Aires, existe toda uma cadeia econômica sendo movimentada antes mesmo de essas pessoas chegarem ao destino.

 

Há agências de viagens, operadoras, consolidadoras, empresas de câmbio, seguros, transportadoras, serviços de atendimento, profissionais especializados, companhias aéreas, aeroportos e uma enorme quantidade de serviços associados à viagem. Ou seja: o turista que sai também produz atividade econômica e, muitas vezes, um pacote vendido deixa mais impostos do que receber uma família por sete dias em nossa cidade.

 

E existe ainda uma questão estratégica: uma cidade que incentiva seus moradores a viajar não está necessariamente “perdendo turistas”; está formando cidadãos mais conectados com o mundo. Afinal, viajar é uma forma extraordinária de educação. Eu sempre disse que “viajar é um MBA de educação e civilidade em aulas práticas”.

 

Quem conhece outros países, outras cidades, outras culturas, outras formas de organização social e outras maneiras de viver começa a perceber que aquilo que parece absolutamente normal em sua própria sociedade é apenas uma das muitas possibilidades existentes no mundo.

 

O trânsito muda, a relação com o espaço público muda, a percepção sobre limpeza, pontualidade, organização, segurança e convivência muda. A pessoa começa a comparar, e comparar é uma das melhores formas de aprender.

 

Não estou dizendo que quem viaja necessariamente se torna uma pessoa melhor. Seria uma simplificação. Mas existe evidência acadêmica de que experiências de viagem, especialmente aquelas que proporcionam contato real com outras culturas, podem ampliar perspectivas sobre diversidade, interdependência global, abertura a novas experiências e desenvolvimento pessoal. E isso tem uma consequência social que merece ser discutida.

 

Uma sociedade que viaja é uma sociedade que conhece outras possibilidades. Conhecer o outro reduz algumas certezas, diminui preconceitos, mostra que existem diferentes maneiras de educar filhos, administrar cidades, utilizar o espaço público, trabalhar, consumir, respeitar o próximo e conviver.

 

O turismo, nesse sentido, não é apenas uma atividade econômica; é também uma ferramenta de educação informal. É uma universidade sem sala de aula.

 

É claro que viajar não transforma automaticamente ninguém. O simples ato de embarcar em um avião não produz civilidade. Mas a experiência de contato intercultural, quando existe abertura para observar e aprender, pode produzir mudanças importantes de percepção e comportamento. Pesquisas recentes, inclusive, vêm relacionando as interações entre turistas, moradores e prestadores de serviços ao desenvolvimento de comportamentos mais tolerantes.

 

Por isso, talvez precisemos ampliar a pergunta que fazemos quando discutimos políticas públicas de turismo. Em vez de perguntar somente: “Como podemos trazer mais turistas para cá?”, deveríamos também perguntar: “Como podemos fazer com que mais pessoas daqui tenham condições de viajar?” E não se trata apenas de viagens internacionais.

 

O próprio Ministério do Turismo estabeleceu, no Plano Nacional de Turismo 2024–2027, a meta de elevar de 93 milhões para 150 milhões o número de viagens de brasileiros dentro do país. O governo criou, inclusive, uma Câmara Temática de Desenvolvimento do Turismo Doméstico para discutir políticas específicas para estimular esse mercado.

 

Isso demonstra que a visão está começando a mudar, mas precisamos ir além. Precisamos enxergar o turismo como uma via de mão dupla. Existe o turismo receptivo e existe o turismo emissivo; existe o turista que chega e movimenta a nossa economia, e existe o nosso cidadão que sai, movimenta uma enorme cadeia econômica e volta trazendo conhecimento, experiências e novas referências.

 

Imagine se, paralelamente ao trabalho de captação de turistas, tivéssemos uma política igualmente vigorosa para estimular o baiano a conhecer o Brasil e o mundo: programas de educação para viagens, incentivo ao turismo doméstico, parcerias com empresas aéreas, facilitação de acesso ao turismo com linhas de financiamento com taxas especiais, campanhas mostrando que viajar não é apenas luxo, mas também conhecimento e, principalmente, uma mudança cultural: “viajar como investimento pessoal e social”.

 

Porque há uma ironia interessante nessa história. Nós, profissionais do turismo, passamos boa parte do tempo tentando convencer o mundo a vir conhecer a Bahia. Talvez também precisemos convencer os baianos a sair da Bahia, não porque a Bahia seja insuficiente, mas justamente porque quem conhece o mundo costuma voltar para casa enxergando sua própria terra de maneira diferente.

 

E talvez essa seja uma das maiores riquezas que o turismo pode produzir. O turista que chega deixa dinheiro; o turista que sai leva dinheiro, mas pode trazer algo muito mais valioso: experiência, conhecimento, comparação e visão de mundo. No fim das contas, uma política de turismo verdadeiramente completa deveria cuidar das duas pontas.

 

Trazer o mundo para nós e permitir que nós também conheçamos o mundo, porque turismo não é apenas receber pessoas. Turismo é movimento, e sociedades que se movimentam, conhecem, comparam e tendem a ser sociedades que aprendem.

 

Boa viagem!