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Davidson Pelo Mundo: Os influenciadores que não sabem que influenciam

Por Davidson Botelho

Davidson Pelo Mundo: Os influenciadores que não sabem que influenciam
Foto: Divulgação

Vivemos a era dos influenciadores. Eles têm milhões de seguidores, produzem vídeos diariamente, recomendam hotéis, restaurantes, praias, cidades e experiências. Alguns são excelentes, outros nem tanto, mas existe uma categoria de influenciador que me interessa muito mais. São aqueles que não estão tentando influenciar ninguém, não fazem publicidade, não recebem cachê de secretarias de turismo, não têm cupom de desconto, não precisam marcar a cidade nas redes sociais.

 

São escritores, artistas, cientistas, religiosos, chefs, empresas, museus e instituições que, ao contar uma história, acabam despertando em alguém a vontade de conhecer um lugar. Eu os chamaria de influenciadores de legado. Ou, se preferirmos um nome mais provocativo, os influenciadores raiz do turismo.

 

 

Recentemente, estive em Genebra, na Suíça, e visitei o Museu Internacional da Cruz Vermelha. Em meio à história humanitária mundial, encontrei uma referência a Salvador, e aquilo me chamou a atenção. Eu estava diante de uma cidade que, naquele momento, não aparecia como destino turístico, mas como referência em uma experiência de saúde pública e saneamento, e isso me fez pensar: quantas pessoas, ao redor do mundo, descobrem uma cidade dessa maneira?

 

Não por uma propaganda turística, mas por uma história que despertou sua curiosidade? Essa é uma das formas mais poderosas de promoção de um destino, aquela que acontece sem que o destino esteja necessariamente tentando se promover.

 

Salvador tem outro exemplo extraordinário, Anthony Bourdain. Chef, escritor, viajante e apresentador de televisão, Bourdain percorreu o mundo contando histórias através da comida e das pessoas. Quando chegou à Bahia, não fez simplesmente um roteiro turístico, ele mergulhou na cultura, na comida, na música, na religiosidade e, principalmente, nas pessoas.

 

Seu olhar sobre Salvador foi tão poderoso que a cidade passou a ocupar um lugar especial na narrativa internacional de viagens. Em World Travel: An Irreverent Guide, Salvador aparece entre os destinos retratados por Bourdain, que exaltou a culinária baiana e recomendou que as pessoas conhecessem a cidade.

 

Isso é influência, mas é uma influência diferente. Bourdain não estava simplesmente dizendo: “Vá a Salvador”; ele estava dizendo, através de suas histórias: “Olhe para esse lugar; existe alguma coisa aqui que você precisa conhecer.” E isso é muito mais poderoso.

 

Em Clermont-Ferrand, na França, cidade onde nasceu a Michelin, encontrei outra dessas histórias. No universo da Michelin, uma empresa produtora de pneus que se tornou sinônimo de gastronomia, restaurantes e viagens, a Bahia também aparece de uma maneira inesperada, através das plantações de seringueiras no sul do estado.

 

A Michelin mantém uma reserva ecológica na região de Igrapiúna e Ituberá, com milhares de hectares de Mata Atlântica e seringueiras. O espaço reúne conservação, pesquisa, educação ambiental e ecoturismo. Imagine o efeito disso sobre um francês que visita o universo Michelin: de repente, a Bahia deixa de ser apenas Carnaval, praia, axé e acarajé e passa a ser também floresta, biodiversidade, pesquisa, sustentabilidade, seringueira e história empresarial. No museu, que é grandioso, tem um capítulo especial sobre a qualidade do látex produzido na Bahia, sobre seu laboratório de pesquisas e sobre a biodiversidade. Isso é um prato cheio de motivações para os turistas que gostam de natureza e viajam para ver isso.

 

Outro exemplo está na Polônia. Em Wadowice, cidade onde nasceu Karol Wojty?a, o Papa João Paulo II, visitei o museu dedicado à sua vida, na casa de seus pais, onde ele nasceu. João Paulo II foi um dos grandes viajantes do século XX. Seu pontificado foi marcado por inúmeras viagens internacionais e por uma capacidade extraordinária de estabelecer conexões entre povos, culturas e lugares, e Salvador também aparece nessa história.

 

Ele esteve na Bahia, conheceu Irmã Dulce e celebrou uma missa em Salvador. Hoje, essa ligação também faz parte da memória que aproxima a cidade de um dos personagens religiosos mais conhecidos do mundo. Para quem trabalha com turismo religioso, isso tem um valor enorme. No museu, que era sua casa, tem um espaço dedicado à sua visita a Salvador, falando sobre o povo, o carisma e, principalmente, sobre Irmã Dulce. Isso é um conteúdo turístico, isso pode influenciar pessoas, porque uma pessoa pode não ter nenhuma intenção de conhecer Salvador até descobrir que o Papa João Paulo II esteve lá, que conheceu Irmã Dulce, que hoje é a única santa brasileira, ou que aquele lugar faz parte da história de uma figura que ela admirava.

 

Do nada, nasceu uma motivação para viajar, e é aí que percebo que o turismo precisa olhar muito além do marketing tradicional. Uma cidade pode gastar milhões para dizer ao mundo que é maravilhosa, mas pode existir uma única história, contada por uma pessoa respeitada, que desperte uma curiosidade muito maior. Um livro pode fazer isso, um filme pode fazer isso, um museu pode fazer isso, uma obra de arte pode fazer isso, uma personalidade pode fazer isso, uma empresa pode fazer isso, uma descoberta científica pode fazer isso, até um programa de saneamento pode fazer isso, e talvez esse seja um dos maiores patrimônios turísticos de uma cidade: a quantidade de vezes que ela aparece positivamente na história de outras pessoas.

 

Salvador tem uma enorme vantagem nesse campo. Ela já foi capital do Brasil, é patrimônio histórico, cultural e religioso, é uma das grandes referências da cultura afro-brasileira, tem uma gastronomia reconhecida internacionalmente, tem personagens como Irmã Dulce, Jorge Amado, Dorival Caymmi e tantos outros que ajudaram a construir uma imagem da Bahia muito além das suas fronteiras.

 

O problema é que nem sempre sabemos transformar esse patrimônio de reputação em estratégia turística. Talvez esteja na hora de mapear esses “influenciadores invisíveis”.

 

Quais livros importantes citam Salvador? Quais filmes foram rodados aqui? Quais personalidades internacionais visitaram a cidade? Quais museus do mundo contam alguma história relacionada à Bahia? Quais universidades estudam experiências desenvolvidas aqui?

 

Quais empresas internacionais possuem projetos no estado? Quantas vezes Salvador aparece em documentários, obras literárias, exposições e pesquisas? Isso poderia formar um verdadeiro mapa mundial de influência de Salvador e, ao contrário de uma campanha publicitária tradicional, boa parte desse conteúdo já existe.

 

Não precisa ser inventado, precisa ser encontrado, organizado e contado. Porque talvez o próximo turista de Salvador não seja convencido por um anúncio. Talvez ele encontre Salvador em um livro, em um museu, em uma exposição, em uma aula, em um documentário, em uma história de família ou na fala de alguém que esteve aqui e voltou para casa apaixonado pelo que viu.

 

Esse é o influenciador que eu gosto, que não precisa dizer “viaje para Salvador”. Basta contar uma boa história sobre Salvador, porque algumas das melhores propagandas de um destino são aquelas que nunca foram feitas para serem propaganda.

 

Boa viagem!