Davidson Pelo Mundo: O corredor não viaja apenas para correr, ele corre para viajar
Dando seguimento à minha coluna da semana passada, vou continuar na linha do Turismo de Nicho. Esse segmento do turismo revela um crescimento fora da curva e demonstra a inteligência e o planejamento das cidades para o turismo.
A corrida de rua deixou de ser simplesmente uma atividade esportiva e passou a funcionar como produto turístico. O corredor escolhe uma prova em outra cidade, viaja, leva acompanhante ou família, dorme em hotel, come em restaurante, utiliza transporte, compra produtos e, muitas vezes, aproveita para conhecer o destino. E há uma característica particularmente interessante: a corrida consegue transformar baixa temporada em oportunidade turística.
Imagine uma cidade litorânea, histórica ou de montanha. Em determinado fim de semana, ela pode receber milhares de pessoas não por causa de um feriado, mas por causa de uma meia maratona. Os números brasileiros são impressionantes: em 2023, foram identificadas 2.186 corridas no Brasil. Em 2024, 2.827, crescimento de 29%, e o levantamento mais recente aponta que 2025 terminou com crescimento de 85% no número de provas em relação ao ano anterior.
São Paulo liderou 2025, com 1.311 provas, seguida pelo Paraná, com 645, e por Santa Catarina, com 478. Isso significa que estamos diante de uma verdadeira indústria de eventos esportivos itinerantes.
Se temos 14 milhões de corredores e milhares de provas, por que o turismo brasileiro ainda não trata a corrida de rua como um produto turístico estratégico?
Valência, na Espanha, é um ótimo case. O Meio e o Maratón Valencia de 2025 movimentaram € 69 milhões, sendo € 59 milhões provenientes diretamente do turismo esportivo. Cerca de 65,5% dos participantes da maratona eram estrangeiros. O evento gerou impacto em hotelaria, comércio e outros serviços e aproximadamente € 20 milhões em impacto fiscal. Isso é turismo na veia.
E existe outro exemplo interessante: a Sydney Marathon, que entrou no circuito Abbott World Marathon Majors, projetou A$ 300 milhões em turismo para New South Wales ao longo de uma década. Ou seja, algumas cidades já entenderam que uma maratona pode ser tão estratégica para o turismo quanto um festival, um congresso ou um grande show. E existe uma segunda dimensão: saúde.
O crescimento das corridas representa também uma mudança cultural. As pessoas estão viajando por uma experiência que, ao mesmo tempo, promove atividade física, socialização e bem-estar. A corrida virou uma espécie de “turismo ativo”, e isso permite criar uma categoria muito interessante: turismo + esporte + saúde + experiência + gastronomia.
O corredor termina a prova e vai tomar café, almoçar, conhecer uma cervejaria, visitar um museu, fazer um passeio, ficar mais uma noite. Portanto, o gasto do corredor não termina na linha de chegada.

Foto: Divulgação
Não basta fechar uma avenida às 6h da manhã e colocar um pórtico.
Uma boa corrida poderia ter:
• Percurso que passe pelos principais cartões-postais;
• Parceria com hotéis;
• Restaurantes oferecendo menus para corredores;
• Programação para acompanhantes;
• Experiências culturais;
• Transfer aeroporto/hotel/prova;
• Pacote de fim de semana;
• Gastronomia regional;
• Feira esportiva;
• Programação pós-prova;
• Incentivo para o corredor permanecer mais um ou dois dias.
A corrida passa a ser porta de entrada para o destino. Há até uma dimensão de marketing turístico interessante. Um estudo de 2026, que analisou 311 percursos de maratonas em cinco continentes, encontrou uma concentração muito maior de atrações e equipamentos turísticos próximos aos trajetos das provas.
Ou seja, a própria rota da corrida pode funcionar como uma vitrine turística da cidade.
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Foto: Divulgação
O turismo tradicional não é mais a mola propulsora dessa indústria. Se não houver planejamento, criatividade, organização e compreensão das mudanças do mundo, destinos outrora lotados de turistas ficarão como segunda opção, não irão atrair os novos consumidores e ficarão, literalmente, para trás.
Boa corrida e boa viagem!
