Davidson pelo Mundo: Turismo se constrói com dados, não com discursos!
“Tal cidade vai receber 5 milhões de turistas no Carnaval”, “o destino tal é o mais procurado neste verão”. Certamente, você que está lendo esta coluna agora já leu muitas manchetes parecidas com essas. A guerra da propaganda e do marketing usando o turismo acontece por todas as partes, e o tema turismo é sempre bom nessa hora.
O turismo é uma atividade econômica sofisticada: envolve planejamento urbano, infraestrutura, qualificação de serviços, investimentos privados, políticas públicas e, sobretudo, tomada de decisão baseada em dados. Ainda assim, em muitos destinos, o setor insiste em caminhar no escuro, guiado mais por narrativas otimistas do que por números reais e estatísticas técnicas. E não por números pinçados e colocados milimetricamente a favor. Estatísticas bem trabalhadas e orientadas de acordo com interesses podem gerar informações aparentemente favoráveis, mas não espelham a realidade na íntegra.
Dados estatísticos confiáveis não são um detalhe técnico; são a base de qualquer estratégia séria de desenvolvimento turístico. É a partir deles que se define se uma cidade precisa de mais leitos ou de melhor ocupação dos que já existem; se o problema está no acesso, na permanência do turista ou no ticket médio; e se vale investir em eventos, promoção, infraestrutura ou qualificação profissional.
O problema começa quando os números deixam de cumprir sua função técnica e passam a ser instrumentos políticos. Superestima-se o número de turistas, infla-se a taxa de ocupação hoteleira, romantiza-se a diária média e cria-se a ilusão de que “o turismo vai muito bem”. No curto prazo, isso pode render manchetes positivas. No médio e longo prazos, gera distorções graves.
Quando os dados não refletem a realidade, empresários investem mal, hotéis ampliam sua capacidade acreditando em uma demanda que não se sustenta, restaurantes se preparam para um fluxo que não chega. Operadores e guias enfrentam sazonalidades ainda mais duras, porque o planejamento público foi feito sobre números irreais, e o resultado é frustração, endividamento e desconfiança no próprio mercado.
Além disso, estatísticas infladas criam um falso conforto para o poder público. Se os números “mostram” crescimento, por que investir em saneamento, mobilidade, segurança, ordenamento das praias ou qualificação da mão de obra? A ausência de dados fidedignos mascara problemas estruturais e adia soluções urgentes.
Outro efeito perverso é a perda de credibilidade do destino. Investidores, redes hoteleiras, companhias aéreas e grandes operadores trabalham com inteligência de mercado. Quando percebem que os dados oficiais não batem com a realidade operacional, simplesmente deixam de considerar aquele destino em seus planos de expansão.
Turismo não se desenvolve com euforia estatística. Desenvolve-se com diagnóstico honesto, mesmo quando os números não são os desejados. Saber exatamente quantos turistas chegam, quanto tempo ficam, quanto gastam, onde consomem, a origem de cada um e em que períodos é o que permite criar políticas públicas eficazes, reduzir a sazonalidade, melhorar a experiência do visitante e aumentar a rentabilidade de quem vive do setor.
Valorizar dados reais não é ser pessimista, é ser responsável. É entender que o turismo sustentável tem um papel importante na economia, no social e no meio ambiente, e isso só é possível quando a informação é tratada como ferramenta de gestão, e não como peça de marketing político.
Enquanto insistirmos em maquiar números, continuaremos errando nas decisões. Quando passarmos a encarar a estatística com seriedade, o turismo deixará de ser promessa e passará a ser projeto. E projetos, ao contrário de discursos, precisam de base sólida para se sustentar.
Boa viagem!
