Davidson Pelo Mundo: Agente de viagens x influencer
Novos tempos, novos hábitos, novos roteiros e novos atores. Assim é a vida, e assim ela se comporta. Para uns, o mundo era dividido em duas etapas: AC – Antes de Cristo, e DC – Depois de Cristo. No novo mundo, eu diria que atualizamos para ARS – Antes das Redes Sociais, e DRS – Depois das Redes Sociais.
É inegável a mudança de comportamento de forma globalizada e muito rápida, depois do celular e de tudo que veio a reboque dentro desse "brinquedinho", tornando-o um prolongamento do corpo, mente e objeto indispensável para qualquer ser humano, independentemente da sua condição econômica, social, cultural, raça e localização geográfica.
A reboque, acontecem inúmeras mudanças que são comuns, algumas exageradas e muitas até desnecessárias, mas fazem parte do jogo. As profissões não ficariam à margem dessas mudanças; umas desapareceram, outras se adaptaram e até surgiram novos protagonistas.
Aí surgiu o Digital Influencer, aquela pessoa que consegue induzir e motivar pessoas do outro lado da telinha do celular a consumirem produtos, serviços, mudarem comportamentos, acordarem para a vida ou até cometerem suicídio. Os D.I.s estão em todas as áreas: moda, gastronomia, nutrição, bem-estar, esporte, qualidade de vida, coaching e também nas viagens.
O turismo já vinha sofrendo mudanças radicais no seu formato de comercialização, passando para o mundo digital a compra de passagens aéreas, aluguel de carros, reserva de hotéis, compra de ingressos, reserva de restaurantes e atrações, etc. O agente de viagens tradicional demorou a acordar e perceber essas mudanças, e assim muitas agências fecharam as portas nos últimos anos, e a oferta de cursos de turismo nas faculdades reduziu em cerca de 80%.
O Sr. Google também ajudou muito nesse movimento; os viajantes se arriscam mais nas viagens solo e, apesar de baterem a cabeça, gastarem mais muitas vezes e usufruírem menos, assim é a tendência de consumo. Os D.I.s diferem dos tradicionais agentes de viagens, pois eles passam experiências vividas, na maioria das vezes, ao contrário de muitos agentes de viagens que, apesar de serem muito mais técnicos, acabam vivendo pouco as experiências dos destinos, até porque não dispõem de tanto tempo para viajar, mesmo o setor oferecendo oportunidades e vantagens para esse tipo de capacitação.
São raros os D.I.s que têm o conhecimento técnico e a capacidade de passar informações sobre documentação para viagens internacionais, legislação alfandegária, dicas de como economizar, soluções em caso de atraso ou cancelamento de voos, problemas de saúde ou legais fora do seu país. Geralmente, o foco do D.I. de turismo são locais "instagramáveis", dicas de restaurantes, baladas, onde comer e se divertir, com pouco conteúdo cultural e muitas opções de compras.
Eu costumo dizer que, em uma viagem montada por um D.I. de viagens, a pessoa passa pelo destino, enquanto que, em um roteiro montado por um bom agente de viagens, as pessoas conhecem o local. Isso faz toda a diferença em se tratando de viagens, sonhos, planejamento, orçamento e realizações. Lógico que existem D.I.s capacitados, inclusive alguns que já foram ou até hoje são profissionais do turismo, mas isso não é regra.
Não existe mais clínica médica no turismo, o generalista. Quem deseja sobreviver no turismo precisa ser um especialista, segmentar sua empresa e focar naquela proposta, seja ela qual for. As viagens de lazer só aumentam em todo o mundo, principalmente pós-pandemia; o ser humano descobriu que a vida é curta e viajar é uma das tarefas às quais viemos desempenhar. Os jovens não juntam mais dinheiro para trocar de carro, juntam grana para viajar, conhecer novas culturas e se transformarem cidadãos do mundo.
Os D.I.s, se quiserem progredir mais nessa atividade, precisam se capacitar mais tecnicamente sobre as particularidades de tudo que engloba o turismo e as viagens. Precisam trazer essa bagagem do agente de viagens, e estes precisam passar o desejo de consumo de viagens de uma forma mais ousada, como fazem os D.I.s. Precisam encantar mais, investir mais em conteúdo que faça as pessoas saírem da zona de conforto e optarem por viajar ao invés de comprar ou presentear uma joia, por exemplo.
Os caminhos de ambos estão traçados, mas os roteiros podem ser adaptados. Cada um pode melhorar naquilo que for possível e, assim, elevar mais ainda o patamar do consumo de viagens em todo o mundo. Mas tomem cuidado: se algo der errado em uma viagem elaborada por uma agência de viagens, o cliente tem a quem recorrer ou até buscar uma indenização. Isso dificilmente será possível caso sua viagem seja elaborada com base no que um D.I. esteja te estimulando. Esse mundo é 100% virtual e cada um deve, além de tudo, buscar informações sobre a credibilidade de quem está passando as mensagens, te seduzindo para consumir algo.
Vamos viajar!
