Davidson Pelo Mundo: A difícil vida da aviação regional no Brasil
A aviação comercial brasileira, em seus primórdios, operava apenas voos regionais, ou seja, dentro dos territórios dos estados. Para se ter uma ideia, as primeiras companhias aéreas no país nasceram em 1927, com a Viação Aérea Rio-Grandense (Varig) e o Sindicato Condor, que viria a se tornar a Cruzeiro do Sul.
Num país com dimensões continentais, com escassez de estradas e ferrovias, o transporte aéreo é mais do que uma atividade econômica; é estratégico para o desenvolvimento do país.

O potencial de expansão dessa atividade, entretanto, conflita com um panorama de empresas em crescente e profunda crise financeira no Brasil, como aponta o economista José Roberto Afonso, professor do IDP, em artigo na Conjuntura Econômica. Parte desse quadro foi evidenciada recentemente em levantamento do jornal O Estado de S. Paulo sobre a aviação regional brasileira, que mostrou a perda de quase 30 companhias desse segmento desde 2000, deixando uma demanda parcialmente descoberta. Essa conclusão é tirada diante da queda da participação da aviação regional no total de passageiros transportados: de 7,57% do mercado doméstico em 2000 para 4,8% em 2023. A tendência de concentração de mercado tampouco leva a perspectivas de uma oferta ampla a preços adequados.
A aviação brasileira é muito mais que um meio de transporte. Seus benefícios vão muito além de ações diretas como transporte de passageiros e cargas, avançando na construção de relações turísticas e comerciais. A aviação no Brasil é geradora de integração entre territórios e desenvolvimento econômico e social.
A aviação regional é essencial para a integração do território brasileiro, principalmente quando se trata de regiões remotas ou que só podem ser alcançadas por avião.
O Brasil registra 0,5 viagens por pessoa, número muito baixo em comparação aos apresentados nos Estados Unidos (2,6), Espanha (4,5) ou Chile (1,2), o que indica um enorme potencial de crescimento, principalmente se considerarmos o tamanho da população brasileira, sua economia e a dimensão territorial do país.
A participação do transporte aéreo na economia brasileira tem crescido, em grande parte devido à simplificação e modernização das regulamentações do setor, bem como à criação da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Mesmo assim, a aviação representa apenas 18% dos meios de transporte no país.
Dos 5.500 municípios brasileiros, apenas cerca de 130 são cobertos por rotas de aviação comercial. De acordo com a ANAC, de janeiro a agosto de 2022, 53 milhões de passageiros de voos domésticos e 1,4 milhão de passageiros em voos internacionais utilizaram 213 aeroportos brasileiros em voos regulares. Trata-se de um crescimento de 49% nos voos domésticos e de 355% nos internacionais, quando comparados ao mesmo período do ano anterior.
O setor de aviação emprega mais de 140 mil trabalhadores no Brasil, 90% deles com idade entre 25 e 64 anos. Quarenta e sete por cento deles têm nível superior e 50% ensino médio completo. Olhando para a maioria das pessoas que trabalham no setor de aviação, vemos que 72% são homens e 28% são mulheres.
As despesas operacionais das companhias aéreas brasileiras são divididas em duas categorias. A primeira, paga em dólares (USD), representa 51% do custo total e é a mais difícil de prever, pois depende da flutuação dos valores de câmbio. A segunda categoria (49%) é paga em reais (R$) e, portanto, muito mais fácil de administrar. O maior fator que contribui para a ineficiência financeira das companhias aéreas brasileiras é o preço do Querosene de Aviação (QAV), que é 30 a 40% mais caro do que em países como os Estados Unidos.
Dito tudo isso, acrescento que a solução passa por um entendimento complexo e uma vontade política enorme para chegar a uma solução. De concreto, temos a certeza da importância da aviação regional para o desenvolvimento do turismo e da economia brasileira como um todo.
As cartas estão à mesa; que nossos políticos saibam distribuí-las da melhor forma que beneficie a nossa sociedade.
Davidson Botelho
