Davidson pelo Mundo: Do esquecimento do passado, ao abandono do presente, até a incerteza do amanhã
Inicio a minha coluna esclarecendo que a frase que a intitula não é uma verdade absoluta, mas quando se trata do Brasil, podemos considerá-la.
As cidades são divididas em bairros ou zonas comerciais e habitacionais. Geralmente, os centros são regiões mais antigas e abrigam parte do comércio e da história dessas cidades, sem necessariamente estarem localizados no centro geográfico. O nome "centro" remete muitas vezes ao ponto inicial ou ao marco zero daquela cidade. Dali, expandiu-se em camadas e nasceram novos bairros.
Os centros carregam muita história e, infelizmente, muito abandono, o que por sua vez traz a miséria e a violência. Para o turismo, e principalmente o internacional, os centros são de extrema importância, servindo de referência para deslocamentos e conteúdo do destino. Nas grandes cidades da Europa, Estados Unidos, etc., os melhores e mais caros hotéis estão no centro. Ali, as cidades vibram economicamente e turisticamente, falando.
No entanto, infelizmente, os centros das metrópoles brasileiras vivem os seus piores momentos desde a época do império. Nota-se um completo abandono de empresas, moradias e vida noturna, restando apenas o descaso, um depósito de seres humanos ao relento, e o resultado não poderia ser outro: violência e abandono.
E de quem é a culpa? Quando o assunto é culpabilidade, torna-se tão extenso e complexo que eu prefiro colocar energia nas soluções. Os centros precisam ter vida 24 horas. Ali precisa haver um mix de residências, negócios, poder público e lazer. Os governantes precisam criar políticas agressivas para atrair investimentos comerciais e, paralelamente, criar conteúdo e infraestrutura.
No último final de semana, fui ao Rio de Janeiro, cidade maravilhosa (Leblon e Ipanema, uma bolha). Como de costume, gosto de frequentar o centro e para lá eu fui. Museu do Amanhã, MAR (Museu de Arte do Rio), investimentos grandiosos, VLT funcionando muito bem, mas a sensação era de uma cidade fantasma, centenas de moradores de rua acampados, policiamento ridículo e é claro: violência à solta. Fiquei a pensar no que aqueles poucos turistas faziam ali, inclusive eu, e não achei outra resposta que não fosse ENGANO e IRRESPONSABILIDADE das autoridades.
Os grandes eventos acontecem na orla de Copacabana, assim como em Salvador, onde 90% dos eventos são realizados no Farol da Barra. Isso mata o comércio do centro e tira a oportunidade de ganho do já frágil setor no centro. O Iphan dificulta as ações no centro, alegando risco ao patrimônio histórico. No entanto, o maior risco é justamente o abandono, exatamente como estamos hoje, com centenas de imóveis prestes a desabar por falta de uso e consequente manutenção. Lembro ao Iphan que o desprezo mata mais do que a intensidade.
Os centros precisam ter estacionamento e uma rede de transporte circulando na região, assim como existe o VLT no Rio e os bolsões de estacionamento ao redor. Precisam pulsar de alegria e não de medo ou estresse, precisam ter um calendário de lazer e não de artistas com pouca expressão, contratados muito mais para atender interesses políticos ou para passar uma imagem de apoio à cultura que de fato não existe.
Não me refiro aos megaeventos, até porque a infraestrutura não comporta, mas os centros podem ter um calendário de médio porte aliado à cultura, boa gastronomia, história e assim serem de fato um atrativo em qualquer grande metrópole brasileira.
Os centros não podem ser pensados como depósitos de gente ou de empresas de fachada. Ali precisa haver vida própria, sendo de fato o grande destino turístico de cada cidade.
Tem uma frase que representa bem esse meu sentimento. “Me diga com quem tu andas e eu direi quem tu és”. Aí eu complemento: conheça o centro de uma cidade e saberás qual a importância da história, cultura e turismo para os seus governantes!