Entre fios, histórias e escuta, iniciativa em Salvador usa tranças para fortalecer identidade e autoestima de mulheres pretas
Por Nathalí Brasileiro
Antes de qualquer finalização no espelho, o processo começa na conversa. No bairro de Cajazeiras, em Salvador, o NC Trança das Pretas, comandado pelas sócias Núbia e Cleide Luz, desenvolve há mais de 20 anos um trabalho que conecta a arte ancestral das tranças à valorização da identidade e da estética afro-brasileira.
Fundado com foco na autoestima, especialmente de mulheres pretas, o NC Trança das Pretas se consolidou como um espaço onde a estética dialoga diretamente com a cultura afrodescendente.
Núbia explica que a essência da empresa está no significado que as tranças carregam. “Nosso foco é a autoestima, principalmente das mulheres, e a valorização da cultura afrodescendente. As tranças contam uma história de força, persistência, resistência e ousadia. A nossa trajetória acompanha esse mesmo caminho, ao falar de embelezamento e, ao mesmo tempo, de quebra de padrões em uma sociedade que ainda carrega muito preconceito com a nossa cultura”, afirmou em conversa com o BN Hall.

Ao longo dos anos, a permanência da iniciativa esteve diretamente ligada à forma como o atendimento foi construído. Segundo Núbia, o vínculo criado com quem chega ao espaço vai além da relação profissional. “O nosso diferencial está no amor, na humanidade, em se colocar no lugar do outro. Muitas vezes a gente vira apoio, vira amiga, tenta compreender o que aquela pessoa está vivendo naquele momento. Muitas chegam ao estúdio tristes, abatidas, e a gente tenta transformar esse sentimento. Como costumamos dizer, não é apenas uma trança”, contou.
Foi a partir dessas vivências que surgiu a percepção de que o trabalho ultrapassava a dimensão estética, pois, segundo Núbia, os depoimentos ouvidos no dia a dia revelavam histórias marcadas por baixa autoestima e relações abusivas, com mulheres frustradas que não conseguiam se olhar no espelho por causa da própria aparência, o que levou ao entendimento de que era necessário fazer algo para mudar essa realidade e resgatar essa identidade.

Dessa escuta nasceu o projeto Quebrando Padrões, criado em 2022, com o objetivo de ampliar a valorização da beleza e estimular o resgate de sonhos interrompidos. A iniciativa, segundo Núbia, surge diretamente das experiências compartilhadas pelas mulheres atendidas. “O Quebrando Padrões nasce desse lugar de escuta. A ideia é fortalecer o entendimento de que nós, mulheres, somos corpos reais”, afirmou. A proposta se desenvolve por meio de eventos e ações de apoio, com foco no resgate da autoestima e no reencontro com a própria identidade. Entre as iniciativas, está um workshop gratuito anual voltado a mulheres que buscam romper ciclos de violência, com foco em orientação financeira.
Ao falar sobre a trajetória, a trancista também destaca os desafios enfrentados ao longo do caminho, como a dificuldade de acesso a recursos e reconhecimento. “Criar um projeto como esse dentro de uma sociedade que não acredita nele é muito difícil. Nosso maior desafio sempre foi a falta de recursos, de credibilidade e, muitas vezes, de apoio financeiro. Ainda assim, seguimos com um trabalho baseado no amor, na persistência e na ousadia de mulheres pretas microempreendedoras que buscam ajudar outras mulheres a se valorizar e se reconhecer”, destacou.
No último dia 8, Núbia e Cleide participaram do Camarote do BN Hall durante o show JaUAfro, no Terminal Náutico. Segundo Núbia, o momento representou mais um passo importante para o projeto. “É potencializar ainda mais a força da mulher preta, entendendo que não se trata apenas da trança, mas do reconhecimento, da identificação e da valorização da nossa beleza como um todo. Lutamos por anos para conquistar esse espaço, e hoje nos sentimos realizadas por estarmos aqui, junto ao BN Hall”, afirmou.
Para o futuro, a expectativa é de continuidade e fortalecimento das ações desenvolvidas ao longo das últimas décadas. “Somos mulheres fortes e, mesmo quando o cenário parece ser o contrário, seguimos lutando. Desistir nunca foi uma opção para nós. Fomos feitas para buscar, correr atrás dos nossos objetivos e seguir até alcançar aquilo em que acreditamos”, concluiu.
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