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Sheyla Christina: Drag queen arquiteta usa internet para falar de representatividade

Por Alexandre Brochado

Sheyla Christina: Drag queen arquiteta usa internet para falar de representatividade
Fotos: Reprodução / Instagram

Durante o período mais crítico da pandemia do coronavírus, em meio ao isolamento social, o designer de interiores Fábio Marx viu as obras em que estava trabalhando pararem. Diante desse “ócio criativo”, ele decidiu que precisava fazer alguma coisa, e foi assim que nasceu a Sheyla Christina, a primeira drag queen arquiteta do Brasil. 

 

Passando uma temporada em Salvador, e turistando pela capital como Sheyla, o designer cuiabano, que mora em São Paulo, contou ao Bahia Notícias como foi o processo de criação da sua personagem.

 

 

“Eu sempre gostei de internet, sempre gostei de produção de vídeo e atuação, então resolvi começar pelo TikTok, que é uma coisa nova, e por lá fui postando uns vídeos e as pessoas foram gostando. Depois eu coloquei no Instagram, e o pessoal queria saber quem era essa personagem. Eu nem sabia que era uma personagem, só peguei a peruca de uma amiga e comecei a gravar naturalmente. Então o processo da Sheyla foi bem natural, depois que fui descobrindo ela”, explicou Fábio. 

 

Segundo o designer, a criação de Sheyla Christina não foi planejada e sim algo que foi sendo construído aos poucos. “Eu não pensei ‘vou fazer uma personagem que é de tal forma', até hoje eu descubro as facetas de Sheyla que eu não sabia, ela vai se mostrando aos poucos pra mim”.

 

Nas redes sociais Sheyla Christina ficou conhecida pelos seus vídeos engraçados, mas que abordam temas sérios também, como causas sociais e raciais. Para o produtor de conteúdo, abordar a parte social é algo que é natural, por fazer parte do seu cotidiano. 

 

 

“Tudo que eu faço na minha carreira, seja como designer de interiores, seja na parte de pesquisa, já fui professor... eu tento falar de pautas que acho importantes. A Sheyla tem esse diferencial, no sentido de ser uma drag queen arquiteta. Falar sobre essa representatividade dentro da arquitetura já foi um primeiro passo… ela já nasceu cutucando a burguesia brasileira”, disse. “O arquiteto acha que está acima de tudo, e ela já nasceu daí. Então automaticamente quando eu vou abordar outros assuntos, não consigo falar só de coisas superficiais, tento buscar um motivo, e pra mim isso é algo muito simples de acontecer”, ressalta. 

 

Como influências para seus conteúdos, Fábio cita os influenciadores negros que falam sobre questões raciais os quais ele acompanha, mas revela que as falas de Sheyla também tratam de assuntos os quais já vivenciou, ou algo que até mesmo viu de perto. 

 

A forma com que sua drag se comunica através da internet é algo diferente. Questionado sobre como surgiu a ideia de utilizar frases de impacto irônicas em seus vídeos para ressaltar críticas, o designer conta que não foi algo proposital, mas que acabou descobrindo. 

 

“Eu uso coaches como inspiração. A primeira frase que bombou foi: ‘arquitetura por amor, coach por aptidão’. Então a Sheyla é uma arquiteta coach. Tem aqueles coachs que fazem vídeos conceituais, que dizem ‘você tem que acreditar em si mesmo'. Eu via esses videos e comecei a me inspirar neles”. 

 

Atualmente, Fábio tem deixado um pouco de lado o trabalho como designer de interiores para focar na internet, mesmo gostando de trabalhar com construção cívil. Para ele, existem alguns projetos que dão para alinhar as duas áreas, porém no momento teve que escolher e decidiu optar pelo que está lhe dando maior retorno de visibilidade e financeiro, além dos lugares que está alcançando e as pessoas que está conhecendo por meio do trabalho de produtor de conteúdo: “a Sheyla está me levando a lugares que eu não imaginaria”.

 

Sobre sua temporada em Salvador, o designer fala que não é sua primeira vez na capital. Seu namorado é baiano e o trouxe à cidade no ano passado, porém, na época Fábio não se sentia confortável para sair “montado” como Sheyla. “A gente também não pode negar que vivemos em um país homofóbico, e eu tinha um certo medo, também não era tão conhecido, então não saía com uma peruca na cabeça andando pelas praias de Salvador. Mas agora tenho uma certa confiança na minha personagem e consigo sair tranquilamente”. 

 

Fábio conta que se identifica muito com a cultura da cidade e que é nítido para as pessoas como ele fica feliz quando está em solo baiano. Em Salvador, ele conheceu a cena drag local e diz ter sido muito bem recepcionado. “Não sabia que a cidade tinha uma cena drag tão forte e a partir do momento que eu tive esse contato eu conheci meninas muito talentosas”. 

 

Não poderíamos encerrar a entrevista sem saber o que a arquiteta coach das redes sociais estava achando da nossa cidade.

 

“A Sheyla adora Salvador porque tem uma arquitetura europeia, barroca e tem muita influência renascentista. Ela adora o Pelourinho e andar pelas ruas da cidade”,  diz Fábio fazendo referências ao estilo da sua personagem. “Querendo ou não, quem viveu nessas casas foi o pessoal da Europa, e eu como 'estagiário' da Sheyla fico observando que tem toda essa arquitetura europeia e que foi tudo construído por pessoas escravizadas, então até hoje existe essa dívida com a população negra. Eu ando por Salvador e vejo que a maioria das pessoas servidas nos estabelecimentos são brancas e quem está servindo é negro. É um problema que eu vejo. Salvador é a maior população preta e tem esse grande problema social… É algo que precisa mudar”, afirma.