Do coco da piaçava à joalheria, Gabriela Lisboa transforma referências da Bahia em biojoias autorais
Por Nathalí Brasileiro
Há mais de duas décadas, Gabriela Lisboa encontrou no coco da piaçava uma matéria-prima capaz de contar histórias da Bahia. O que começou ainda na adolescência, com biojoias feitas a partir de sementes e elementos encontrados nas praias, ganhou novos contornos ao longo dos anos e hoje se traduz em peças que misturam a textura natural do material a metais nobres, símbolos da religiosidade e referências do imaginário baiano. Natural de Salvador, a turismóloga e designer de joias transformou o aproveitamento do coco da piaçava em uma linguagem própria de criação.
“Encontrei nesse material uma combinação que me encanta: sua beleza natural, sua textura, sua força e, principalmente, sua conexão com o nosso território. Passei a experimentar a casca do coco em diálogo com metais nobres e descobri possibilidades estéticas muito particulares”, contou Gabriela em conversa com o BN Hall. “Mais do que utilizar um material natural, gosto da ideia de ressignificá-lo e transformá-lo em uma joia autoral, sofisticada e contemporânea, sem perder sua origem e sua essência”, destacou.

Foto: Divulgação | Reprodução / Instagram
A relação com a piaçava ganhou força durante o período em que Gabriela percorreu diferentes regiões da Bahia como consultora do Sebrae. Foi no Sul da Bahia que conheceu mais de perto a palmeira nativa da região e descobriu, na casca do seu coco, uma matéria-prima que poderia ganhar novas formas. Conhecido como “marfim vegetal”, o material chama atenção pela resistência, durabilidade e textura, características que permitem que seja trabalhado na criação de peças que atravessam o tempo.
“O que começou como uma pesquisa de material foi se transformando em uma linguagem. Hoje, a casca do coco de piaçava é uma das grandes protagonistas do meu trabalho e está profundamente ligada à identidade das minhas criações”, explicou. “Não gosto de trabalhar com materiais apenas pela beleza. Existe sempre uma busca por significado, por textura, por contraste e por uma conexão com o conceito da coleção. Essa liberdade de experimentar também faz parte do meu processo criativo. Acredito que o design autoral precisa estar em constante pesquisa e transformação”, destacou.
Com o material, Gabriela passou a desenvolver brincos, anéis, pingentes, colares, pulseiras e escapulários, combinando sua textura natural à prata e ao ouro. Entre essas criações, uma delas se tornou o carro-chefe da marca e ajudou a projetar seu trabalho para outros territórios: o escapulário de coco de piaçava e prata, da coleção “Joias Sagradas”.
A peça reúne símbolos ligados às religiões de matriz africana e ao catolicismo, em uma releitura do sincretismo religioso que atravessa a cultura baiana. Segundo a designer, o escapulário foi pensado como um objeto de proteção, memória e ancestralidade. “É o meu xodó. Em cada detalhe, existe uma intenção: transformar referências da fé e da ancestralidade afro-baiana em uma joia contemporânea, para ser usada junto ao corpo como amuleto”, destacou. A criação já foi usada por nomes como André Marques, Ana Maria Braga, Lázaro Ramos, Letícia Colin e Cissa Guimarães.

Foto: Divulgação | Reprodução / Instagram
Segundo a designer, Salvador, sua terra natal, e o imaginário baiano aparecem entre as principais referências do seu processo criativo, ao lado da arquitetura, do mar, da religiosidade, das festas populares e dos costumes do estado. “Minha joia nasce desse encontro entre o território e o meu olhar. É uma maneira de contar histórias da Bahia através da matéria, das formas e dos símbolos”, afirmou.
Embora a piaçava seja uma das marcas do trabalho, Gabriela também utiliza outros elementos naturais e passou a experimentar novas possibilidades, como pedras naturais. A escolha, segundo ela, parte do que cada matéria pode comunicar dentro de uma criação, seja pela textura, pelo contraste ou pelo significado.
Atualmente, a marca trilha um novo momento de sua trajetória com a abertura de uma loja física, localizada na Rua Odilon Santos, no Rio Vermelho. O espaço passou a reunir as criações e também parte do universo construído pela designer ao longo dos anos, aproximando o público dos materiais, das formas e das histórias presentes nas peças.
Agora, Gabriela pretende continuar pesquisando novas possibilidades para a piaçava e para os demais materiais, sem perder a ligação com a Bahia que atravessa sua produção. “Meu maior sonho é que a marca cresça sem perder aquilo que considero essencial: a autenticidade, o vínculo com a Bahia, o respeito à matéria-prima e a capacidade de transformar elementos do nosso território em objetos de desejo e de memória”, concluiu.
As peças podem ser adquiridas através do site oficial da marca e também na loja física.
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