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Coluna

Arquitetando: Entenda como a casa premiada da favela é uma lição sobre a democratização da arquitetura

Por Por Ana Paula Macedo e Louise Calegari

Arquitetando: Entenda como a casa premiada da favela é uma lição sobre a democratização da arquitetura
Foto: Leonardo Finotti

O projeto numa favela de Belo Horizonte que conquistou o título de "Casa do Ano", num concurso internacional de arquitetura (ArchDaily), surpreendeu muita gente nos últimos dias. E é fácil entender o porquê, pois não é sempre que se vê uma residência tão bem solucionada, num lugar como a Vila Cafezal, o maior aglomerado de favelas de Belo Horizonte, Minas Gerais – que em nada se difere das inúmeras comunidades espalhadas pelo país.

 

Nesses locais, a maioria das pessoas está acostumada a conviver com casas improvisadas, com estruturas ineficientes ou inseguras. Na contramão de tudo isso, o projeto assinado pelos arquitetos Fernando Maculan e Joana Magalhães, em parceria com os arquitetos do Coletivo Levante Cássio Lopes e Ricardo Lobato, mostrou que é possível entregar qualidade arquitetônica, sustentabilidade, segurança e dignidade com um custo incrivelmente mais acessível. 


 
Economia, estética e sustentabilidade
A “Casa do Ano” foi construída com mão de obra local – trabalhadores da própria comunidade – e obteve ajuda de parceiros para conseguir parte do material necessário. O projeto contou com um planejamento detalhado em etapas, para que a obra fosse tocada de acordo com o orçamento do dono do imóvel, como explica Marina Vilela, arquiteta do Coletivo: “A questão econômica está sempre presente. É uma preocupação constante em cada escolha que fazemos para o projeto ser viável. É um trabalho em rede, costurado por apoiadores, parceiros, voluntários, o que acaba diminuindo o custo. Os projetos são mais baratos, sem perder qualidade arquitetônica.”

 

No caso do projeto premiado, foi utilizado um modelo estrutural com um custo baixo, sem excesso de área, com estética e sustentabilidade maior. Os materiais – comuns ao local – como tijolo aparente, falta de reboco e basculantes também foram utilizados. A questão do terreno estar em um morro foi crucial para o investimento em segurança. Outro ponto importante foi a utilização da técnica de ventilação cruzada para gerar bem-estar do lado de dentro: “Isso traz muita eficiência, pois nesses locais as casas ficam muito próximas umas das outras e são construídas sem ordenação alguma. A brisa criada no interior faz com que o ambiente interno seja muito mais agradável”, conta Marina.


 
A democratização da arquitetura
O proprietário, o multiartista Kdu dos Anjos, está feliz da vida com o resultado e chegou a dizer que a casa virou atração turística ao vencer outros 1,6 mil projetos espalhados pelo mundo no concurso internacional. Mas também contou que tomou um susto ao ver o desenho do projeto, disse que era “coisa de rico” e que “sairia caro demais.” Essa fala prova como a elitização da arquitetura afastou, ao longo do tempo, as pessoas que possuem menor poder aquisitivo.

 

Por isso, é tão importante reforçar que essa não é a verdadeira alma da arquitetura, pois ela deve ser para todos de maneira igual e justa, uma vez que está presente em todos os lugares: nas casas, escritórios, praças e cidades. Engana-se quem pensa que só pode ter um projeto arquitetônico quem tem uma larga conta bancária. Pequenas ações provam que, quando se tem vontade, a arquitetura chega em todas as esferas.

 

No caso do Coletivo Levante, criado em 2017, o trabalho é feito por cerca de 15 arquitetos mineiros voluntários que se reúnem e tocam juntos aproximadamente 10 projetos em comunidades, quilombos e bairros periféricos no Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte. Depois da divulgação da “Casa do Ano” pelo site ArchDaily, a conta do Instagram do grupo explodiu de mensagens e perguntas sobre como ajudar ou participar das ações – provando que a vontade de fazer a diferença é o primeiro passo para modificar o preconceito em torno da profissão. “Não estávamos esperando tantos contatos e é uma grande surpresa. Precisamos mudar essa elitização da arquitetura para que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que olhar para esses lugares nos faz aprender e abordar questões urgentes. É uma iniciativa potente que pode ser articulada à cultura, por exemplo, na melhoria de centros comunitários e beneficiamento de mais pessoas”, ressalta Marina Vilela.


Outro exemplo, de que é possível atuar em todos os públicos, aconteceu em 2016, quando o renomado escritório Terra e Tuma assinou uma casa que foi considerada uma das melhores construções do mundo, no prêmio internacional Building of the Year 2016. A residência custou R$150 mil, pagos com as economias guardadas ao longo de 30 anos por uma empregada doméstica.

 

Muitas vezes, o trabalho é feito em silêncio, como no caso da atuação do arquiteto africano Diébedo Francis Kéré na região onde vive, conhecida por ser muito pobre. Considerado pioneiro pela sustentabilidade, ele foi o grande vencedor, no ano passado, do prêmio Pritzker, que é uma espécie de Nobel da arquitetura – se tornando o primeiro negro a receber a honraria. Entre os seus principais projetos, está o de uma escola, que tirou as crianças do chão de terra para estudarem numa construção segura e hiperventilada.

 

Aqui na Bahia, a UFBA também possui um núcleo que estimula iniciativas em zonas carentes e periféricas, oferecendo apoio em projetos de arquitetura para quem não pode pagar. É um dos pouquíssimos exemplos em terras baianas que chegou ao conhecimento geral, mas o bom seria que existissem muitos outros, vindos de empresas, profissionais e poder público para comprovar que mesmo na total falta de perspectiva, ainda é possível ter uma casa digna e bem projetada.
 


Tijolo aparente, falta de reboco e basculantes ganharam destaque no projeto premiado. (Foto Leonardo Finotti)

 


Casa no Pomar do Cafezal, o "Barraco do Kdu", concorreu com diversos projetos de outros países. (Foto Leonardo Finotti)

 


Projeto de baixo custo do escritório paulistano Terra e Tuma, para uma empregada doméstica da periferia do RJ, ganhou uma das categorias do prêmio internacional ArchDaily Building of the Year 2016. (Foto: Divulgação)

 


Projeto assinado por Francis Kéré,  vencedor do prêmio Pritzker em 2022, considerado o Nobel da arquitetura. (Foto: Divulgação)