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Quinta, 10 de Março de 2022 - 09:00

Fala, Albuca!: A reconstrução da narrativa nacional através da cultura

por Beatriz Albuca - @albuquerquebeatriz

Fala, Albuca!: A reconstrução da narrativa nacional através da cultura
Foto: Estátua de Netuno em Lviv, Ucrânia

Em meio a tantas imagens do atual conflito na Ucrânia, uma menos em evidência, em que estátuas estão cobertas com lonas e tecidos próprios para proteção contra incêndios, nos convida à uma reflexão sobre a relação do patrimônio cultural com a manutenção ou reconstrução de uma identidade nacional.

 

Os monumentos históricos são peça chave na tomada de uma cidade e na imposição de um povo sobre o outro. Destruindo o patrimônio cultural de um país, você apaga os vestígios materiais símbolos do seu passado em comum e da sua identidade coletiva, por isso são alvos estratégicos de guerra há milênios. 

 

É por isso que em toda a Europa, em momentos pós conflitos bélicos, a reconstrução material dos monumentos é fundamental para a reconstrução do território como nação. E é nesse momento que a historia de um país pode ser recontada, é através dos monumentos culturais que escrevemos o que é chamado de “relato nacional” ou “narrativa nacional”, termo utilizado para o relato que uma nação conta de sua própria história, fundamental para a criação da identidade nacional. 


    
Quando a Polônia foi invadida pelos alemães, o Palácio Real de Varsóvia foi inteiramente destruído e logo depois o fim da guerra reconstruído como símbolo de renascimento da nação. Esse tipo de reconstrução não é só visual, mas didática e afetiva. Afetiva pois carrega a nostalgia de um tempo de paz e a vontade de ver o palácio como ele era, e didática por servir de lugar de aprendizado para as futuras gerações. Seu objetivo não é simplesmente de expor objetos do passado, até porque a grande maioria não foi encontrada, mas de afirmar a sobrevivência de uma  identidade nacional: a cultura alemã não substituiu a polonesa. É um patrimônio cultural fabricado, e paradoxalmente é mais eficaz do que a construção original na escrita da narrativa nacional polonesa: a Polônia é sujeito ativo de sua história.

 

O Palácio Real de Varsóvia existir hoje significa que ninguém pode destruir o povo polonês nem sua memória. 


    
Em um caso ainda mais particular o Palácio do Grão Duque em Vilnius, na Lituânia, foi destruído no século 20. As tropas soviéticas deixaram a cidade quase um século depois e só assim a Lituânia teve o direito de escolher o que fazer desse palácio. O curioso é que o governo da época, em uma sociedade já completamente diferente daquela da pré invasão, decidiu reconstrui-lo totalmente, mesmo que não existisse quase nenhuma informação sobre como ele teria sido originalmente. Eles decidiram então criar o palácio que eles gostariam de encontrar. Foi idealizado de maneira muito significativa a partir de elementos históricos e outros apenas imaginários, contando sua versão particular da historia do país. Os objetos não tem uma ligação direta com o prédio, com a construção em si, mas com a nova Lituânia. O resultado é uma arquitetura que se aproxima da Europa Ocidental, particularmente Itália e Alemanha. As ligações com a Rússia são quase invisíveis: ela fez parte da história do país sim, mas não da narrativa nacional, não da identidade nacional. A mensagem é clara: o povo da Lituânia não deve nenhum reconhecimento à esses anos de dominação. Esse é o ponto.

 

Seja em tempos de guerra ou de paz, cabe sempre o questionamento: quem somos nós? qual narrativa usar para contar nossa história?

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