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Coluna

Vinho Por Ela: Semana Santa na Bahia – quando o dendê encontra o vinho e conta nossa história

Por Daniele de Mattos

Vinho Por Ela: Semana Santa na Bahia – quando o dendê encontra o vinho e conta nossa história
Foto: Acervo Pessoal

Há experiências que vão além do paladar — elas tocam memória, identidade e pertencimento. Foi exatamente isso que vivi ao provar uma moqueca mista de peixe, polvo e camarão no Casa de Tereza, harmonizada com um vinho que traduz leveza e elegância: o rótulo da própria casa, assinado pela Tereza Paim.

 

A moqueca chega borbulhante, intensa, aromática. O dendê brilha — dourado, envolvente, profundo. Não é apenas um ingrediente. É símbolo. É história. É resistência. Para nós, baianos, o dendê não é coadjuvante, é protagonista de uma narrativa construída por mãos negras, por saberes ancestrais que atravessaram o Atlântico e se enraizaram na nossa terra.

 

 

E foi justamente sobre isso que conversei com Tereza.

 

Em um momento quase íntimo, comentei que a Bahia vai além do dendê. Ela, com a delicadeza firme de quem sabe o que diz, me corrigiu:

 

“O dendê é a nossa maior riqueza gastronômica. É um cartão-postal.”

 

E é. Porque nele está condensada a alma da Bahia. Está nos terreiros, nas cozinhas de casa, nas festas, nos rituais. Está, sobretudo, na nossa identidade.

 

Ainda mais em tempos como a Semana Santa, quando o peixe ganha protagonismo e a mesa se torna espaço de encontro, fé e tradição. A moqueca, nesse contexto, não é apenas um prato — é um elo entre o sagrado e o cotidiano.

 

E então entra o vinho.

 

O rótulo escolhido — um Chardonnay leve, fresco, com boa acidez — cumpre um papel fundamental. Ao contrário do que muitos pensam, harmonizar com dendê não exige potência, mas equilíbrio. O vinho precisa limpar o paladar, cortar a untuosidade do prato e, ao mesmo tempo, respeitar sua complexidade.

 

Esse Chardonnay, de perfil delicado e refrescante, faz exatamente isso. Ele abraça a moqueca sem competir com ela. Sua acidez equilibra a gordura do dendê, enquanto suas notas sutis acompanham o sabor do mar presente no peixe, no polvo e no camarão. É uma dança — e não uma disputa.

 

A escolha de um vinho brasileiro também não é acaso. Valorizar nossa produção é, assim como valorizar o dendê, um gesto de identidade. O Brasil tem evoluído de forma impressionante na vitivinicultura, e rótulos como esse mostram que podemos, sim, criar harmonizações profundamente autorais.

 

Mas nada disso estaria completo sem falar da experiência como um todo.

 

O Casa de Tereza não é apenas um restaurante — é um espaço de celebração da cultura baiana. Cada detalhe, cada prato, cada escolha comunica respeito à tradição e, ao mesmo tempo, sofisticação contemporânea. Tereza não cozinha apenas comida. Ela cozinha memória, território e afeto.

 

E talvez seja isso que torna essa harmonização tão especial.

 

Não é só sobre vinho e comida.
É sobre quem somos.

 

Sobre reconhecer no dendê não um excesso, mas uma herança.
Sobre entender que harmonizar também é respeitar — ingredientes, história e identidade.

 

E, acima de tudo, sobre sentir orgulho.

 

Porque a Bahia, com seu dendê, sua mesa e sua alma, não precisa ser “além de”.
Ela já é tudo!