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Coluna

Arquitetando: A arte de desenhar o novo - um encontro com o premiado designer Fernando Mendes

Por Ana Paula Macedo e Louise Calegari

Arquitetando: A arte de desenhar o novo - um encontro com o premiado designer Fernando Mendes
Fotos: Arquitetando/Divulgação

Sentar-se ao lado de Fernando Mendes é como estar perto de um velho amigo, tamanha a simplicidade e a acolhida desse designer celebrado Brasil afora. Embora tão famoso e reconhecido pelo exímio trabalho no segmento mobiliário, a sua simpatia transforma até mesmo uma entrevista formal num bom papo ameno, recheado da genialidade de quem controla como poucos o uso da madeira em sua forma mais pura.

 

O bate-papo exclusivo entre o profissional e a coluna Arquitetando aconteceu na sua recente visita a Salvador para comandar um talk show intimista, ocorrido na Básica Home, na Alameda das Espatódeas. A visita se concretizou após o convite de Paulo, Roberta e Vitor Coelho, empresários da loja: “Reunimos amigos, numa noite especial, para ouvirmos esse grande nome do design brasileiro falar sobre suas criações e sobre a convivência com outro grande mestre, que é Sergio Rodrigues. Foi um talk show enriquecedor e um presente para nós que representamos a marca na Bahia”, disse Vitor, responsável pelo marketing da empresa.

 


Renata Aragão, Fernando Mendes, Paulo Coelho, Roberta Coelho e Vitor Coelho no talk show intimista, na Básica Home. (Foto: Arquitetando)

 

A simplicidade e a magia da criação

Quem imagina que o processo criativo de Fernando Mendes começa com emaranhado de ideias, engana-se. Segundo ele, a criação pode surgir de coisas simples, como uma ferramenta, por exemplo. É o que acontece com a mesa Grampo, inspirada nos antigos grampos em madeira utilizados nas marcenarias ancestrais. Em peroba do campo, as garras do grampo são fixadas diretamente no tampo, sem necessidade de ferramentas.

 


Inspirada nas marcenarias ancestrais, a mesa Grampo é protagonista de qualquer ambiente pela sua simplicidade e elegância

 

A inspiração também vem do coração. De paixões antigas, como a aviação, que resultou na poltrona Aviador que, quando vista com cuidado, lembra as hélices de um avião antigo. Esse móvel, aliás, rendeu-lhe o primeiro lugar na categoria Mobiliário no 22° Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, em 2008. “Tudo começa no papel. Faço algo que muitas pessoas já não fazem mais. Rabiscar com o lápis é um universo sem limites, já que possibilita transpor a imaginação”, conta o profissional.

 


A premiada poltrona Aviador teve como inspiração a paixão do designer Fernando Mendes pela aviação

 

De acordo com ele, esse hábito vem desde os tempos em que era colaborador de Sérgio Rodrigues: “Eu aprendi muito com ele, que costumava desenhar todos os dias, sobrepondo inúmeras ideias em pilhas de folhas de papel. Isso para mim é a riqueza inventiva de criação, que deve ser livre, fluida e respeitada, mesmo que as vezes, as ideias soem estranhas. O novo pode vir, justamente, de um momento como esse”, explica.

 

Trajetória no universo da marcenaria

Fernando Mendes tem sua própria linha de trabalho, mas guarda um plus em sua história: foi discípulo de um dos maiores mestres do design nacional, o vanguardista Sérgio Rodrigues, falecido em 2014. Começou fabricando algumas peças – no formato de colaboração – e se tornou uma extensão do trabalho do arquiteto e designer, reconhecido internacionalmente por obras, como as poltronas Xibô e a Mole.

 


Cadeira Mole, criação do designer conhecido mundialmente, Sergio Rodrigues

 

Antes de ser o braço direito de Rodrigues, Fernando, que também é arquiteto, se apaixonou pela “marcenaria autêntica e pura”, como ele costuma chamar, paixão que era compartilhada com o mestre. Hoje, domina todas as etapas da produção e possui coleções de sua própria autoria, que fazem sucesso no mercado e retratam a sua personalidade.

 

Suas linhas, geralmente, não possuem arestas e são recheadas de curvas, enaltecendo a fluidez dos contornos naturais. A produção surge da madeira maciça, principalmente, a Freijó e se mistura com outros elementos, como o couro. Entre as peças mais emblemáticas que levam a assinatura de Mendes, estão as poltronas Santos Dumont, Dina e Aero – sendo uma evolução da Aviador – o banco Irene, a cadeira Rê e a mesa de jantar Didi.

 

Quando o assunto é design perfeito, Fernando Mendes diz, que perfeição é uma busca interessante: “A gente investe em conhecimento, habilidades, mas perfeição mesmo é coisa para Deus, não é? Um bom design é aquele que tem uma inspiração genuína, autêntica. Seja ela qual for. Eu acho que não adianta a gente ficar inventando história para convencer o público. Precisa ter uma verdade”. 

 

O artista reforça que não adianta criar uma peça sem que exista uma conexão afetiva prévia com ela: “Observava o Sérgio trabalhar e via como ele acreditava no que fazia. Era um trabalho feito com amor, do qual ele se entregava por inteiro. É nisso que acredito”, completa.

 

Ateliê Sérgio Rodrigues 

Além da sua produção autoral, Fernando Mendes participa de cada etapa da produção do Ateliê Sérgio Rodrigues, que é 100% artesanal. Ele conta com a expertise da esposa Renata Aragão, administradora e sobrinha de Sérgio, inclusive, atual diretora executiva do Instituto. Ela cuida dos negócios e do planejamento, tanto do Instituto, como do Ateliê Sérgio Rodrigues.

 


Renata Aragão, diretora executiva do Instituto Sergio Rodrigues. (Foto: Arquitetando)

 

Neste último, todas as peças são feitas manualmente e possuem número de série, a fim de garantir autenticidade e selo artístico. “Para chegar ao que fazemos hoje, foi necessário executar um levantamento e licenciamento de todas as peças assinadas por Sérgio. É uma produção controlada e minuciosa em cada detalhe”.

 

O local possui, atualmente, 25 colaboradores, entre assistentes e artesãos, que são os marceneiros: “A nossa produção é totalmente artesanal. Quem entra aqui aprende desde o básico de marcenaria aos mais sofisticados acabamentos. Assim, investimos no social e garantimos a qualidade do início ao fim da produção”, ressalta Renata, acrescentando que mesmo cuidando da parte administrativa, compartilha da mesma paixão que o marido.

 

Entre ângulos e formatos, essa certeza se confirma a cada lançamento ou peça executada pelo grupo. O cuidado extremo com os detalhes, a geometria inovadora e o sentimento que envolve o observador, graças à memória afetiva guardada nas entrelinhas de cada móvel. Fernando Mendes leva com maestria a missão de dar continuidade ao legado de Sérgio Rodrigues, mas escreve com firmeza seu nome na história do design brasileiro – um presente para aqueles que acreditam e acompanham seu majestoso trabalho.