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Coluna

Arquitetando: Arquitetura plural e acessível é um direito de todos e um dever para os profissionais da área

Por Ana Paula Macedo e Louise Calegari

Arquitetando: Arquitetura plural e acessível é um direito de todos e um dever para os profissionais da área

Ao ver um belo projeto de arquitetura, o nosso olhar automaticamente busca a compreensão e a admiração das soluções aplicadas ali para revolucionar o espaço, além das suas principais características estéticas. Mas de nada adianta dar de cara com um ambiente bonito, moderno ou tecnológico se ele não é acessível a todos os tipos de pessoas.

 

É aí que entra uma mudança que deve ser exercitada por todos que vivenciam ou são apaixonados por arquitetura como nós. Entender esta disciplina nos dias de hoje requer o desenvolvimento de um olhar crítico que busque a democratização. Em outras palavras, significa aplicar de forma clara e funcional, a acessibilidade dos espaços, um direito garantido por lei, mas que pouca gente conhece.

 

 

No Brasil, a legislação que garante a acessibilidade na arquitetura é a Lei Federal nº10.098/2000, conhecida como Lei de Acessibilidade. Essa lei estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Além dela, existem outras normas técnicas e regulamentos que complementam e detalham os requisitos de acessibilidade na arquitetura, como NBR 9050 e NBR 16537, que modulam, por exemplo, a instalação de rampas e sinalizações específicas.

 

 

Além de ter parâmetros na legislação, a acessibilidade na arquitetura se baseia em outros conceitos, como o que defende a sustentabilidade, incorporando bons princípios e práticas nos projetos, como o uso de materiais ecológicos, eficiência energética, aproveitamento de recursos naturais e design que minimize o impacto ambiental.

 

No fim das contas, o pacote gera a melhoria da qualidade de vida, dando mais conforto, segurança e bem-estar aos usuários. É o que também defende a arquiteta e urbanista, Thamyres Rodrigues Azevedo, especializada no assunto. A profissional é uma das fundadoras da Azero Acessibilidade, empresa que presta consultoria há quase dois anos no mercado brasileiro.

 

 

Ao lado da sócia, a colega de profissão Thamille Castro, Thamyres conta que a acessibilidade ainda não é vista como deveria: “Atualmente, conseguimos ver em pequena escala projetos que apresentam soluções e medidas que envolvem a acessibilidade. Vale lembrar que isso é algo imprescindível, visto que a acessibilidade é boa para todos e não apenas para um grupo seleto”.

 

A arquiteta explica que a aplicação da lei é única em cada projeto, uma vez que cada espaço tem as suas particularidades, como, por exemplo, se é público ou privado. Para cada um, é preciso adaptar as necessidades, relacionadas à sinalização, iluminação e circulação.

 

Sobre a primeira, Thamyres diz que ela é fundamental: “A comunicação só é assertiva quando uma sinalização é feita de forma adequada. Para isso, deve-se utilizar sinalização tátil, visual ou sonora e todos os recursos possíveis para que se atenda o princípio dos dois sentidos e a informação seja transmitida de forma clara e objetiva”.

 

Já em relação à iluminação, a profissional fala que um ambiente bem iluminado evita acidentes, permite a visualização adequada dos elementos, das sinalizações, dos desníveis, e ainda melhora a sensação de bem-estar, sobretudo das pessoas com deficiência intelectual e ou visual. Ela também exemplifica: “Na casa de uma pessoa idosa, por exemplo, devemos sempre projetar a iluminação pensando nos potenciais riscos. As luzes em corredores e sanitários com sensor de presença evitam quedas e acidentes no período da noite”.

 

Sobre a circulação, Thamyres é enfática ao afirmar que “o 100% acessível é difícil, mas não é impossível”. Segundo ela, é possível focar em medidas úteis para os mais diferentes públicos: “Devemos sempre usar o bom senso, a razoabilidade e olhar inclusivo nos projetos. Não dá para dispensar, por exemplo, as adaptações nos acessos, tanto do lote à edificação quanto da edificação aos ambientes. Portas e corredores mais amplos, espaços para manobras, circulação sem desníveis também ajudam a eliminar as barreiras de mobilidade”.

 

 

Ela lembra que isso vale, inclusive, para os projetos urbanísticos: “A acessibilidade garante a mobilidade e, consequentemente, o direito de ir e vir das pessoas, as calçadas e travessias devem estar livres de obstáculos e em níveis adequados. Pode até parecer utópico a execução de uma cidade mais acessível, mas isso é possível, através de pequenas mudanças, inverter a lógica e criar cidades voltadas para as pessoas”.

 

Além de tudo, Thamyres afirma que é impossível falar de futuro sem falar de inclusão e destaca que o senso de responsabilidade deve estar atrelado ao de empatia: “Não dá pra continuar aceitando o cumprimento dos requisitos de forma incompleta, é preciso mais fiscalização, afinal, somos responsáveis pela acessibilidade nos projetos”.

 

Claro que a arquitetura é uma disciplina complexa que envolve muitos aspectos técnicos, criativos e sociais. Muito além disso, sabemos que cada projeto é único e requer uma abordagem cuidadosa e personalizada para atender às necessidades específicas de cada contexto e cliente. Contudo, não podemos esquecer da pluralidade humana e de como a arquitetura, assim como a arte, pode – ainda que por vias mais complexas – ser uma fonte da qual todos poderão beber.