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Um estudo divulgado pelo Instituto Fogo Cruzado e a Iniciativa Negra, nesta quinta-feira (13), revela que, em 2025, ao menos 133 escolas de Salvador tiveram paralisações de 10 a 20 dias do cronograma letivo em decorrência de conflitos armados nos bairros. O relatório “A Geografia da Exposição: Disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador” se propõe a analisar o impacto da violência armada nas escolas públicas da cidade soteropolitana entre 2023 e 2025.
A pesquisa é baseada na integração de dados de segurança pública do Instituto Fogo Cruzado, estatísticas educacionais do INEP e dados socioeconômicos e territoriais do Censo Demográfico 2022 do IBGE, tomando a escola como a unidade central de observação.
A partir de dados georreferenciados, o levantamento mapeou 3.748 disparos de armas de fogo na capital baiana, o que resultou em uma média diária de 3,4 ocorrências. Do total de conflitos armados contabilizados, 59% (2.206 eventos) foram registrados em dias letivos e 40% ocorreram à luz do dia. Segundo o estudo, a dinâmica prejudica de forma direta a mobilidade e a segurança da população, uma vez que coincide justamente com os horários de entrada, saída e recreio dos estudantes.
Além disso, o relatório demonstra que quase 70% dos incidentes registrados em dias de aula decorrem de intervenções policiais, que somam 37,4%, e de homicídios ou tentativas de homicídio, que representam 32%.
Para mensurar com precisão a dimensão desse impacto na comunidade escolar, os pesquisadores desenvolveram o Índice de Risco do Entorno Escolar (IREE), marcador que avalia a intensidade decorrente da proximidade dos tiros, a severidade pela letalidade dos episódios e a persistência medida pela quantidade de semanas afetadas em um raio de até um quilômetro de cada instituição.
A aplicação dessa ferramenta revelou uma acentuada assimetria na rede de ensino soteropolitana: embora a maioria das cerca de 600 unidades escolares públicas da cidade — estas que atendem 275 mil matrículas anuais — enfrente baixa exposição, um grupo restrito precisa suportar níveis críticos de violência territorial.
Entre 2023 e 2025, 120 escolas integraram as chamadas áreas críticas durante pelo menos um ano e 6 unidades permaneceram imersas nesse cenário de altíssimo risco durante todo o período analisado.
Em 2023, somente 10 escolas não registraram exposição a eventos de tiroteios, enquanto 283 acumularam entre 10 e 40 dias afetados e 81 escolas ultrapassaram 40 dias, chegando a 74 dias afetados.
No ano seguinte, em 2024, apenas 11 escolas não tiveram registros, 280 foram afetadas entre 10 e 40 dias letivos e 71 superaram 40 dias, chegando a até 80 dias. Já em 2025, 12 escolas não registraram nenhum dia afetado, 133 instituições tiveram entre 10 e 20 dias letivos interrompidos, 183 registraram entre 21 e 40 dias e 23 escolas ultrapassaram 40 dias de exposição no ano, com casos de até 55 dias afetados.
Tais resultados indicam que, para uma parcela significativa dos alunos, a violência não se trata de algo pontual, mas de uma condição permanente do território.
A análise ainda utiliza marcadores socioeconômicos e raciais da capital baiana: dos 163 bairros de Salvador, apenas oito concentraram quase 20% de todos os tiroteios mapeados no período: Beiru/Tancredo Neves, Pernambués, Fazenda Grande do Retiro, Lobato, Valéria, Federação, IAPI e Castelo Branco. Em todas essas localidades, a proporção de moradores não-brancos (pretos, pardos e indígenas) é superior a 83%, atingindo o pico de 92,8% no bairro do Lobato. Somado a isso, em seis desses oito distritos a renda média per capita é inferior a R$900.
A tese central do levantamento é que colégios situados em territórios de menor renda e maior presença de população não-branca apresentam índices IREE significativamente piores. Nas seis escolas em situação crítica persistente durante os três anos, por exemplo, a renda média do entorno variava entre R$ 594,10 e R$ 702,59, enquanto a população não-branca oscilava entre 87,4% e 91,2%.
Na conclusão do estudo, o estudo recomenda a incorporação do IREE e de dados georreferenciados no planejamento das secretarias municipais para a alocação de equipes, apoio psicossocial e gestão de crises. Além disso, defende a criação de sistemas de dados integrados e de protocolos intersetoriais de resposta rápida envolvendo Educação, Segurança Pública, Saúde e Assistência Social, garantindo uma atuação coordenada do governo municipal antes, durante e após os episódios de violência nos territórios prioritários.
Foram registrados seis casos de chacinas em Salvador e na região metropolitana (RMS) no mês de julho. O índice, divulgado pelo relatório do Instituto Fogo Cruzado nesta terça-feira (11), representou um aumento de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior, em 2025, quando foram registradas quatro chacinas.
Os seis casos registrados em julho ocorreram nos bairros de Capelinha, Castelo Branco, Cosme de Farias, Barreiras, Nordeste de Amaralina e Beiru/Tancredo Neves, em Salvador.
Conforme o Fogo Cruzado, se configura como “chacina” uma ocorrência de violência com três ou mais civis mortos. A “chacina policial” é quando esse evento ocorre em decorrência de uma ação das forças de segurança. Nos registros de julho, todas as chacinas foram registradas durante ações ou operações policiais, que deixaram 16 pessoas mortas.
O número de mortos também cresceu em relação ao ano passado: o número de vítimas aumentou 14%, passando de 14 para 16 mortos, entre julho de 2025 e 2026. Apesar da alta registrada no mês, o acumulado do ano apresenta redução no número total de chacinas.
De janeiro a julho de 2026, foram registradas 20 chacinas, contra 24 no mesmo período de 2025, uma queda de 17%. A diferença, porém, aparece na participação das ações policiais: neste ano, 19 das 20 chacinas ocorreram durante ações ou operações policiais, o equivalente a 95% dos casos. Em 2025, foram 16 chacinas em ações policiais entre as 24 registradas, correspondendo a 67%.
Apesar da redução de 17% no número total de chacinas, o número de pessoas mortas em chacinas durante ações policiais permaneceu o mesmo: 65 vítimas nos dois períodos. Em 2026, 65 das 68 pessoas mortas em chacinas foram vítimas de casos ocorridos durante ações ou operações policiais, o equivalente a 96% das mortes. Em 2025, foram 65 das 89 vítimas, ou 73%.
“Esses dados refletem uma concentração da letalidade em determinadas dinâmicas e territórios, e isso precisa ser considerado. Não podemos tratar como mera coincidência eventos com múltiplas mortes sempre nos mesmos CEPs”, afirma Tailane Muniz, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado. Ainda segundo ela, a segurança pública precisa ser pensada a partir da proteção da vida e da redução da letalidade, e não da naturalização de mortes como resultado positivo.
O Fogo Cruzado é um Instituto que utiliza tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
DADOS GERAIS
Salvador e região metropolitana registraram ao menos 118 tiroteios em julho de 2026, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Ao todo, 120 pessoas foram baleadas: 93 morreram e 27 ficaram feridas. Do total de ocorrências, 62 aconteceram durante ações e operações policiais, o equivalente a 52% dos tiroteios registrados no mês. Esses episódios deixaram 49 mortos e 12 feridos.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Otto Alencar
"Às vezes viajo com ele, de Salvador para Brasília, pessoa que tenho uma boa relação".
Disse o senador Otto Alencar, citado em um áudio do advogado baiano Ciro Soares ao confirmar a relação com o jurista e negar que tenha sido abordado sobre a possibilidade de se encontrar com o banqueiro Daniel Vorcaro.