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memorial mae menininha de gantois
A Prefeitura de Salvador solicitou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a realização de uma restauração arquitetônica do Memorial Mãe Menininha de Gantois, localizado no Terreiro do Gantois, em Salvador. O memorial mantém registros, documentos e todo um acervo sobre a trajetória e o legado da ialorixá, que é uma das mais importantes figuras das religiões de matriz africana no Brasil.
Conforme o processo ao qual o Bahia Notícias teve acesso, o projeto foi enviado na última segunda-feira (11) e protocolado na terça (12), por meio de um requerimento enviado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), autarquia do Executivo Municipal responsável pela coordenação e elaboração de planos e projetos urbanísticos. Conforme o preenchimento de um formulário, a entidade solicita uma Autorização de Intervenção em Bem Imóvel, processo no qual o órgão de patrimônio concede a liberação para reformas em prédios tombados.
O Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, conhecido como Terreiro do Gantois, é um terreiro de candomblé fundado em 1849, no bairro da Federação, em Salvador, por Maria Júlia da Conceição Nazaré, avó de Mãe Menininha do Gantois.

Foto: Acervo / Terreiro do Gantois
O espaço foi oficialmente tombado pelo Iphan em 2002, como o segundo terreiro de candomblé a ser reconhecido como patrimônio nacional em Salvador. No entanto, antes mesmo da garantia de proteção nacional, o local já era considerado Área de Proteção Cultural e Paisagística desde 1985, mediante legislação municipal, ainda sob a gestão de Mãe Menininha do Gantois.
Maria Escolástica da Conceição Nazaré, conhecida como Mãe Menininha do Gantois, foi a líder mais longeva do terreiro. A líder religiosa tornou-se nacionalmente reconhecida pela sua influência cultural, pela luta contra o racismo religioso na Bahia e pela defesa da convivência pacífica entre religiões, especialmente o candomblé e a Igreja Católica. Seu memorial foi fundado em 1992, cerca de seis anos após o seu falecimento.
Foto: Acervo / Terreiro do Gantois
No local, são expostas mais de 500 peças referentes à história, objetos rituais, e pessoais de Mãe Menininha do Gantois. Conforme a cartilha disponível no site do terreiro, "o acervo do Memorial Mãe Menininha do Gantois é um testemunho da história da tradição nagô na Bahia, e das trajetórias religiosas que se integram às trajetórias sociais e culturais da cidade do São Salvador". As peças incluem mobiliário, indumentária, objetos de uso pessoal, atributos, louças, documentos e fotografias.
SOLICITAÇÃO DE INTERVENÇÃO
No pedido de autorização enviado ao Iphan este mês, a Fundação Mário Leal solicitou a análise e a aprovação do anteprojeto de arquitetura para o Memorial Mãe Menininha do Gantois. O formulário ainda cita a “liberação dos recursos correspondentes ao Plano de Trabalho – Programa PAC/IPHAN”.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, é uma ação coordenada de investimentos que destina recursos a obras ou aquisição de dispositivos para áreas como transporte, saúde e infraestrutura, por meio de entes públicos e privados.
Segundo a fundação, a autorização “trata-se da etapa de elaboração de projeto que compreende o Restauro do Memorial para fins de captação de recursos, assim que concluído o projeto”.
Com o lançamento do Novo PAC, em 2023, o Iphan realizou a primeira rodada de investimentos por meio do PAC Seleções no mesmo ano, com execução nos dois anos seguintes, entre 2024 e 2025. A segunda rodada segue com edital aberto até o final deste mês.
As mudanças destacadas na intervenção são o restauro e a adequação dos espaços para promoção de acessibilidade. A presidente da FMLF afirmou, em ofício enviado ao Iphan, que “o referido anteprojeto contempla as diretrizes arquitetônicas e conceituais para a implantação do memorial, buscando respeitar os valores históricos, culturais e simbólicos do sítio, bem como as especificidades do bem tombado e de seu entorno”.
DIAGNÓSTICO
No material anexado ao procedimento, a Fundação apresenta, entre outros itens, uma lista mestra de recursos, um memorial descritivo sobre o memorial e as significâncias atreladas aos seus espaços, às premissas da intervenção e ao anteprojeto da intervenção.
O diagnóstico da situação atual do local, detalhado principalmente no documento de diagnóstico de patologias e reforçado no memorial descritivo do anteprojeto, cita que o Memorial Mãe Menininha do Gantois apresenta, de modo geral, um bom estado de conservação. “A edificação apresenta um bom estado, com pequenas lesões, sujidades e patologias relacionadas à pintura”, diz um trecho da nota técnica.

Imagem anexada no diagnóstico com relação a situação do piso do Memorial. Fonte: Yoanny Calvo / Fevereiro de 2025
Entre os pontos considerados estão alguns danos estruturais, a acessibilidade e a infraestrutura. Destaca-se, no projeto da Fundação, que a acessibilidade seria a questão mais crítica, já que o Memorial não possui condições de acessibilidade plena por falta de rota acessível com piso tátil, acessos feitos exclusivamente por escadas estreitas, entradas curtas e um mobiliário não inclusivo para cadeirantes.

Imagem anexada no diagnóstico com relação ao primeiro pavimento do Memorial. Fonte: Yoanny Calvo / Fevereiro de 2025
PROPOSTAS DE REFORMA
Considerando estes pontos, a proposta da Fundação Mário Leal Ferreira destacou cinco objetivos para a realização das intervenções, entre eles: preservar a estrutura existente e prever a recuperação estrutural dos elementos com o desgaste natural dos materiais; propiciar condições plenas de acessibilidade ao Memorial, considerando o percurso acessível, sem interferir na funcionalidade e nos fluxos dos rituais; e preservar a simplicidade estética que caracteriza a edificação e seus espaços.
O anteprojeto também apresenta os principais eixos e elementos previstos na intervenção proposta para o Memorial Mãe Menininha do Gantois. Os aspectos do projeto podem ser divididos em quatro eixos: garantia da acessibilidade e circulação; requalificação do pavimento térreo; expografia e reserva técnica; intervenção na fachada e, por fim, a recuperação estrutural da infraestrutura. Os documentos apresentados ao Iphan não demonstram, em formato 3D, as mudanças sugeridas, mas o Bahia Notícias detalhou as descrições das mudanças enviadas para a aprovação do Instituto.
Na área de acessibilidade, o projeto propõe a instalação de um elevador para atender à norma NBR 9050, garantindo o deslocamento de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, além de uma nova escada com maior espaço e integração visual, para uma melhor circulação.
Na esfera de requalificação do primeiro pavimento, a proposta da Fundação prevê que o espaço deve ser incorporado ao memorial, com a criação de uma sala de estar/recepção, novos sanitários (incluindo uma unidade PcD) e integração com a zona religiosa do terreiro.
O eixo de “expografia e reserva técnica” diz respeito à área de exposição do acervo. Neste caso, o anteprojeto prevê a ampliação da área expositiva, reorganizando o acervo nos setores: "a mulher (Maria Escolástica)", "a sacerdotisa" e "o aposento"; a criação de uma sala audiovisual no segundo pavimento; modernização dos armários e estantes de exposição, além de garantir a climatização natural para fins de preservação do acervo.
Para a intervenção na fachada, a FMLF sugere a adaptação a uma estética contemporânea, com elementos de circulação envolvidos por uma chapa metálica que deve reproduzir uma imagem icônica de Mãe Menininha, em uma homenagem simbólica. Já na recuperação estrutural, o anteprojeto prevê a recuperação de elementos de concreto que apresentam fissuras, a realização de novas instalações elétricas e hidrossanitárias, além da criação de um novo vestiário para os membros da casa.
PROCESSO NO IPHAN
Após a protocolização do requerimento e anexos por parte da Fundação Mário Leal Ferreira, a Superintendência do Iphan na Bahia formalizou o recebimento dos documentos nesta quinta-feira (14). Em despacho enviado à Coordenação de Apoio Técnico, responsável pela análise do pedido, o coordenador Fellipe Decrescenzo Andrade Amaral constatou o recebimento do requerimento e deu início à tramitação interna da proposta.
“Remeto aos cuidados de vossa senhoria o Requerimento, com anexos, encaminhado pela Presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, Sra. Tânia Scofield, solicitando análise e manifestação”, diz o despacho.
Conforme a análise do anteprojeto e dos documentos enviados pela Prefeitura de Salvador, os agentes técnicos do Iphan devem emitir um parecer sobre o requerimento. Nesta etapa, historiadores, arquitetos e/ou arqueólogos avaliam se a intervenção pode descaracterizar o imóvel ou prejudicar o seu entorno e seus usos.
Em caso de avaliação positiva, será emitido um ofício de autorização para a realização da obra. Após a obtenção das demais licenças, como o alvará municipal, e o resultado dos editais para captação de recursos, a obra poderá ser iniciada. Por fim, o Iphan ainda pode solicitar o “Acompanhamento Arqueológico”, procedimento que, apesar de não ser obrigatório, pode ser exigido em casos específicos.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Flávio Bolsonaro
"Não tenho que justificar nada para ninguém".
Disse o senador Flávio Bolsonaro (PL) ao comentar sobre a sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no caso do Banco Master. Em coletiva realizada em frente ao Quartel-General da Polícia Militar do Rio, onde acompanhou a entrega de armamentos e viaturas, o parlamentar afirmou que não precisava avisar a aliados sobre sua relação com Vorcaro.