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mae menininha do gantois
O aspecto franzino, que originou o apelido de “Menininha” (segundo algumas versões), não escondia a grandeza de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, ialorixá que, por seis décadas, esteve à frente do Terreiro do Gantois (Ilê Iyá Omi Àsé Iyámasé), uma das lideranças religiosas mais influentes do país.
Nesta quinta-feira (13), completam-se 40 anos da morte de Mãe Menininha do Gantois, figura central na luta pelo reconhecimento do Candomblé perante a sociedade e o Estado e pelo fim da perseguição policial às religiões de matriz africana.
Nascida em 10 de fevereiro de 1894, em Salvador, no dia de Santa Escolástica, que lhe deu o nome, era filha de Joaquim e Maria da Glória. Possuía ascendência direta dos povos Egbá-Arakê, da região de Abeokuta, na Nigéria, e era bisneta de negros libertos, Maria Júlia da Conceição Nazareth e Francisco Nazareth de Etra — fundadores da linhagem do Gantois.
Mãe Menininha foi iniciada no Candomblé aos oito meses de idade por sua tia-avó e madrinha de batismo, Pulquéria Maria da Conceição (Mãe Pulquéria), e consagrada à orixá Oxum. Menininha seria sua sucessora na função de ialorixá do Gantois. Com a morte repentina de Mãe Pulquéria, em 1918, o processo de sucessão foi acelerado. Por um curto período, enquanto a jovem se preparava para assumir o cargo, sua mãe biológica, Maria da Glória Nazareth, permaneceu à frente do Gantois.
Em 1922, aos 28 anos, tornou-se a quarta ialorixá do Terreiro do Gantois e uma das mais populares mães de santo brasileiras. “Minha avó, minha tia e os chefes da casa diziam que eu tinha que servir. Eu não podia dizer que não, mas tinha um medo horroroso da missão (...): passar a vida inteira ouvindo relatos de aflições e ter que ficar calada, guardar tudo para mim, procurar a meditação dos encantados para acabar com o sofrimento”, disse em relato disponível no livro Mãe Menininha do Gantois: uma biografia (2006).
E chegou a hesitar em aceitar o cargo para o qual os deuses a elegeram. “Quando os orixás me escolheram, eu não recusei, mas balancei muito para aceitar”.

Foto: Acervo Terreiro do Gantois
Jorge Amado descreveu Mãe Menininha como uma mulher “pobre, modesta, tímida, que nasceu no candomblé e nele cresceu, no ofício da compaixão e da bondade, nos ritmos antigos, conservando valores profundos da cultura brasileira”.
A gestão de Mãe Menininha coincidiu com um período em que as religiões de matriz africana sofriam intensa repressão na Bahia, com terreiros frequentemente invadidos e fechados por forças policiais e seus rituais criminalizados.
A "Oxum mais bonita", como descreveu Caymmi com a mão da doçura, estabeleceu uma rede de diálogo com autoridades, políticos, intelectuais e artistas. Por meio de diplomacia e trânsito entre diferentes classes sociais, ela conseguiu frear a perseguição policial aos terreiros, abrindo caminho para que o Candomblé ganhasse o status de religião legítima e fosse valorizado como pilar da identidade cultural afro-brasileira.
“Muitos anos atrás, Mãe Menininha já sinalizava que liberdade era pressuposto de luta, assim como foi no período da escravidão. E, em 64 anos como sacerdotisa, do alto de sua generosidade e força, Mãe Menininha usou de diplomacia, diálogo inter-religioso e carisma para combater a perseguição aos terreiros e desmistificar a cultura de matriz africana”, declarou ao Bahia Notícias, a Iyá Kekeré (Mãe Pequena) e neta da Mãe Menininha, Ângela Ferreira, liderança interina do Gantois após a morte de Mãe Carmen em dezembro de 2025.
Como registrou o próprio Jorge Amado, as comemorações do jubileu de ouro de Mãe Menininha como ialorixá do Gantois reuniram a seu redor a cidade inteira, incluindo o governador e ex-governadores, o prefeito, vereadores e deputados, a intelectualidade baiana, banqueiros e industriais, além, é claro, dos filhos e filhas de santo de todos os cantos do Brasil.

Foto: Acervo Terreiro do Gantois
Ecumênica, Mãe Menininha mantinha uma relação próxima com o catolicismo e não abria mão de frequentar a missa. Podia receber a comunhão pela manhã e, horas depois, conduzir os rituais do candomblé. Entre uma atividade e outra, dedicava-se às duas filhas, Cleusa e Carmen, que mais tarde assumiriam a liderança do terreiro, além de acompanhar de perto o funcionamento da casa.
A rotina no Gantois era intensa. O terreiro também mantinha suas próprias atividades, como a criação de galinhas e o cultivo de milho. Nos momentos de descanso, encontrava prazer em atividades simples. Zelava cuidadosamente pela extensa coleção de peças de louça que havia recebido de filhos de santo ilustres. Durante os capítulos da novela Selva de Pedra, ninguém se atrevia a interrompê-la. No quarto, mantinha o rádio ao lado da cama, onde ouvia programas evangélicos e música popular. Entre suas cantoras favoritas estava Maria Bethânia, que é sua filha de santo.
Após a sua morte, seus filhos deixaram seu quarto intacto, com seus objetos de uso pessoal e ritualísticos. O aposento foi transformado no Memorial Mãe Menininha e é uma das grandes atrações do Gantois. O espaço recentemente passou a integrar o Guia Baiano de Museus.
Foto: Acervo do Terreiro do Gantois
Por trás das grossas lentes dos óculos, havia uma mulher de personalidade firme e determinação incomum. Mãe Menininha não apenas enfrentou o preconceito e ajudou a consolidar o candomblé como uma expressão da cultura negra, como também ampliou as portas do terreiro para novos adeptos.
“Oxum reinava em sua trajetória, afinal foi iniciada aos oito meses de vida, e seu apelido faz jus a essa condição. Menininha era a pequena iniciada que mergulhou na essência legada por suas ancestrais e fez jus ao que lhe foi confiado. O núcleo religioso era a fonte de vida e também de luta por direito a existir e viver com dignidade, assim pensavam as mulheres do Gantois que se tornaram lideranças fortes na Bahia e que conseguiram manter sua comunidade. Assim era Mãe Menininha, a mulher e mãe, a cidadã e sacerdotisa que elencava numa mesma personalidade todos os seus estados de vivência, a fim de proteger seu povo”, afirma Márcia Maria de Souza, Maié Oxum do Gantois.
Sua relação com o catolicismo também ajudou a aproximar universos que, à época, pareciam distantes. Ela chegou a convencer bispos a permitir que mulheres vestidas com os trajes tradicionais do candomblé entrassem nas igrejas. As mesmas vestimentas que usava com elegância no dia a dia do terreiro: o branco dedicado a Oxalá, o dourado de Oxum e o azul de Oxóssi.
No romance Bahia de Todos os Santos, Amado descreve que “Mãe Menininha está acima de toda e qualquer divergência de ordem política, econômica ou religiosa. É a ialorixá de todo o povo da Bahia, sua mão se estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano”.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) firmou um termo aditivo que prorroga o prazo de vigência do termo de Compromisso (961312), relacionado à elaboração de projetos técnicos para a restauração do Memorial Mãe Menininha de Gantois, em Salvador.
De acordo com o extrato do termo aditivo, a prorrogação amplia a vigência do instrumento por mais 180 dias. Com isso, o novo período passa a compreender o intervalo de 15 de janeiro de 2026 a 14 de julho de 2026.
Em agosto do ano passado, a reportagem mostrou que a gestão municipal, através da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), deu um novo passo na preservação do patrimônio cultural e religioso de Salvador ao contratar uma empresa especializada para a elaboração de um projeto executivo de restauração do Memorial Mãe Menininha do Gantois.
Localizado no Alto do Gantois, no bairro da Federação, o memorial homenageia uma das mais emblemáticas figuras do candomblé baiano. O contrato, formalizado com a empresa Yoanny Calvo - Arquitetura & Engenharia LTDA, visa à prestação de serviços técnicos especializados para detalhar as intervenções necessárias à recuperação do espaço. O investimento previsto para a elaboração deste projeto é de R$ 187.500,00.
O termo aditivo foi assinado por Daniel Borges Sombra e pelo prefeito Bruno Reis. O Iphan figura como concedente, enquanto o município de Salvador atua como convenente.
O ESPAÇO
O “Memorial Mãe Menininha do Gantois” foi criado em 1992, e reúne mais de 500 peças referentes à história, objetos rituais, e pessoais, da liderança da religiosidade de matriz africana. Considerado primeiro espaço museal dessa categoria, e de personalidade, o Memorial tem um acervo rico em peças civis e religiosas, num estilo característico de coleção aberta, dividida em três núcleos expositivos: o espaço da mulher, Maria Escolástica; o espaço da sacerdotisa, Mãe Menininha, e a ambientação do seu aposento.
A prefeitura de Salvador, através da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) deu um novo passo na preservação do patrimônio cultural e religioso de Salvador ao contratar uma empresa especializada para a elaboração de um projeto executivo de restauração do Memorial Mãe Menininha do Gantois.
Localizado no Alto do Gantois, no bairro da Federação, o memorial homenageia uma das mais emblemáticas figuras do candomblé baiano. O contrato, formalizado com a empresa Yoanny Calvo - Arquitetura & Engenharia LTDA, visa à prestação de serviços técnicos especializados para detalhar as intervenções necessárias à recuperação do espaço. O investimento previsto para a elaboração deste projeto é de R$ 187.500,00.
Com um prazo de 11 meses de vigência, a partir de sua assinatura em 21 de julho de 2025, o projeto executivo será o guia para as futuras obras de restauração.
O ESPAÇO
O “Memorial Mãe Menininha do Gantois” foi criado em 1992, e reúne mais de 500 peças referentes à história, objetos rituais, e pessoais, da liderança da religiosidade de matriz africana.
Considerado primeiro espaço museal dessa categoria, e de personalidade, o Memorial tem um acervo rico em peças civis e religiosas, num estilo característico de coleção aberta, dividida em três núcleos expositivos: o espaço da mulher, Maria Escolástica; o espaço da sacerdotisa, Mãe Menininha, e a ambientação do seu aposento.
Encarando há seis anos o desafio de conduzir a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), o maestro Carlos Prazeres, nascido no Rio de Janeiro, contou detalhes sobre a trajetória que o conduziu à atual fase profissional. Em entrevista ao Bahia Notícias, ele revelou os diversos convites para reger importantes orquestras no Brasil e no mundo, e falou ainda sobre os planos para a Osba, que recentemente passou por um processo de publicização. “Esses três meses que a Osba vai passar agora são meses de absoluta transição”, explicou Prazeres, pedindo paciência ao público, para que os músicos e gestores possam “arrumar a casa”. “No segundo semestre a gente sabe que finalmente vai ter aí uma orquestra pronta para fazer uma linda programação”, garantiu o maestro. Ao comentar o período difícil pelo qual a Osba passou no último ano, Prazeres destacou e agradeceu o apoio de artistas da música popular, como Luiz Caldas, Saulo, Daniela Mercury, Djavan e Paralamas do Sucesso. Carlos Prazeres revelou ainda que, além do prosseguimento dos eventos tradicionais que já fazem parte da agenda da orquestra, a Osba contará com duas novas séries, em homenagem a Mãe Menininha do Gantois e Myriam Fraga. “A gente fez questão de colocar o nome de mulheres, isso foi realmente proposital. A gente sabe que a Osba quer ser uma orquestra que está em voga com o pensamento crítico atual”, explicou. Clique aqui e confira a entrevista completa.
A Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), que recentemente passou pelo processo de publicização, lançará, pela primeira vez, séries em homenagem a mulheres. Em sua nova fase, que começará a consolidar-se no segundo semestre, a orquestra dará prosseguimento às atividades que já fazem parte de sua agenda, mas também apresentará novas propostas. “A gente vai continuar seguindo esse nosso caminho, só que vai aperfeiçoar. Vamos fazer um Cine Concerto segunda edição, podendo comprar o material; vamos fazer um conserto de videogames; nós queremos fazer uma turnê pelo interior do estado, que isso é importantíssimo; e vamos criar novas séries, inclusive uma série sensorial, que vai levar o nome da Mãe Menininha do Gantois, que a gente quer homenagear” revelou, em primeira mão, o curador e maestro titular da Osba, Carlos Prazeres. O maestro contou ainda que está na programação uma outra série em tributo à escritora baiana e ex-integrante da Academia de Letras da Bahia, Myriam Fraga, morta em 2016. “A gente fez questão de colocar o nome de mulheres, isso foi realmente proposital. A gente sabe que a Osba quer ser uma orquestra que está em voga com o pensamento crítico atual”, destacou Prazeres, lembrando que as demais séries da orquestra sempre tiveram nomes de homens. “Foi Manoel Inácio da Costa, Jorge Amado, Glauber Rocha... Então, na verdade, por que não agora colocar nomes de mulheres nas nossas séries?”, questiona. “A gente quer conseguir ser uma orquestra atual, em voga com as lutas e com os anseios da sociedade que a gente vive”, reforça.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Tânia Scofield
"Na verdade, o que a gente encontra hoje na rua de Salvador é uma faixa de veículo assim, bem acima do necessário. Esse acima do necessário permite inclusive que um carro ultrapasse, porque às vezes tem 3 metros e meio, 3 metros, às vezes 4 metros".
Disse a presidente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), Tânia Scofield, durante entrevista nesta terça-feira (8) ao programa Bahia Notícias no Ar, ao comentar a preocupação de parte dos motoristas com a redução do espaço para os carros nas obras de requalificação da Avenida Lafayette Coutinho, popularmente como Avenida Contorno é uma "percepção um pouco equivocada".