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juliano maderada
Todo mundo tem um jingle para chamar de seu — e, certamente, alguma música de campanha ficou marcada na memória durante uma disputa eleitoral. Seja pela letra, pela melodia ou pelo tradicional “hit chiclete” que não sai da cabeça, os jingles são muito mais do que canções sobre trajetórias de candidatos, pedidos de voto ou críticas a adversários.
A música curta e marcante criada para divulgar campanhas políticas passou por transformações ao longo dos anos, com mudanças nas letras, nos arranjos e nos ritmos utilizados. Na Bahia, a influência de gêneros populares também ajudou a moldar a identidade sonora das campanhas, enquanto a chegada da inteligência artificial abriu uma nova frente para a produção dessas peças.
Na reta final das eleições de 2026, o Bahia Notícias conversou com dois compositores e um advogado especializado em direito autoral para entender as mudanças nos jingles eleitorais, a influência das novas tecnologias e os cuidados que candidatos e partidos precisam ter na utilização dessas obras.
NÃO SE FAZ MAIS LETRA BONITA, DIZ CHOCOLATE DA BAHIA
Uma das principais figuras quando o assunto é a composição de músicas e jingles, Raimundo Nonato da Cruz, conhecido como Chocolate da Bahia, refletiu sobre as diferenças entre as produções atuais e as realizadas em décadas anteriores.
Ao BN, Chocolate lamentou o que considera uma perda de elaboração melódica e poética nos jingles atuais. Segundo ele, a preocupação com a qualidade das letras diminuiu ao longo dos anos.
“Ninguém está ligando mais para letra atualmente. Tenho tantos hinos que fiz, inclusive para doação de órgãos, o que você pensar e imaginar. Não se faz mais letra bonita, não”, afirmou.
O compositor também criticou a utilização de ritmos repetitivos e avaliou que as agências de publicidade passaram a dar menos espaço para a criação autoral.
“Existe muita falta de informação mesmo. As agências criativas não estão criando nada. Estão produzindo somente pela pressa e fazem qualquer coisa. É isso que estou vendo. Está tudo muito ruim”, disse.
Chocolate também citou a produção de jingles em ritmos populares e o uso de inteligência artificial. Para ele, a facilidade proporcionada pelas novas ferramentas pode ocorrer em detrimento do trabalho de compositores.
“Depois das eleições vamos ver muita gente se lamentando por não ter contratado um bom jingle. Se tivessem me ligado, me emocionaria. E muita campanha se ganha com a emoção de um jingle bonito, não é isso?”, refletiu.
“Estou muito frustrado em ver que eles não estão respeitando a criação. E ainda tem a IA que estão utilizando para fazer jingle. Eles vão pelo mais fácil e não querem nem pagar a reutilização”, completou.
Chocolate tem longa trajetória na produção de jingles políticos. Em 2024, ele contou ao Bahia Notícias que conseguia compor uma música de campanha em cerca de 40 minutos e destacou que a emoção era um dos elementos fundamentais para um bom jingle.
“TEM QUE SER UM CHICLETE”, DIZ COMPOSITOR JULIANO MADERADA
Outro compositor ouvido pela reportagem foi Juliano Maderada, de 52 anos, conhecido por trabalhos ligados à música política. Ele é autor do hit “Tá na Hora do Jair”, utilizado em 2022 em uma campanha crítica ao então presidente Jair Bolsonaro.
Segundo Juliano, a música surgiu a partir de um slogan utilizado em uma propaganda eleitoral de Bolsonaro. A partir da frase, ele e o amigo Tiago desenvolveram a composição.
“Teve uma propaganda do Jair, na época. Eu e o meu amigo Tiago estávamos assistindo televisão e tinha uma propaganda do Jair que falava: ‘Tá na hora do Jair’. Aí eu falei: ‘Ah, tá na hora do Jair ir embora’. Aí a gente acabou escrevendo por conta da própria propaganda”, contou.
Ao comparar os jingles de 2026 com os produzidos quatro anos atrás, Juliano destacou a chegada da inteligência artificial como a principal novidade. Na avaliação dele, porém, a estrutura dos jingles produzidos por compositores ainda segue praticamente a mesma.
“A diferença do jingle do ano passado para este foi só que apareceram jingles de IA. Em termos de jingle físico mesmo, humano, não teve muita diferença. Acho que está mais ou menos a mesma coisa”, afirmou.
Para Juliano, a curta duração das campanhas faz com que os jingles precisem transmitir rapidamente a mensagem do candidato. Por isso, ele considera que ritmo, repetição e facilidade de memorização são fundamentais.
“É mais voltado mesmo para ritmo e um chiclete. Eu também faço com uma letra boa, mas eu acho que o que populariza mais é a melodia. A gente tem que ter uma canção que chegue logo, dê logo o recado na lata. Aí tem que ser um chiclete”, explicou.
JINGLES TAMBÉM ENVOLVEM DIREITOS AUTORAIS
A discussão sobre a transformação dos jingles eleitorais não se limita ao campo artístico. A utilização dessas músicas também envolve direitos de propriedade intelectual, especialmente quando uma composição é reaproveitada em campanhas posteriores.
Em entrevista ao BN, o advogado especializado em direito autoral Rodrigo Moraes chamou atenção para uma situação que, segundo ele, ainda gera dúvidas entre candidatos e equipes de campanha: a contratação de um jingle não significa necessariamente a transferência definitiva dos direitos sobre a obra.
“Tem gente que faz um jingle para um político, o político quer reutilizar isso oito anos depois e acha que é dono da música, e não é”, destacou.
Segundo o especialista, a autorização concedida para utilização de uma composição em determinada campanha não significa, necessariamente, que o candidato ou partido passe a ser titular da obra. Em caso de reutilização em uma eleição posterior, as condições previstas no contrato devem ser observadas e pode ser necessária uma nova negociação com o autor.
Moraes também chamou atenção para a diferença de tratamento entre os diversos profissionais envolvidos em uma campanha.
“Se todo mundo ganha de novo — se o jornalista ganha, o assessor de imprensa ganha, o advogado eleitoral ganha, o maquiador ganha —, só não vai pagar de novo o compositor, coitado?”, questionou.
IA REDUZ CUSTOS, MAS LEVANTA NOVOS DESAFIOS
A inteligência artificial também aparece como uma das principais mudanças na produção contemporânea de jingles. Para Rodrigo Moraes, a tecnologia pode reduzir custos, mas não necessariamente reproduzir a mesma experiência criativa de uma produção envolvendo compositores, músicos e maestros.
“Por mais que a Inteligência Artificial seja algo interessante, é um barateamento de custo. É muito mais barato fazer um jingle com IA do que produzindo com compositores, maestros e músicos. Mas quem é sensível sente a diferença”, avaliou.
O uso de IA em campanhas eleitorais também passou a receber atenção específica da Justiça Eleitoral. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que conteúdos sintéticos multimídia produzidos ou alterados por inteligência artificial sejam identificados de forma explícita, destacada e acessível. Há ainda restrições específicas para novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito.
Na Bahia, o uso de IA em conteúdos relacionados às eleições também já chegou à Justiça Eleitoral. O TRE-BA criou um centro específico para inteligência em propaganda eleitoral digital e vem adotando medidas relacionadas à fiscalização de conteúdos produzidos ou manipulados por ferramentas tecnológicas.
Para Moraes, além da discussão sobre tecnologia, o uso de músicas sem a devida autorização pode trazer consequências jurídicas para as campanhas.
“O uso indevido de propriedade intelectual na propaganda eleitoral pode levar a pedidos de liminar para a retirada imediata do jingle do ar, bloqueio de conteúdos nas redes sociais e até multas aplicadas pela Justiça Eleitoral por propaganda irregular”, afirmou.
Os jingles, portanto, continuam ocupando um espaço importante na comunicação eleitoral, mas a forma de produzi-los e utilizá-los mudou. Entre a composição artesanal, os ritmos populares e a produção automatizada por inteligência artificial, a disputa pela música que vai ficar na cabeça do eleitor também ganhou novos capítulos em 2026.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Dario Durigan
"Não vou tratar de bets agora, porque são temas que nós ainda estamos em avaliação. O presidente deve tratar disso aí nos próximos dias".
Disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan ao desconversar se o governo já havia batido o martelo sobre o texto da medida provisória que restringirá as apostas online no Brasil. Ao ser abordado pela imprensa, o ministro disse que a MP ainda está em avaliação e ter o seu texto avaliado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos dias.