Bahia concentra seis das 10 cidades com maiores taxas de homicídios estimados do país, aponta Atlas da Violência 2026
Por Ronne Oliveira / Bernardo Maia
Os novos dados foram divulgados nesta terça-feira (26) pelo Atlas da Violência 2026, revelam que a Bahia possui seis entre as 10 cidades — por 100 mil habitantes — com as maiores taxas de homicídios estimados. A cidade de Jequié, no Médio Rio de Contas, aparece na pior colocação do estado, ocupando o 2º lugar no ranking nacional.
O município já havia ocupado a vice-liderança no levantamento referente a 2022, quando registrou um índice ainda maior, ficando atrás apenas de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, que apresentou taxa estimada de 94,1 homicídios por 100 mil habitantes. Na ocasião, Jequié chegou a registrar quase 92 homicídios por 100 mil habitantes.
O indicador de homicídios estimados considera a soma dos casos oficialmente registrados com os chamados “homicídios ocultos”. Essas são as mortes violentas intencionais que inicialmente não foram classificadas como homicídio nas bases oficiais.
Confira a lista das 10 cidades com as maiores taxas:
Vale relembrar que os dados apresentados pelo Atlas da Violência 2026 não correspondem a uma atualização anual isolada. O estudo reúne informações consolidadas entre os anos de 2014 e 2024, isso com base em índices já apresentados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Nesse cenário, a Bahia permanece na 3ª posição entre os estados com maior número de homicídios estimados do país.
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OS PORTOS E ENTROCAMENTOS
Há um padrão geográfico observado no interior baiano, justamente na logística da dinâmica da violência e tráfico de drogas. Municípios como Jequié, Juazeiro e Feira de Santana aparecem entre os mais violentos do estado não apenas por fatores sociais, mas também por sua posição estratégica nas rotas rodoviárias.
Como aponta a pesquisa de João Marques Neto, no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a violência letal na Bahia não pode ser compreendida apenas por métricas convencionais, pois a criminalidade se reorganiza espacialmente por meio de uma interiorização estruturada que transforma cidades sub-regionais em novos epicentros de letalidade.
Jequié, por exemplo, é um importante entroncamento rodoviário no sudoeste baiano, conectando regiões do interior ao litoral por meio de corredores como a BR-116. A cidade registrou taxa estimada de 79,4 homicídios por 100 mil habitantes, o cenário mais crítico entre os municípios analisados.
Juazeiro, por sua vez, localizada às margens do Rio São Francisco e integrada economicamente ao sertão nordestino, apresenta forte circulação de mercadorias e pessoas, condição frequentemente explorada por redes criminosas ligadas ao tráfico.
No caso de Feira de Santana, sua relevância logística é ainda mais evidente. O município funciona como principal eixo de distribuição do interior baiano, ligando Salvador ao Norte, Nordeste e Sudeste do país por meio de rodovias federais como BR-116, BR-101 e BR-324.
Toneladas de drogas apreendidas em porto de Lauro de Freitas e posto em Feira de Santana | Fotos: Reprodução PF / PRF
Esse intenso fluxo transforma a cidade em ponto estratégico tanto para atividades econômicas quanto para disputas entre facções criminosas. Embora Salvador concentre o maior número absoluto de mortes violentas, com 1.354 homicídios estimados, sua taxa proporcional (52,7 por 100 mil habitantes) fica abaixo de diversos municípios do interior.
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Cidades próximas a grandes rodovias, áreas portuárias ou rotas interestaduais tornam-se pontos estratégicos para o tráfico de drogas, circulação de armas e expansão de facções.
A NORDESTINAÇÃO DA VIOLÊNCIA
Ou seja, a Bahia ocupa uma posição geográfica estratégica no Nordeste e possui ampla conexão terrestre e marítima, fatores que ampliam sua relevância nas rotas do crime organizado. Esse cenário ajuda a explicar a dinâmica da violência em municípios localizados próximos a grandes rodovias, entroncamentos e corredores logísticos.
Como apontam os pesquisadores Tainá Porto Cotrim e Cláudio Roberto de Jesus, em artigo publicado na Revista Brasileira de Segurança Pública, a disputa territorial entre facções vai além do controle do mercado consumidor local.
“Não se trata apenas de garantir hegemonia no mercado consumidor local, mas de ter acesso direto aos mercados produtores que buscam novas rotas para escoar seus produtos para o mercado altamente lucrativo”, afirmam os estudiosos.
(Nota atualizada às 17h55 para incluir mais contexto dos dados e imagens).
